6:32Saudade do professor Milton

por Célio Heitor Guimarães

Incentivado pela acolhida de “Com todo o respeito, Excelências!”, lançado pela Editora Íthala, estou terminando um novo livrinho. Este bem mais modesto, de apenas 200 páginas, a ser editado pelo próprio autor. E com um conteúdo pouco usual: praticamente só elogios. Um dos textos contidos na futura edição foi escrito em junho de 2001, por ocasião do falecimento de Milton Santos, um brasileiro que poucos conheceram, mas que orgulhou o Brasil com o seu trabalho e a sua cultura. Reproduzo o texto, como amostra do que virá:

“Certas pessoas deveriam ser proibidas de morrer. No máximo, poderiam ficar ‘encantadas’, como dizia o velho Guimarães Rosa. Uma delas era o geógrafo, bacharel em Direito, pensador e humanista Milton Santos, professor emérito da USP, que faleceu no domingo passado.

“Milton Santos foi um dos brasileiros que orgulharam o Brasil. Baiano de Brotas de Macaúbas, negro, filho de professores primários, neto de escravos – ‘não sei ao certo, porque em minha casa me ensinaram a olhar mais para frente do que para trás’ –, e um dos muitos intelectuais que amargaram os anos de chumbo da ditadura, só muito recentemente ganhou o destaque merecido da mídia nacional. Mas era reverenciado internacionalmente, com respeito e fervor.

“Completou o curso primário em casa, onde os pais lhe ensinaram álgebra, francês, boas maneiras e brasilidade. Aos quinze anos, já era, ele próprio, professor. Depois, passou a pensar e a frequentar o mundo. França, Estados Unidos, Canadá, África. Uma troca constante de ensinamentos.

“O pensamento de Milton Santos sempre foi transparente, direto, de uma exatidão desconcertante: ‘O Brasil é, hoje, um território nacional mas de economia internacional’ – ensinava aos alunos, explicando: ‘O território vai sendo moldado por quem manda. E não são apenas as multinacionais estrangeiras, mas todas as grandes empresas estrangeiras ou brasileiras que trazem para o território uma lógica globalizante. Na realidade, uma lógica globalitária; há mais do que globalização, há globalitarismo’.

“Para Milton Santos, o Brasil é um país não-governado, onde a política é feita pelas grandes empresas. Pior do que isso, ele via o Brasil como um País cada vez mais fragmentado, numa fragmentação que muito dificilmente possibilitará a reconstrução do todo, e lamentava que boa parte dos brasileiros ainda não se dá conta disso.

“— Vejam a maneira como aqui se discute a previdência social – exemplificava. ‘Há um contrato da nação que cada pessoa cumpre a vida inteira, e no fim dizem a ela: ‘Esse contrato não vale mais’. E isso é aceito! Então, aquilo que os franceses chamam de lien social, a solidariedade, não existe mais no Brasil’.

“A razão disso, para Milton, era muito clara: ‘Os políticos não fazem mais política; a política é feita pelas grandes companhias. Os políticos e o governos são, hoje, apenas, porta-vozes’.

“A esperança de Milton Santos estava no povo. Aí ele se revelava um otimista: ‘O povo faz política, os pobres é que fazem política. Porque conversam, porque conversando eles defrontam o mundo, buscam interpretar o mundo. O povo se renova todos os dias e, num País como o Brasil, isso tem um papel extraordinário na produção de um outro homem’.

“Extraordinário, na verdade, era ele mesmo, um personagem de aparência humilde, quase tímido, de fala mansa, mas com uma bagagem excepcional, que inclui quarenta livros, mais de trezentos artigos e vinte títulos honoríficos, colhidos mundo afora. Ademais, com uma atuação sempre marcante. Jamais se recusou a dar a sua opinião. Pensava e dizia o que pensava. Isso, às vezes, incomodava muita gente. ‘O papel do intelectual é esse’ – justificava, modestamente. Dizer as coisas como elas são. Sem perder jamais a serenidade nem o sorriso.

“Que pena, prof. Milton! Que pena que o senhor tenha precisado ir logo agora que se está cogitando seriamente em construir um novo Brasil; quando, finalmente, começa a haver uma tomada de consciência – ou “percepção”, como preferia o senhor – por parte da população de seus direitos fundamentais como seres humanos e cidadãos. O senhor certamente fará muita falta, como falta estão nos fazendo, entre outros, Betinho, Darcy Ribeiro, Ulysses Guimarães, Barbosa Lima Sobrinho, Josué de Castro, Helder Câmara, Mário Covas, Aloysio Biondi e Plínio Marcos. Restar-nos-á o seu exemplo e as suas lições. Oxalá tenhamos aprendido alguma coisa!”

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