11:59O nome de Deus na garganta e nas mãos espada de dois gumes

por Aroldo Murá, no ICNews

Novo presidente da República, novos tempos.

Para alguns, ‘tempos estranhos’; para outros, “apenas tempo de renovação”, especialmente depois dos “annus terribilis” do segundo governo Lula e os de Dilma, que conseguiram queimar o incontável capital político que a Nação neles depositara ao entregarem o país à gestão e sanha pecuniária lulo-petista.

E o resultado inconteste do caos, que Temer até tentou manter, ao manter ao seu lado homens como Geddel Vieira Lima, por exemplo, está aí mesmo, notável nos US$ bilhões devolvidos aos cofres públicos por ladrões confessos que se haviam entronizado no comando do país.

MUITAS BANDEIRAS

Faça-se justiça: os que institucionalizaram a ladroagem do erário não foram apenas petistas. PMDB, PP, PR, PSDB, PDT e outras legendas tangidas pela mesma sanha, fizeram a festa com a miséria da Nação. É a Procuradoria Geral da República e a justiça que o dizem em mil e um despachos e decisões.

Fico, no entanto, entre os que torcem para que o novo presidente consiga ‘endireitar’ o país, hoje vivendo sob grandes ameaças. A maior delas, o crescimento do crime organizado que, não tão lentamente, vai solapando o tecido do Estado e assumindo, em certas localidades, o papel que caberia ao poder público no atendimento à cidadania. Isto não é figura de linguagem…

VENCER TENTAÇÕES

Há, na verdade, outros tantos desafios que Jairo Bolsonaro terá de enfrentar. Um deles, o de repelir a tentação do autoritarismo, já notável a partir de definições e de falas “ex-cathedra” do próprio neo-presidente mas, sobretudo, de muitos de seus auxiliares.

A tentação autoritária é um dos sete pecados capitais da Democracia, praticados com a mesma desenvoltura à Direita ou a à Esquerda.

Mas justiça seja feita: Sergio Moro, ministro da Justiça, e Paulo Guedes, o poderoso ministro da Economia, até agora não foram contaminados pela mosca “tsé-tsé” que, como primeira doença, sobrepõe-se aos desígnios da Constituição. Espero que estejam vacinados contra essa doença infantil e sabidamente contagiosa em sistemas políticos imaturos.

ESTADO TEOCRÁTICO

No entanto, meu olhar treinado sobre certas realidades histórico-antropológicas me coloca em estado de alerta com o crescimento da influência de grupos religiosos no entorno do novo presidente.

O pastor Silas Malafaia, que ainda permanece sob a investigação da Polícia Federal, lidera, mesmo sem mandato para tanto, uma nada sutil engrenagem de pastores e igrejas de todas as tonalidades, teologias e enormes ambições materiais e poder.

O grupo não brinca em serviço, respaldado na pendular bancada evangélica. Assim, a imprensa nacional registrava no último dia do ano, 31, advertência de Malafaia ao presidente, lembrando que terá de cumprir certos compromissos de campanha. E por uma simples justificativa: teria sido eleito presidente pelo povo evangélico para cumprir muitas promessas que assumiu. Agora, ajoelhado, teria de rezar pela cartilha de um universo de grandes, médias, pequenas e micro igrejas espalhadas pelo país.

Não é bom negócio para o país a entronização de um estado Teocrático.

No Ocidente desenvolvido, essa é ideia é só lembrança do Medievo.

Jamais nos dias de hoje.

GOVERNO DE AYATOLÁS

Misturar Deus e Governos, estabelecendo Teocracias, é mau negócio. O claro exemplo dessa incompatibilidade vem de estados islâmicos do Oriente, como Arábia Saudita, e o mais expressivo deles, o Irã, com a democracia dos Ayatolás.

Getúlio foi tentado a ampliar o viés religioso do Estado brasileiro que, com a República implantada pelos Positivistas, parecia afastado definitivamente. Só parecia, pois políticos com dois mil anos de existência, como o cardeal Leme, fizeram de tudo – e com bons resultados – para que o “retrato do velho” andasse ao lado da cruz de Cristo.

OLAVO DE CARVALHO

Afinal, o sistema do padroado (a Igreja mantida pelo Estado) teria de sobreviver…

Lula e Dilma não escaparam da mesma tentação, ligando-se à liderança de capitães de poderosas igrejas, como Edir Macedo, da Universal, uma comunidade de grande capilaridade nacional, de administração absolutamente centralizadora (não congregacional, mas de linha episcopal).

Parece que o filósofo católico romano Olavo de Carvalho, de seu habitat nos Estados Unidos, representa a outra face dessa influência religiosa no Governo que se instala. Embora sem ter ligação e reconhecimento oficial das autoridades católicas (muito pelo contrário, é o que se diz) ele tem enorme acústica no Governo Bolsonaro. Conseguiu emplacar, sem esforços e sem esconder o “feito”, os ministros do Exterior e o da Educação. O que não é pouco.

PAIS PEREGRINOS

Nada discreto, Olavo de Carvalho, como Malafaia, não é sutil. Só tem consistente brilho intelectual, ao contrário do dono da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que me parece primitivo do ponto de vista intelectual.

Quando observo a influência desse filósofo Carvalho, recolho o próprio exemplo dos chamados Pais Peregrinos, os fundadores dos Estados Unidos.

Eles, que fugiram da Inglaterra para viver liberdade de culto, sem ingerência do estado inglês, estabeleceram um “dogma” definitivo (nem todos dogmas são imutáveis): na Democracia fundada pelos fundadores do May Flower, jamais seria aceito um governo Teocrático.

Diante do exemplo americano, fico a matutar sobre o porquê de o novo Governo não adotar esse vértice dos pais fundadores dos States? Mas, pelo contrário, vai dando mostras que quer proclamar um Governo de Yaweh, tendo “o nome de Deus na garganta, e nas mãos espada de dois gumes”. Como recomenda o salmista.

 

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