18:09ZÉ DA SILVA

Moro no bairro dos bacanas. Me contrataram faz tempo. Às vezes acho que na rua em que tomo conta, me esqueceram. Baixinho, gordinho, uma perna meio estropiada, dizem que me fizeram um favor. Agradeço. Não tenho ninguém no mundo – só o meu rádio de pilha. A guarita que compraram, onde passo quase as 24 horas de todos os dias do ano, é de fibra. Durmo sentado. As necessidades faço no banheiro de uma casinha abandonada nos fundos de uma das mansões da rua. Tem gente que me cumprimenta. A maioria, não. Tenho sorte na vida. Nunca houve um assalto aqui na quadra. Meter medo em bandido eu não meto. Acho que eles têm pena de mim. Se roubarem alguma casa ou assaltarem alguém, eu perco o emprego e vou ficar como aqueles desvalidos que aparecem na tv depois das enchentes. Para onde iria? Meu rádio. Nele ouço as músicas que são como remédio para minha alma. Nunca namorei. Não sou viado. Acho que não sou nada, mas não gosto de reclamar. Um bolero é o que me agrada, mas não tocam mais bolero. As rádios ficaram malucas e os apresentadores só gritam. Se a gente procura bem, acha algo que fale ao coração. Sim, sou um romântico, mas isso quem diz sou eu mesmo. Quase não converso com ninguém. O que? O que você está fazendo com essa arma apontada pra mim. Não, não atire! Parece que levei um soco no peito. Tem muito sangue saindo… Mas… que maravilha! Meu radinho toca uma música que não sei se é valsa, salsa ou mambo. É uma melodia divina! Nunca ouvi antes. Parece que a morte me chamou para dançar. Dancei.

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