11:57Um país em colapso

por Vladimir Safatle

Agora, a Venezuela está à beira de uma guerra civil ou de uma intervenção internacional. Longe de ser apenas o resultado de seus conflitos internos, o destino dramático desse país exportador de petróleo é uma espécie de lente de aumento dos impasses da política latino-americana.

A Venezuela se tornou uma espécie de fantasma no qual todos veem seus medos e desejos.
Na verdade, ela expõe claramente o colapso tanto de uma certa experiência da esquerda no continente quanto de seu contraponto liberal.

Há de se entender que se existe algo que caracteriza a situação venezuelana hoje é que os dois lados do conflito são insustentáveis —o que demonstra a complexidade efetiva da situação.

O que Hugo Chávez vendia como o socialismo do século 21 tinha muito pouco a ver com socialismo. No máximo, víamos um capitalismo monopolista de Estado sustentado pela alta produção de petróleo e organizado no interior de um modelo político bonapartista e profundamente assentado na militarização do governo.

O modelo nunca se desdobrou em uma construção progressiva de dinâmicas de transferência do poder Executivo em prol de estruturas de democracia direta, mesmo que plebiscitos fossem convocados —normalmente a partir do Executivo e para referendar a permanência de suas figuras no poder.

O verdadeiro desafio da esquerda latino-americana estava em outro lugar. Tratava-se de abandonar o modelo populista centralizado em sua dependência patológica da figura do líder, assim como abandonar essas formas híbridas de capitalismo fundadas no controle de empresas estatais —isto em prol de modelos de autogestão. No entanto, nada disso foi tentado.

Até que o modelo ruiu nas mãos de Nicolás Maduro, provocando ondas de refugiados e policiais atirando contra manifestações populares.

Certos setores da esquerda nacional deveriam se lembrar de uma lição fundamental: nunca se está do lado de um governo que atira contra manifestações populares, independentemente de qual bandeira essa parte da população esteja levantando.

A violência fascista não é combatida com métodos fascistas de violência.

Mas é verdade que, por outro lado, a oposição venezuelana consegue, desde o início da experiência chavista, sustentar-se em larga medida do que há de pior na região.

Seu servilismo em relação ao intervencionismo americano lembra os piores momentos da nossa história.

Sua configuração classista e seus métodos estão longe de inspirar qualquer esperança de que uma mudança em direção a um aprofundamento democrático esteja na pauta.

Seus discursos apenas reforçam a certeza de que sua vitória seria seguida de uma carnificina. No entanto, é fato de que carnificina haverá com governo ou com oposição.

Isso nos demonstra a dificuldade da situação atual. Em um cenário ideal, ela só poderia ser resolvida por meio da anulação de ambos os polos. Nem o governo Maduro tem condições de continuar nem a oposição tem condições de se tornar governo. Pode parecer uma aporia, mas a história nos coloca muitas
vezes diante de aporias dessa natureza a fim de obrigar a imaginação social a produzir uma terceira solução.

É fato que a configuração atual das forças na região impede qualquer forma de tentativa nesse sentido. Não há nem mediadores críveis nem desejo para tanto. Por isso, as chances de uma verdadeira catástrofe de fim imprevisível são enormes. A pior de todas elas seria, sem dúvida, o ressurgimento das ações imperialistas abertas americanas.

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