7:53Chico Buarque, Geraldo Vandré e os meninos de Campinas

por Dirceu Pio

        Houve uma época em que a esquerda – ela mesma, a esquerda – criticava Chico Buarque de Holanda por suas músicas “intimistas” e cheias de frases que induziam ao comodismo, ao conformismo, à inépcia…

        “O grande ato revolucionário que Chico praticou – diziam – foi colocar o povo na janela pra ver a banda passar cantando coisas de amor!”

        As músicas de Chico eram sempre um convite à espera, como se dissessem “ei você aí, cruze os braços, fique tranquilo que o novo dia virá ao seu encontro” e “só então você vai poder cobrar com juros tudo que lhe fizeram”.

        Reparem, por exemplo, na letra de “Apesar de Você”:

“Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro”

        É uma síntese de tudo o que as esquerdas deploravam em Chico Buarque… Não tenho informações, mas acho que Geraldo Vandré escreveu a sua “Pra não dizer que não falei das flores” para dar um recado a Chico Buarque: “Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”, exatamente o oposto do que Chico pregava.

        A censura amaldiçoou, mas as esquerdas aplaudiram… E transformaram a música de Vandré numa espécie de hino das oposições à Ditadura…

        SÓ A PSICANÁLISE EXPLICA

        Não sou psicanalista, mas acho que no subconsciente do compositor e do homem Chico Buarque de Holanda ficou engavetada a ideia de um estado repressor, de um estado que impõe sacrifícios à população, e de uma sociedade que precisa cobrar com juros todo o mal que este lhe fez…

        O débito é enorme, infindável e a ordem é cobrar, cobrar e cobrar, com juros, com muitos juros…

         Se não for através da Psicanálise, não conseguiremos uma resposta minimamente razoável para a liga, tenaz, indestrutível, de Chico ao PT, a Lula, Dilma, a Cuba, a Fidel Castro…É a ideologia, opina um meu amigo e eu até admito que seja sim, mas creio que exista um fator psicanalítico que vai além das ideologias…

        A incapacidade deste país em se mobilizar; em pelo menos tentar ajudar na solução de um problema é assustadora. Diante de qualquer adversidade, a prática no Brasil é cruzar os braços e esperar que o poder público, a mãe, o pai, o avô, a avó da nação, tome as devidas providências…

        Estamos divididos entre os seguidores de Chico – muitos! – e os seguidores de Vandré – poucos! Há os que cruzam os braços e esperam; e há os que arregaçam as mangas e vão à luta!

        SEGUIDORES DE VANDRÉ AO SUL

        Vamos ver primeiro do que é capaz o seguidor de Vandré, espécie de brasileiro que não fica à espera do estado-mãe, representado pela prefeitura, pelo governo estadual, governo federal ou por uma empresa estatal… Ele tem iniciativa e começa a agir sem cruzar os braços, e, tanto quanto possível, faz as coisas acontecer…

          Em Joinville, Santa Catarina, uma das cidades de forte colonização alemã, ainda existe um corpo de bombeiros formado exclusivamente por voluntários; pessoas da comunidade que recebem treinamento e são capazes de se mobilizar, a qualquer hora do dia ou da noite, para apagar um incêndio. É trabalho vo-lun-tá-ri-o! Sem nenhuma remuneração!

          Em Maringá, no Paraná, e em São José, Santa Catarina, funciona já há algum tempo o Observatório Social, pessoas da comunidade reunidas por uma Ong para fiscalizar, via licitação pública, todos os atos da prefeitura. Em ambas as cidades, a iniciativa já conseguiu conter e denunciar o desvio de milhões de reais…

          O fato dessas iniciativas terem surgido no Sul do País não será mera coincidência. O Sul do Brasil é a região que mais age sob impacto da cultura europeia e talvez por isso as comunidades consigam afastar essa malemolência típica brasileira e que partidos como o PT ajudam a aumentar e fomentar…

          A FACE BONITA DA TRAGÉDIA

        Como repórter, eu cobri e vi de perto as enchentes devastadoras ocorridas em Santa Catarina em 1975 (Tubarão), 1982 (Blumenau) e 1985 (Brusque)…Foi simplesmente fantástico ver como as comunidades dispõem de um estoque infindável de energia e solidariedade para reagir em situações de emergência…

        Em Blumenau, como exemplo, depois da grande enchente vêm as enxurradas, inundações de menor porte que castigam os bairros após qualquer chuva mais forte pois as galerias pluviais entraram em colapso…as enxurradas se repetem e se repetem e a comunidade lava e lava tudo outra vez, lava e pinta as guias de branco, uma, duas, vinte vezes se necessário for – o que a cidade não suporta é ser surpreendida cheia de lama e outras imundícies…

         SEGUIDORES DE CHICO, EM BRASÍLIA

        Já os seguidores de Chico são muito mais numerosos e influentes… Pululam no Congresso Nacional, barram toda e qualquer reforma que tente de algum modo reduzir a dependência da sociedade ao estado-mãe…No fundo, percebem que a redução da “maternidade” estatal significa perda de poder, perda da capacidade de “ajudar” a população…

        Na atitude dos seguidores de Chico está a essência do fisiologismo, do compadrio, da corrupção, a essência da péssima qualidade da política brasileira que faz dos partidos e dos sindicatos entidades parasitárias…

        Em essência, somos um país de parasitas, um país governado por parasitas que transforma o dinheiro dos impostos num grande butim…

         EXEMPLO EM CAMPINAS

         Há uma imensidão de exemplos do que são capazes os seguidores de Chico, mas eu vou ficar com apenas um, claro, insofismável, para ilustrar a índole que faz a desgraça deste país…

        É simples e singelo: a EPTV é a TV Globo da região de Campinas. E eles têm lá um ótimo jornalismo sob comando da jovem Eliane Vieitz…

        Há dias atrás, daqui de Vinhedo, onde moro, eu vejo uma das matérias do que chamam de “acompanhamento” – a reportagem vai a um bairro, identifica um problema e cria uma espécie de agenda do assunto que ficará em aberto até a solução…

        Na primeira da série, as câmeras mostraram um terreno baldio cheio de mato; o local já fora um campo de futebol, mas o esporte foi paralisado pelo crescimento do mato…

        De um lado, via-se o terreno encoberto pelo capim, de outro, via-se um bando de 10 ou 15 adolescentes, todos aparentemente saudáveis e à espera da prefeitura pra “limpar” o terreno…

        A TV intermediou a situação e um dos secretários municipais deu entrevista se comprometendo a realizar a capinação do terreno em mais alguns dias… Na segunda reportagem, os mesmos meninos aparecem alegres, felizes jogando bola no terreno já capinado pela Prefeitura…

        “Ainda falta erguer este alambrado”, exortava o repórter da EPTV, enquanto as câmeras mostravam um alambrado de arame tombado… Vão ficar à espera da Prefeitura por mais algumas semanas, de braços cruzados, para erguer o alambrado, como talvez recomendasse Chico Buarque de Holanda, caso morasse em Campinas…

        Esse é bem o retrato do Brasil!

5 ideias sobre “Chico Buarque, Geraldo Vandré e os meninos de Campinas

  1. Sergio Silvestre

    Depois de assistir tantos jornais televisivos,ler tudo que escrevem em jornais ligados a governos e depois de ver tantas diferenças entre uma noticia e outra nos blogs ,conclui que jornalista é algo desnecessário.

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