9:46Vidas públicas, vidas privadas

por Leonardo Padura

Um dos valores da sociedade moderna é –ou deveria ser– o respeito pelo âmbito privado do indivíduo. Os interesses pessoais de cada um, sua forma de entender diversos aspectos da realidade e da existência, seus gostos e fobias individuais eram vistos como pertences arcanos que o contrato social deveria proteger, desde que essas preferências pessoais não se mostrassem lesivas ao restante dos cidadãos.

Em um país como Cuba, onde passei toda minha vida, os limites da vida privada muitas vezes foram permeados, por razões culturais –a tendência gregária do cubano– e até por decisões políticas que incluíram desde a votação pública com o braço erguido até a intromissão nas preferências sexuais, as crenças religiosas, as opiniões políticas pessoais do indivíduo e que, submetidas a julgamento, podiam decidir, por exemplo, o destino profissional ou estudantil de um cidadão. A chamada “verificação”, que poderia ser realizada a partir das opiniões de um vizinho, tinha o poder de expor assuntos estritamente privados de uma pessoa que eram levados a público e influíam sobre o destino dos indivíduos, quando não eram considerados “apropriados” ou “admissíveis” segundo determinados códigos, entre os quais não figurava, é claro, o Código Penal nem qualquer outro escrito e referendado.

Notícias como a das escutas telefônicas realizadas por órgãos de inteligência contra políticos de outros países ou partidos ou contra simples cidadãos, o hacking de computadores, a espionagem de e-mails –que todos sabemos que podem ser revistos por outros– me parecem especialmente lesivos daquele que considero ser um direito inalienável do cidadão.Essa experiência me tem levado a ser defensor decidido dos assuntos e espaços privados do cidadão. Apesar de meu ofício, que me obriga constantemente a me expor em público, a expressar ideias e opiniões, a ser entrevistado e criticado, tenho lutado para defender minha privacidade até onde tem sido possível.

Todos esses conceitos e realidades me deixam ainda mais empenhado em procurar preservar minha privacidade. Por isso, apesar de ser escritor e jornalista, nunca tive página na internet, a página de Facebook que aparece com meu nome na rede é apócrifa, e jamais mexi em uma conta no Twitter. Sou estritamente pré-informático nesses sentidos. Sou um bicho raro, um anacrônico.

Assim, minha condição me faz reagir visceralmente quando fico sabendo como hoje as pessoas voluntária e festivamente divulgam coisas que alguém como eu considera privadas.

Pouco tempo atrás, graças a uma amiga, pude ver a página no Facebook de um antigo colega da universidade com quem eu tinha perdido contato. Pude ver e ler, com assombro, como ele relatava cada acontecimento corrente de sua vida –encontros, visitas, experiências–, como narrava parte de sua história familiar e até revelava detalhes de sua vida sentimental e sexual! Na realidade, bi e homossexual (se a conjunção é possível). Que mecanismos podem levar um homem de 60 anos a participar dessa demolição do privado? Por que um encontro com uma pessoa determinada precisa adquirir o caráter de notícia?

Sei perfeitamente que hoje as redes sociais são um espaço privilegiado para a transmissão de informação, para as relações interpessoais, para a busca por cumplicidades. Sei que muitos jovens e adolescentes cresceram e vivem dentro dessa rede de exibicionismo que os atrai como uma droga. Sei, também, como alguns utilizam esses meios para denegrir, espionar e atacar a outros, escondendo-se atrás de covardes anonimatos e pseudônimos. Já li como toda essa informação que alguns oferecem alegremente é utilizada para criar seus perfis que não são precisamente os do Facebook, mas, sim, alguns mais tenebrosos e dominantes.

O que é normal, eu me pergunto: ter um perfil de Facebook ou uma conta no Twitter, ou a decisão de não tê-la? Quem é mais sociável e moderno, meu ex-companheiro de estudos ou eu? A verdade é que a estas alturas, não sei. O que creio que continuo a saber é que o direito à privacidade é um bem de grande valor, que os poderes e os indivíduos devem respeitar, a começar por eles próprios, com relação à sua própria vida. O resto, como reza o velho ditado, o resto é selva.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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