7:32Misturando engenho e arte, a próxima aventura

por Roberto Prado 

Um dia a gente vai acordar com saúde e ânimo de criança esperta, olhar em volta e ver que tudo vai dar certo. Parece loucura, mas, no fundo, sempre fomos assim, dispostos a embarcar em grandes aventuras. E é por isso mesmo que vai dar tudo certo.

Parece doideira? Os navegadores antigos venceram oceanos. Quem diria? Um bando de europeus que despejavam o urinol pela janela, com meia mentalidade medieval mal digerida nos miolos, alguns deles ainda com resquícios de uma terra quadrada na cachola, foram capazes de largar tudo e enfrentar o desconhecido em barcos que mais pareciam cascas de nozes com fraldas esticadas.

Dá para acreditar? E se alguém predissesse que, entre esses europeus, justamente os lusitanos se destacariam em técnica e arrojo, seria internado em inglês, desprezado em holandês, preso em francês, xingado em italiano e assado em espanhol. Quem acreditaria? No entanto, aqui estamos nós, falando português e provando que o impossível está aí para acontecer.

Quem sabe as coisas mais inimagináveis existam justamente para nos dar água na boca, coceira nos miolos e aquela sensação infantil de que você é o herói e que tudo um belo dia vai dar certo. Inclusive deste lado do Atlântico, inclusive no Brasil, inclusive bem aí, inclusive, em sua casa. Com arte, improvisando, isso não é ruim. Mas, também, com muito engenho, planejando, por que não?

Não precisa sair por aí como um maluco. E nem pense em se apresentar para o próximo voo a Marte. Lá é mais frio que Curitiba. A melhor parte da aventura é o fato dela ser uma viagem que começa sem ser preciso sair.

Mire-se na lição zen: você já passou milhares de vezes por um lugar e, de repente, um belo dia, sem que nada tenha mudado, fica surpreso com um detalhe inesperado que, na verdade, sempre esteve presente naquela paisagem. É essa a iluminação, a sua iluminação pessoal e intransferível, que liberta das trevas as maravilhas que você já têm. Só não as deixa maravilhar.

Mas quando a gente acordar dentro da aventura, é claro que não vai querer estar sozinho. E é aí que está o verdadeiro desafio, o “impossível”, o “improvável”, o nosso oceano desconhecido: não queremos partir deixando amigos para trás e, portanto, tudo tem que dar certo para eles também, ou será apenas mais uma banal aventura solitária.

Sozinho não tem graça, fica parecendo o que aconteceu daquela outra vez, quando a gente ainda achava que tinha que ir bem longe para chegar na frente. Sozinho, o novo mundo é muito chato.

Não! Desta vez, levaremos todos os amigos, todos os amores (ou ser levados por eles, tanto faz). E eles serão quase todos. É claro, vamos fazer uma grande farra, conversar, cantar e dizer poemas. O meu, inclusive, já está até escrito:

a volta triunfal

aqui vamos fazer nossa casinha
ali a fábrica não ficará muito longe
uma escola com vista para a montanha
e o templo sem imagem nenhuma
desta vez não vamos sujar o rio
nem inventar leis desalmadas
apenas novamente simples heróis
descobrindo mundos, trocando fraldas

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