6:40Revolução de Outubro, 100 anos

Por Ivan Schmidt 

Organizado por Bruno Barretto Gomide e publicado há poucas semanas pela Boitempo (SP), o oportuno livro Escritos de Outubro, os intelectuais e a Revolução Russa (1917-1924), que está perto de completar 100 anos, certamente será de grande valia para os pesquisadores e estudiosos do tema das revoluções, especialmente a conflagração que mudou os destinos da antiga Rússia e, por longos anos, influenciou grande número de países do mundo.

Gomide tem credenciais suficientes para assinar a organização do livro, tendo em vista o exercício de livre-docência de literatura russa na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de S. Paulo (FFLCH-USP), além de ter sido pesquisador-visitante no Instituto Górki de Literatura Mundial em Moscou, no Puchkinski dom, em São Petersburgo e nas Universidades de Glasgow, Londres, Harvard e Berkeley.

Sua devoção à literatura russa o levou a criar e coordenar um grupo específico de estudos na Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), sendo autor de várias obras, dentre as quais a Nova antologia do conto russo,  lançada em 2011 pela Editora 34.

Segundo Martin Baña, um dos apresentadores do livro, “a Revolução Russa se forjou por meio das ações heroicas das massas, mas também a partir desse potente insumo das letras”, tendo em vista que “desde o século XIX, os publicistas e os escritores russos tiveram, com suas obras, um papel destacado na formação da consciência cultural e política de seu país”.

Foi exatamente nessa trilha que o organizador encontrou a motivação para a realização do trabalho agora entregue ao público interessado, com a justificativa de que “na Rússia, desde os primórdios da cultura letrada, pressupunha-se que a palavra escrita e a transmissão de verdades superiores fossem correlatas”.

Contudo, é providencial prestar atenção à advertência de Gomide, ao constatar que “nem todo escritor ou pensador russo era um revolucionário de nascença, como fez crer certa vulgata, difundida não só por setores da esquerda. Escrever a revolução podia ser também escrever contra a revolução, ou acossado por ela. Ou ainda, como Dostoiévski bem demonstrou contrastar os elementos reacionários dos textos a uma revolução na forma artística”.

A escolha do marco cronológico final, diz o especialista em literatura russa, não implica a sugestão “de que o fim do momento leninista tenha sepultado o que haveria porventura de mais aceso na cultura soviética, certamente mais variada do que o conceito monolítico do totalitarismo, de tão larga fortuna na sovietologia da Guerra Fria, fez supor”.

Gomide esclarece que “a opção por um recorte cronológico que vai de 1917 a 1924 tenta captar o calor da hora, a escrita em meio ao turbilhão, a um momento em que, sempre é bom repetir, apesar da obviedade, aqueles indivíduos não tinham a mínima certeza sobre a continuidade da nova Rússia soviética, então vista com temor, ceticismo, fascínio e entusiasmo em cenários tão trágicos como o da Petrogrado faminta e enregelada ou em meio à experiência traumática da Guerra Civil, para muitos historiadores o evento definidor da quadra revolucionária”.

Bábel, Biély, Blok, Bukhárin, Búnin, Górki, Kollontai, Lênin, Maiakóvski, Mandelstan, Tróstki e Zamiátin, entre outros menos conhecidos do leitor brasileiro, já se destacavam na esfera intelectual anterior ao período de 1917 a 1924, que é exatamente o ano que marca a ascensão de Stalin como todo-poderoso ditador do colosso bolchevique. Fato que para muitos desses pensadores passou a ser uma tortura física e mental, na veraz acepção do termo.

Os textos incluídos na presente antologia, selecionados por Bruno Barretto Gomide não necessariamente em ordem cronológica seguem, entretanto, uma conspícua escala de valores éticos e morais, ademais do significante desvendamento das intenções que logo predominaram na orientação do realismo da arte supostamente inspirada pela revolução.

O material selecionado pelo organizador contempla resenhas, críticas literárias, ensaios filosóficos, políticos e sociológicos, assim como apreciações sobre outros ramos da arte e da cultura, retratando “a ansiedade relativa à destinação dos remanescentes da cultura pré-revolucionária e aos problemas correlatos a noções como as de patrimônio cultural, humanismo, liberdade de expressão e memória histórica”, escreveu Gomide.

O primeiro a ser citado é Aleksandr Blok (1880-1921), nascido em São Petersburgo, com o nome mantido na forma tradicional (como os demais), um dos mais renomados representantes do simbolismo russo. No texto Intelligentsia e a revolução, o extraordinário poeta proclamou que “a extensão da Revolução Russa, desejosa de abranger o mundo inteiro (menos que isso uma autêntica revolução não pode desejar; se esse desejo se cumpre ou não, não nos cabe adivinhar), é tamanha que ela nutre a esperança de provocar um furacão mundial, que trará um vento ameno e um odor delicado de laranjal aos países encobertos pela neve e umedecerá as estepes do sul áridas de sol por uma chuva nortenha refrescante”.

Leon Trótski (1879-1940) no ensaio Aleksandr Blok, autor do poema “Os doze”, assegura que o bardol ingressou na esfera de Outubro para ocupar “um lugar particular na história da futura criação artística russa”. Com relação ao poema, Trótski revela que ele “não é um poema da revolução”, mas “o canto do cisne de uma arte individualista que se achegou à revolução. E esse poema ficará”.

O futuro comandante do Exército Vermelho diria ainda que “o fato de ter escrito ‘Os doze’ e depois se calado ao parar de escutar a música decorre inteiramente tanto do caráter de Blok como daquela música incomum que ele captou em 1918. O convulso e patético rompimento com todo o passado foi uma ruptura fatal para o poeta. Talvez somente os eventos incessantes e crescentes da revolução, a poderosa espiral de abalos que abarcou o mundo inteiro, pudessem sustentar Blok, se desconsiderarmos os processos destrutivos que ocorriam em seu organismo”.

Com argúcia Trótski acrescentou que “o curso da história não é adaptável às necessidades psíquicas de um romântico penetrado pela revolução. Para se manter em pé sobre as dunas do tempo seria preciso outra têmpera, outra fé na revolução, uma compreensão de seus ritmos regulares, não apenas da música caótica de suas marés. Os guias da revolução eram pessoas alheias a ele em conformação psicológica e em modo de vida. E por isso, após ‘Os doze’, ele se recolheu e se calou”.

Protagonista de uma relação complexa com o stalinismo o escritor Isaac Bábel foi executado em 17 de janeiro de 1940, acusado de conspiração contra o regime, atividade terrorista e espionagem, crimes que lhe foram imputados falsamente, os quais confessou sob tortura.

No conto “O palácio da maternidade” escrito em março de 1918, sua crítica da revolução já transmitia uma clara frustração: “Oito mulheres de Petrogrado com o rosto cinza e as pernas inchadas pela correria. O passado delas: meses de filas e lojas de consumo; apitos de fábrica que chamavam os maridos para a defesa da revolução; a dura inquietação da guerra, o tremor da revolução que leva não se sabe para onde”.

Para o poeta Vladímir Maiakóvski, para muitos o maior da Revolução de Outubro, o desvelo que manifestava para a necessidade da guarda de qualquer tipo de documento escrito relacionados com a insurreição, é patente no pequeno texto publicado em 1923 em comemoração aos cinco anos do Exército Vermelho: “Nos primeiros anos de nossa revolução, foi precisamente assim o ‘esquecimento’ – foi esse especialmente seu aspecto comum. Nossa revolução andava num terrível fracasso tecnológico. A tecnologia para impressão que havia restado caía aos pedaços, despreparada para o correr da vida. Uma enorme quantidade do nosso trabalho de agitação conduzíamos de forma caseira, conduzíamos manualmente. Recordemos, contudo, os ‘jornais boca a boca’, os ‘cartazes de estêncil’, as ‘vitrines em pontos de agitação’. Por exemplo, o primeiro jornal ferroviário foi simplesmente escrito a giz na parede do vagão e, claro, quando do ‘lançamento’ do número seguinte, cruelmente eliminado”.

Em 1922 aparecia o artigo assinado por Osip Mandelstan sob o título “O humanismo e o presente” em resposta a uma reflexão escrita por Aleksandr Blok. A preocupação social do pensador refulge numa anotação motivada pelo caminho inevitável do processo revolucionário: “O instinto de arquitetura social – isto é, a estruturação da vida em grandiosas formas monumentais que, aparentemente, estão muito além das necessidades imediatas do homem – é profundamente inerente às sociedades humanas e não é ditado por um capricho vazio. Renuncie à arquitetura social e você demolirá a construção mais simples, incontestável e necessária a todos: demolirá a casa do homem, a morada humana”.

Concluo com um comentário de Lênin sobre um livro de Arkádi Aviértchenko, publicado em Paris em 1921, na resenha “Um livrinho de talento”, cuja expressão decerto traduzia a apreciação sutil e bem-humorada que tencionava conferir ao autor: “É interessante observar como um ódio fervilhante provocou tanto momentos incrivelmente fortes como outros fraquíssimos nesse livrinho de elevado talento. Quando o autor desses contos se dedica a um tema que ele desconhece, o resultado não é artístico. Por exemplo, o conto que representa Lênin e Trótski na vida doméstica. Há muita maldade, não é nada plausível, amável cidadão Aviértchenko! Garanto ao senhor que Lênin e Trótski têm muitos defeitos, e de todo tipo, inclusive na vida doméstica. Só que, para se escrever com talento sobre eles, é preciso conhecê-los. E o senhor não os conhece”.

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