20:27ZÉ DA SILVA

Não tenho sonhos. Tenho pesadelos. A maioria é como se eu tivesse morrido. Não há cenas de céu, inferno ou purgatório. Nem nada de violência ou, quem sabe, um encontro com o Zé do Caixão e ele me levando pelas mãos ao cemitério onde à meia noite ele encarnaria meu cadáver. Nada disso. É pesadelo porque não há absolutamente nada. Apago, como nos tempos de bebedeira quando não sabia como tinha chegado em casa. A morte é igual ao antes de nascer. A definição é perfeita e não sei de quem é. Não importa. O nada assusta. Mesmo porque você não sabe se vai acordar e notar que a cueca está molhada de xixi, porque a incontinência chegou junto com a idade. Nada. Desliga-se a luz da vida e a travessia é feita sem um mínimo de sinal, sem um cutucão de quem está ao lado. Nada, nada. Tem gente que gosta. Eu prefiro a caída no abismo sem fim. Estou vendo, sentindo. A garganta trava o grito. Mas nunca chego ao fim – seja uma placa de concreto, o mar, um rio escuro ou um colchão Maxflex. Prefiro assim. Do outro jeito é pesadelo. Boa noite.

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