7:34Manoel Santana da Silva, meu padrinho, adeus

Meu tio e padrinho foi embora há pouco. Tinha 94 anos e o rosto de menino, sem uma ruga. Sorria, sempre. O desbravador da família da dona Zefa, minha mãe. O primeiro filho. Sua profissão: vendedor. Começou novinho em Palmeira dos Índios. Casa de tecidos, como Graciliano Ramos. O primeiro a descer o mapa para o Rio de Janeiro, capital federal. Depois vieram os outros quatro irmãos. Manoel Santana da Silva. O chamavam apenas de Silva – e ele honrou este sobrenome tão conhecido. Mas também era o Dé, provavelmente uma invenção dos tempos de criança no sítio. Católico total. Tanto que, quando nasci em São Paulo e corria o risco de morrer ainda bebê, voou para me batizar. Não sei se garantiu me passaporte para o céu, mas me sinto protegido até hoje. Eu sempre disse que foi o único que deu certo na família. Claro que de forma humorada, mas tendo como base sua ascensão de vendedor a dono de representação, para todo o estado do Rio, de uma grande indústria de Santa Catarina. Sempre tecidos – de mesa, cama e banho. Casou com uma paraibana nobre, Iza. Tiveram três filhas: Izabela, Izana e Izaline. A intelectual da família era Izabela. Eu me perguntava como uma filha de nordestinos foi se interessar pela língua alemã. Ela, como o pai, foi longe: 10 anos na terra de Goethe, depois a cátedra de literatura alemã na Universidade Federal do Rio de Janeiro… e a vida interrompida naquele maldito acidente da Air France no Atlântico, seu túmulo para sempre. Meu padrinho trabalhou até os 82, quando sofreu o primeiro de três AVCs. Antes, depois de assegurar o caminho ds filhos, viajou o mundo com sua eterna. Sorrindo, como sempre fez até depois do que sofreu. Eu o visitava no 29º andar no prédio de um condomínio na Barra da Tijuca – e sempre dizia que, em dia limpo, dali dava para ver a costa africana. Ele ria. Sempre o beijei na careca e olhava seus olhos que tinham o brilho de quem, apesar de tudo o que sofreu no fim da vida, tinha certeza de ter cumprido a missão. Se alguém pode ser chamado de exemplo, pra mim ele foi, na sua maneira correta de viver e amar o que deve ser amado. Agora, descansou. Amém.

8 ideias sobre “Manoel Santana da Silva, meu padrinho, adeus

  1. Hanna

    Bom dia, Zé ! Grande texto, belas letras que formam a emocionada homenagem despedindo-se do seu padrinho. Como você pode escrever tão bem ? Felicidades !

  2. Izana

    Meu querido primo, vc conseguiu traduzir em poucas palavras a saga e o exemplo de uma vida. infelizmente vc falava do meu pai. E perceber q não podemos mais contar com esse grande exemplo, dói. A única coisa q me conforta foi ter tido a oportunidade de dizer: painho eu te amo.
    Meu exemplo, meu amigo, meu conselheiro, meu pai.
    Izana

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