20:03ZÉ DA SILVA

Tinha medo de entrar na loja da vila. Mas ali de fora, da calçada, dava para ver o revólver prateado, cabo vermelho, dentro do coldre que me fazia ser Roy Rogers ou o Cavaleiro Solitário. Um vizinho ganhou um no Natal – e pá, pá, pá, detonou rolos de espoleta. Ninguém saiu ferido, mas aqui dentro ficou alguma coisa. Em casa havia uma arma. De verdade. Não sei o motivo de meu pai ter aquele 32 preto e de cabo marrom que guardava numa caixa de madeira que ficava em cima do guarda-roupa. Um dia me vi sozinho – eu e minha vontade. Subi, peguei a caixa, abri, coloquei uma bala no tambor e girei como numa roleta russa que já tinha visto em filme. Não, não apontei para a cabeça, mas, olhando a posição do projétil, achei que podia apertar o gatilho uma vez. A explosão foi imensa. Acertei o pé de uma mesinha de madeira que havia no quarto. Uma lasca voou. Abri a janela para a fumaça e o cheiro sumirem. Guardei tudo. Pai e mãe nunca souberam disso. Mas aquilo não me meteu medo. Num outro dia, com meu irmão em casa, saí correndo atrás dele – apontando a arma. Acreditava que estava sem bala. Estava mesmo – e eu não apertei o gatilho. Mas apontava. A história do demônio da tentação. Quantas vezes ouvi antes e depois… Fui tentado – e não resisti. Mas o anjo que estava numa imagem pendurada no meu quarto olhou e atuou. Foi o começo de uma longa parceria.

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