10:30Domingo em Curitiba

por Leticia Sabatella

Há quem queira acreditar que eu teria tido a intenção de provocar o que aconteceu naquele domingo, 31 de julho, de manifestações. Difícil aceitar o que revelam as imagens, por isso as pessoas buscam justificativas para não colocar em risco convicções arraigadas. Sinto dizer, mas tudo ocorreu exatamente daquele jeito mesmo.

Passava eu pela beira de praça em Curitiba, em início de concentração para manifestação a favor do impeachment.

Sempre deixo a tranquilidade decidir aonde a rua 15 de Novembro vai me levar. Quando tem concerto da orquestra, vou direto pro Teatro Guairão. A feira do largo da Ordem, os encontros na Santos Andrade e no calçadão. O almoço em família. Caminhar pelo centro é uma tranquilidade, ruas vazias, gesto natural ao encontrar um sorriso pedindo atenção.

A não ser que alguém queira tirar proveito e enredar aquele gesto gratuito em uma armação para linchamento. Tudo ocorreu apenas por ser início de concentração para uma manifestação contrária ao meu posicionamento? Seria isso tão necessário para defender uma opinião? Destruir a imagem, a reputação, a vida de outra pessoa? Nenhuma real argumentação?

Parei para dar atenção a uma senhora, começamos a conversar quando chegaram suas companheiras. Quiseram me envolver, puxar e segurar para fotografar com o boneco do Lula presidiário, bandeiras etc.

Começaram a chamar pessoas, gritando que eu estava ali. Formou-se um grupo para me humilhar. Um senhor me jogou tinta, mesmo eu pedindo, por favor, que não o fizesse. Outros gritavam, xingando.

A polícia veio me proteger, a histeria crescia. Ao ver tantas câmeras em minha direção, com o intuito de me humilhar nacionalmente, liguei a minha como defesa. Seguiram assim até a entrada do meu prédio, onde preferi ficar e esperar a dispersão das agressões, antes de decidir o que fazer.

Quanto medo eles sentiram de que o meu pensar e falar destruíssem suas ilusões, simplesmente por eu existir e não ser o que pudessem controlar. Medo de uma mulher que exerce a liberdade de ser, de ir e vir, de criar o mundo que deseja a partir do diálogo -o sonho de um país com igualdade de direitos para todos.

Não sentia medo enquanto era atacada, sentia tristeza pelo abismo criado por tanta irracionalidade, pela impossibilidade do diálogo. Queriam me reduzir a um objeto mais conhecido, mais possível de registrar em suas mentes, sem reflexão, menos ameaçador.

Um ser humano é mais complexo, ouve, fala, tem nuances e sensibilidade. Um objeto, um bode expiatório, é menos misterioso, mais simples de lidar e justificar a existência de tanto ódio. Como se admitir integralmente sem criar um motivo externo para explicar a sombra que também somos?

Eu sinto muito pela prisão em que se encontram. A prisão do ódio é alucinógena. Distorce as intenções, cega a lucidez. O que resta é o desejo de destruição do outro. Mas não é possível destruir o que já existe, nem matando.

A única saída é transformar o que o medo vê como monstro em uma pessoa, um igual, com quem se possa conviver dignamente. Respeitar os limites da liberdade de expressão. Que sirva para alertar, convocar, convencer. Não impor, castrar, excluir.

É preciso uma governança muito sábia para lidar com a diversidade de nosso país. É preciso preservar os princípios democráticos. Nas discussões políticas da tribo Krahô, todos têm o direito de falar, ordenadamente, sem restrição. Dos mais simples aos mais sábios. Os sábios falam por último e dão os conselhos necessários para chegar à solução.

Jamais pretendi o que aconteceu naquele domingo. Semifebril, recuperando-me de um resfriado, queria apenas almoçar e mais tarde passar na manifestação contra o golpe, pela democracia.

Por esse princípio, de democracia, resisti, ao final de tudo, em frente ao prédio em que moro.

A democracia é nossa única chance de convivência saudável. Ninguém precisará ser impedido de caminhar na rua de sua casa, de conversar com um adversário de ideias, ninguém precisará mais sumir, ser exilado, preso, assassinado por seus posicionamentos, na história de nosso país, se a democracia for preservada.

*LETICIA SABATELLA, é atriz, cantora e bailarina. Atuou nas novelas “O Clone” (2005) e “Caminho das Índias” (2009) e nos filmes “Não por Acaso” (2007) e “Chatô, o Rei do Brasil” (2015)

*Publicado na Folha de S.Paulo

13 ideias sobre “Domingo em Curitiba

  1. TOLEDO

    Muito curitibocas, nativos ou não, tem esse comportamento. Aqui no Blog, um defensor do Mamona, Lula, Dilma, PT foi embora e não fez mais nenhum contraponto. ( o Silvestre ) Eu pensei em denunciar ao Moro. Será que adiantaria ?? Acho melhor eu ler aqui, por tabela o Blog Antagonista, do precioso ( né Sr. Pio ?) o Mainardi. Volta Silvestre, volta, não me deixe só !!!!

  2. Estacho

    O cara que vai na torcida do Coxa com camisa vermelha ou na do Atlético com camiseta verde sempre tenta arrumar uma desculpa depois que leva uns cacete.

  3. Leandro

    Pô vou ter que cancelar a missa de 7º dia que foi agendada em homenagem ao finado Toledo. Quanto o Aparecido (SS) reapareceu em outro blog, mais está filosofando, tímido , não vai ajudar muito o o outro aparecido.
    Só lembro que tem algumas caixas de charutos a tua espera e eles estão ansiosos para que você os use. Poderá ser do mesmo jeitão que só você sabe.

  4. junior

    “Tadinha” dela, uma verdadeira santa, mas “santa do pau oco” Se mora na praça Santos Andrade e faz oposição ao impeachment, se diz a favor da democracia petista e coisa e tal, não deveria ter saído para numa provocação “distribuir” autógrafos. Claro que não, foi mesmo aparecer e agora com aquela vozinha angelical, mártir, aparece como vítima. Nunca te achei boa atriz e esta tua apresentação prova isto.
    Passear na Rua XV ….. num dia de protestos contrários aos seus pensamentos? Foi lá para aparecer e se promover.

  5. ferreira

    Seia uma perda do meu tempo ler o que a LLe MortadeLLa escreveu. Se ela não fosse xereta, por que não é ingenua teria ficado no seu quadrado lá na praça 19 (do homem nú) onde a família mortadeLLa estava .

    Não esquecendo :

    ToLLedo vc deu seu ar da graça, vc deve estar carente de paixão, mas vc encontrará seu desaparecido Aparecido §§ no blog do Fábio Campana ele dá por lá………seus palpites “cultos e educados” como sempre.

  6. Zé Povinho

    Esta curitiboca está aproveitando ao máximo a chance que uns entusiasmados proporcionaram a ela, mas isto passa logo, depois da saída definitiva da presidanta a coisa muda de figura. Até o fim do mês muita gente ainda vai acreditar em milagre, aí cai na real e já era, desaparecem todos junto com a presidanta.

  7. TOLEDO

    Leandro, você se diz Coxa, mas você é muito coxinha. Acho que o Silvestre não esta mais por aqui por que pegaram meio pesado com ele. Acho que ele faz falta, porque sempre defendeu os pontos de vista, que acredita. Tenho certeza que o Ferreira concorda e o ZB também.
    Mas se o negócio de todos, é ficar com medo da Motadela, é melhor vocês irem falar com o BIG MORO. Mas não esqueça Leandro de aparar as unhas, levar o mertiolate e mais alguns coxinhas aqui do blog para assoprar o saco do causídico quando ele estiver em carne viva.

  8. Fernando Carvalho

    Parabéns à Letícia pelo equilíbrio. E uma pena que uma minoria de desequilibrados radicais deponham, com suas atitudes, contra Curitiba e contra a Democracia, até mesmo justificando atitudes e comportamentos como o de torcedores de futebol que agridem as torcidas adversárias. Não sabem conviver em sociedade. Deviam estar presos. Vergonha.

  9. jorge

    Imagina o que aconteceria com a Janaina Pascoal se fosse ao meio da manifestação a favor da Dilma?
    Letícia não seja hipócrita. Ser Ptófila já é suficiente.

  10. Fernando Carvalho

    É isso aí Maringas. O pior cego (e desmiolado) é o que não quer ver (e entender; e ler; e estudar).

    Os que gostam da guerra são os covardes. Nunca foram à guerra e não conhecem o cheiro da guerra e dos cadáveres.

    E assim caminha a humanidade… De bulling em bulling… Infelizmente.

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