17:27Bebida alcoólica é vilã tática do futebol brasileiro

por Paulo Vinícius Coelho

Segundo um treinador, o esporte está separado entre os bêbados que resolvem e os que atrapalham

A maior contribuição de um técnico estrangeiro, do patamar de JorgeSampaoli, é tática. Mas seu primeiro puxão de orelhas foi disciplinar. Na volta das férias, espantou-se com os jogadores acima do peso. Se estavam liberados para o descanso regulamentar, em tese poderiam extrapolar. Sampaoli não pensa assim. Nem deveria.

Porque, para que sua maior contribuição seja tática, é preciso ter o elenco em boa forma física desde o primeiro dia de treinos. Se for diferente, haverá desperdício de tempo.

O episódio de Sampaoli com os gordinhos santistas é a ponta de um problema tratado cada vez mais internamente, mas que pouca gente tem coragem de colocar o dedo na ferida. Há duas semanas, numa conversa telefônica, o dirigente de um grande clube afirmou a este colunista que todo grande jogador brasileiro bebe muito.

Um treinador do alto escalão avalizou. Ele disse que essa é só metade da história e que o futebol está separado em dois grupos: os bêbados que resolvem e os que atrapalham.

O livro “Football, Blood Hell”, biografia não autorizada de AlexFerguson, conta que o treinador escocês espantou-se ao chegar ao Manchester United, em 1986. Encontrou alcoólatras, como Bryan Robson. Seu sucesso tardou até a final da Copa da Inglaterra de 1990, seu primeiro título inglês só veio em 1993 e seu melhor time tinha um grupo de jovens formados em Manchester, com cultura profissional desde a formação.

Doutor Sócrates foi um gênio e sempre fumou seu cigarro e tomou sua cerveja. Foi um gênio. A preocupação é com o desperdício dos que não são geniais, mas podem virar craques. Não há no mundo país que desperdice tantos talentos quanto o Brasil. O último exemplo é Luan, do Grêmio. Nesse caso, não se fala de álcool.

Craque da América do Sul em 2017, acaba de ser envolvido em troca pelo Grêmio com o Cruzeiro, que só não aconteceu porque o jogador se recusou a sair para o mercado brasileiro —seria desvalorizado em uma troca por Thiago Neves. Aos 25 anos, a impressão é que Renato Gaúcho desistiu dele. O mercado europeu desistiu faz tempo… Por quê?

Informação ainda é a coisa mais moderna que existe. No futebol, circula rapidamente. O dirigente da Rússia sabe o que se passa na noite de Porto Alegre, Buenos Aires, Montevidéu, São Paulo. A cervejinha é perdoada. Na Alemanha, é quase diária. O problema é o abuso.

Fala-se, no vestiário de um grande clube paulista sobre um meio-campista que deixou o Brasil no ano passado,  que ele parou de jogar de área a área quando aumentou as doses de uísque.

O colunista se desculpa por citar histórias sem nomes, mas o contexto parece importante em um problema relatado por fontes diferentes com personagens distintos. Se um meia não joga de área a área, como na Europa, pode ser porque perde condição física. O time perde intensidade, a estratégia some. O antídoto é acabar com o paternalismo.

Futebol de alto nível é o corpo. Sampaoli montou o Santos em seu primeiro amistoso, contra o Corinthians, num 3-4-3 (veja abaixo). Para ser ousado taticamente, vai precisar de jogadores fisicamente aptos. Se estiverem gordinhos, por comer ou beber em excesso, não vai rolar.

Publicado na Folha de S.Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>