6:57O TRONCO DO NOSSO IPE

Na velha e boa escola pública éramos obrigados a ler os clássicos. Um deles, José de Alencar, nos torturava com ‘O tronco do ipê’, alegoria da decadência da aristocracia rural fluminense. À sombra da árvore a família vivia, como o Império, o final de seus dias de glória.

No próximo 29 de setembro completo um ano sob o tronco de nosso Ipe. Não a árvore que nos embeleza o inverno, mas o outro IPE, a sigla do antigo instituto da previdência do Estado, que, diante da decadência, mudou para Paranaprevidência. Estou há quase ano sob o tronco carunchado deste IPE.

Onze meses e meio atrás pedi coisa simples, processo completo, documentado. Quiseram mais um papel; dez dias mais tarde deixei lá o papel. E depois? Nada, parado na diretoria. Na jurídica. Parêntese: o ex-IPE, hoje transliterado, tem cinco diretorias. Para quê? Olhando os nomes, nomeações políticas.

Política na previdência, cabide eleitoral, fóssil vivo de Iapetec, Brasil varguista. Como o de Alencar, o tronco do nosso Ipe é forte no subsolo, onde estão ouvidoria e protocolo. Do térreo para cima é o bunker da ineficiência. Meu processo desentocou do sono esplêndido no final de agosto porque sentei praça por lá.

Onze meses. Agosto, meio que invado a diretoria, tipo MST. Chama-se o advogado um, depois o advogado dois. O documento que exigiram semana passada não precisa mais. Agora basta outro. Bobagem, estava tudo no processo, era só para limpar a face da inoperância (no final decidiram com o material do pedido inicial).

Um mês passa, volto, o advogado um me recebe, faz selfie do protocolo, “vai para a doutora Daniela”. Explica: “saio de férias, vou para o caminho de Santiago, 800 km a pé”. (Trinta dias no Caminho, 365 dias imóvel no meu processo). Outros quinze dias falo com a advogada, não sabia de nada, promete resposta para o dia seguinte, “pela manhã”.

Dia seguinte, Brasil velho de guerra, promessa vazia, manhã vai, nada. No limite, reclamo na ouvidoria. Depois do almoço, a advogada telefona: “processo indeferido”. Justificativa lacônica, sem a curial e indicativa motivação nos dados documentais. Gênero “não porque não”, primo do “fi-lo porque qui-lo”.

O que os colegas levaram onze meses e meio para não fazer, a advogada fez em oito horas. Com os documentos que estavam no processo desde o começo – por que não antes, diabos? Pedi à doutora: “só peço meu direito à decisão, deferido ou indeferido”. No Brasil, não tem escape, tem que ir ao Judiciário.

“Direito seu”, resposta da advogada, na voz doce um indisfarçado toque da autossuficiência do burocrata. O processo só andou quando insisti em pessoa. Foi decidido em oito horas com a documentação pronta há onze meses e meio. O que faltou? Disposição para trabalhar, cumprir o dever funcional. (Rogério Distéfano)

Uma ideia sobre “O TRONCO DO NOSSO IPE

  1. Rogério

    Gosto muito dos textos do senhor. Seu estilo mordaz e com dose certa de humor certeiro.
    Se com um cidadão culto, com formação universitária e vivência social intensa como a sua sujeitou-se a essa prova da deficiente e moralmente subterrânea máquina governamental, imagina com um Zé Ninguém da vida?
    Enquanto esse país tiver que chamar de “DOUTOR” rábulas bacharéis em direito( caixa pequena mesmo), nada vai mudar no horizonte distorcido ( e retorcido) da Pindorama.
    O terceiro círculo do inferno é composto por advogados. O primeiro e segundo já estão lotados deles.
    Sáude ao senhor e família.

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