9:42TICIANA VASCONCELOS SILVA

A vida inteira eu procurei o amor e não o encontrei. Bati em portas erradas. O busquei nas madrugadas. E chorei. Quando vi o sol nascer em uma manhã de abril, senti frio. E juntei minhas dores para não morrer sem acreditar na vinda de um novo amor. Ele não veio. E eu, no meio da floresta, me despedi, então, da vida. Caminhei até aquela avenida onde transeuntes se reúnem para protestar. Me senti só. E deu um nó. Na veia. Meu coração endureceu e a tarde veio como um relâmpago, trazendo a brisa das marés baixas. Uma lágrima caiu e ninguém viu. Parti, sem esperanças, para mais uma noite de lembranças. Da juventude, dos amores fugazes, dos beijos sem cores, das esferas vazias que preenchem céus azulados. Um anjo me deteve enquanto voltava para casa. Falou que o mel só se faz na primavera. A estação esquecida. Desci a avenida e me despedi de ninguém. Era a ferida de não ser ouvida. Era a saga de uma alma adormecida. Em casa, arrumei as últimas páginas do primeiro livro. Sob a vela acesa, ele era seu amigo. Reli, arrumei vírgulas. E nada de sentir a vinda. A solidão de um armário vazio, com roupas frias, sapatos velhos, um pouco de poeira e livros rabiscados. A sensatez a demoveu do gole de Whisky. Preferiu engolir a mágoa. Quem sabe um soluço a faria exalar o frio que a contaminou. Perdeu o horário do filme. Enrolou-se no cobertor. Olhou o relógio e se lembrou do último trem para a vernissage. Ver telas que fazem o tempo parar. Abstratos subtraindo o infinito em cor e molduras. Sentiu-se melhor. A vida mesmo era um rodeio, um devaneio, um estar no meio da realidade e do mistério. Qual critério para os discernir? Continuar caminhando, desvendando o ilusório em todo falatório. Tristeza de não ser compreendida. Ardor de uma paixão atemporal. Cada inspirar era uma prisão. Mas decidiu então ir ao encontro. Do sonho dentro do sol. Levantou os lençóis, cobriu-se de delicadezas e voltou ao final. Sonhou consigo mesma. Indo na direção contrária de uma multidão para se encontrar. Um bilhete revelou a sua identidade: a felicidade. Não entendia se podia ser feliz na solidão. Mas aceitou a missão. Pregos martelaram o seu último quadro na parede. Verde, com tons azulados, amarelo ao fundo, e o silêncio do amor. Pintou sua dor. E a colou na retina. Sussurrou o nome do guardião das memórias e voltou para a sua saga de mulher sem domínio sobre o fascínio da beleza. E se desfez de sua realeza. Para ser a força da natureza. Poeira, estrela, grandeza. Mas saber disso a mergulhou em labirintos profetizados pelas poesias. Infinitamente adornada por libélulas mágicas. Tragava cada hora como um segundo. E ao olhar para os pés, se afundava na linha que a separava da liberdade. Fitava o horizonte. A fonte. Se afastava. Desistiu do amor. Gritou. Gemeu. Profanou. E foi longe. Misturou sangue e gravetos e fez uma cabana. Lá, se escondeu. E nunca mais sofreu.

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