6:34Um homem realmente perigoso

Por Ivan Schmidt 

Algumas lacunas na recente historiografia política do país, aos poucos vão sendo preenchidas em benefício de leitores interessados nas rumorosas questões que se sucederam ao longo do século passado, a partir dos anos 20.

Uma prova dessa evidência (que ainda tem inúmeras vertentes em aberto) está na biografia de Filinto Müller emblematicamente intitulada O homem mais perigoso do país (Civilização Brasileira, RJ, 2017), escrita pelo brasilianista R. S. Rose, nascido na Califórnia (EUA) e com doutorado em sociologia obtido na Universidade de Estocolmo (Suécia).

O autor viveu mais de 20 anos no Brasil, escrevendo cinco livros sobre nosso país, além de atuar como professor visitante na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tendo-se dedicado quase inteiramente à pesquisa da Era Vargas.

A rigor essa é a primeira biografia de Filinto, um dos colaborares mais próximos de Getúlio no período da ditadura e um pequeno período no governo constitucional, a ponto de ser identificado como braço direito do líder inconteste, sobretudo no emaranhado e difícil departamento policial destinado a tratar das questões políticas, atividade na qual se notabilizou como ferrenho opositor da ação de militantes comunistas.

Nascido e criado em Cuiabá, Filinto ingressou no Exército e foi um dos integrantes do chamado tenentismo, desertor da Coluna Prestes, futuro colaborador da ditadura Vargas, até ser nomeado chefe de polícia com a implantação do Estado Novo.

Na advertência inicial Rose escreveu que “o leitor não deve pensar que estou defendendo Filinto Müller, pois não estou. O que pretendo fazer é uma avaliação honesta de um homem que, em 2013, teve no Brasil nada menos que dez escolas batizadas em sua homenagem”.

Talvez tenham faltado tempo ou interesse pessoal ao biógrafo, o que é imperdoável,  para melhor compreender e esclarecer os leitores a respeito dos métodos que levam à escolha de nomes para instituições públicas e outros logradouros no Brasil. É provável que sua opinião fosse diferente.

Para o brasilianista alguns indicativos sobre a formação humana e intelectual do cuiabano são explícitos e dentre eles um se destaca dos demais: “Primeiro surgiu a má compreensão do positivismo por seus professores na mais prestigiada academia militar do país. No momento em que se graduaram, eles tinham sido submetidos a estudos que propunham que os oficiais deveriam ser os conhecedores do melhor caminho para levar a nação brasileira adiante. Além disso, sua educação era orientada pela elite. Esse era um modelo que se encaixava perfeitamente às ideias da época da escravidão”.

Decerto em referência velada à Academia Militar das Agulhas Negras (RJ), Rose conclui que o mesmo pensamento é apropriado à versão civil, tendo em vista que ambos os modelos “eram e ainda são projetados e instituídos, consciente ou inconscientemente, para manter a maioria dos brasileiros brancos em posição de controle sobre seus concidadãos ‘sujos e da ralé não branca’. Para o pensamento das elites, este era natural e paternalista. Na época de Filinto, a escola para oficiais não permitia a entrada de não brancos e judeus”.

A ditadura de Getúlio Vargas iniciada com a Revolução de 30 parecia ter vida curta, e uma das causas era o Plano Cohen idealizado por integralistas apoiados por militares, como o capitão Olimpio Mourão Filho, ligado à Ação Integralista Brasileira (AIB). Ele  havia elaborado a conspiração com a ajuda de Plínio Salgado, reles imitador das ideias de Adolf Hitler.

O citado plano não passava de um “cenário hipotético construído em cima do que aconteceria em um novo ataque comunista”. Chefe do serviço secreto dos integralistas, o capitão sugeria que unicamente a neutralização de esquerdistas poderia impedir a expansão da atividade comunista. Com alguma modificação no texto, o comando do Exército enviou cópias ao ditador e seu chefe de polícia.

Vargas não titubeou em alardear por meio de repetidas proclamações radiofônicas a vigilância necessária para o enfrentamento da nova ameaça representada pelos lacaios de Moscou.

No dia 27 de outubro de 1937, há 80 anos, em reunião secreta convocada pelo então ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, com a participação de Góis Monteiro e Filinto Müller, entre outros, “ficou decidido iniciar os preparativos para um golpe de Estado. O plano manteria Getúlio como líder nacional. Não se sabe se Vargas sabia desses planos. Ele desejava esperar até o dia da Proclamação da República, 15 de novembro, para anunciar a sua própria diktat à nação. Mas, quando os candidatos à presidência Armando de Sales e José Américo de Almeida ficaram sabendo do que Vargas pretendia e começaram a tornar públicos seus sentimentos a respeito, em 8 de novembro, alguns assessores-chave, incluindo o recém-nomeado ministro da Justiça, Chico Campos, Dutra e Filinto Müller, aconselharam Getúlio a agir”, escreveu Rose.

Os conselhos surtiram efeito e na manhã de 10 de novembro seguinte, Getúlio decretou legais a Constituição de 1937 e o golpe de mão que passaria à história como Estado Novo.

Na mesma noite e sempre usando uma cadeia nacional de rádio, informa Rose, Getúlio tornou públicas as razões extremas que o levaram a assumir tais atitudes contra o espectro do comunismo, o maior vilão do momento. Era também, segundo o biógrafo, o momento de afirmação de uma liderança que pensava na vontade do povo e, em sua defesa, e para esse fim, sem a menor preocupação em agir com dureza e violência se necessário fosse.

Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, na essência propriamente dita o Estado Novo se inclinava para o lado nazista, mesmo que Vargas nunca tenha aderido formalmente à Alemanha ou Itália. Contudo, o verdadeiro matiz do regime indicava uma clara simpatia pela dominação exercida pelo Eixo. Dutra, Góis Monteiro, Francisco Campos, Lourival Fontes, Alexandre Marcondes Filho e Filinto Müller eram os mais influentes defensores da ideologia nazifascista no seio do Estado Novo, sendo a voz mais forte do outro lado a do ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha.

A influência do governo norte-americano foi mais forte e o Brasil acabou declarando guerra ao Eixo, enviando um contingente de pracinhas para lutar na Itália contra os alemães.

Feridas laceradas continuavam abertas no final da guerra e um dos pontos mais salientes foi a bateria de ataques desferidos contra Getúlio Vargas pelos jornais da cadeia associada do jornalista Assis Chateaubriand. Os artigos mais virulentos foram escritos por David Nasser na revista semanal O Cruzeiro, pregando abertamente a deposição de Getúlio e a condenação do odiado chefe de polícia, para todos os efeitos, o principal responsável pela tortura e assassinato de centenas de opositores do regime varguista.

Não é à toa que Anita Leocádia Prestes, filha do legendário Cavaleiro da Esperança, afirma sem rodeios que Müller, além de trair companheiros, foi um facínora “a serviço das duas ditaduras que infelicitaram nosso país”. Durante a Era Vargas, o chefe de polícia da ditadura entregou ao regime nazista as prisioneiras Olga Benário Prestes (mãe de Anita) e Elise Ewert, mais tarde torturadas e executadas pelos carrascos hitleristas.

As denúncias de Nasser contra Filinto foram publicadas tempos depois no livro Falta alguém em Nuremberg, o famoso tribunal internacional que julgou e condenou prisioneiros de guerra do Terceiro Reich, numa tentativa ousada de comparar as atrocidades avalizadas pelo antigo chefe da polícia varguista às dos criminosos encandeados pelo odioso fanatismo de Adolf Hitler.

Entretanto, a carreira política de Filinto seguiu sem maiores atropelos e, aliás, foi coroada pela abarcante acolhida que teve da parte dos chefes do golpe militar de abril de 1964, tempo em que obteve a cadeira de senador por Mato Grosso e a presidência da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação política do movimento golpista.

Era uma terça-feira de julho de 1973 quando o senador Filinto Müller, a esposa Consuelo e o neto Pedro subiram a bordo do 707 da Varig que sairia do Rio de Janeiro com destino a Paris numa viagem de 11 horas. Provavelmente um passageiro foi a um dos banheiros no fundo da aeronave e aí acendido um cigarro, mesmo estando no único lugar em que fumar era terminantemente proibido.

Hipóteses levantadas à época por autoridades aeroviárias francesas concluíram pelo  início de um incêndio causado pela brasa do cigarro não inteiramente apagada ou mesmo por um curto circuito num dos banheiros da parte traseira do 707, que acabou caindo já nas proximidades do aeroporto de Orly, matando ao todo 122 pessoas.

Rose termina a longa biografia lembrando que poucos dias depois, o corpo do homem mais perigoso do país voltava ao lugar da partida, o aeroporto internacional do Galeão: “Choveu fino durante o enterro”, finalizou.

3 ideias sobre “Um homem realmente perigoso

  1. Rogério Distéfano

    Suas resenhas são aperitivos imperdíveis. Acabo de ler o ‘Fascismo de Esquerda’, indicação sua, que já me remeteu para a ‘National Review’, revista em que o autor, Jonah Goldberg, é editor. Esse de hoje, sobre Filinto Müller, já me levou para o balcão da livraria.

  2. marcio

    Historicamente o Exercito brasileiro sempre teve oficiais negros em suas fileiras, inclusive generais, portanto se ele errou neste quesito com certeza errou em outros.

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