7:34DUELANDO COM A MORTE

por José Maria Correia

Há 5 anos, no dia 31 de Julho de 2011, voltando de Matinhos, a minha encantada Passargada, sofri o mais grave acidente da minha vida. Em uma tarde de chuva torrencial, como aquela do dilúvio bíblico e da arca de Noé, meu carro foi jogado para fora da pista por uma onda vinda das rodas de um enorme caminhão.

Quando estava voando de ponta-cabeça com as quatro rodas para o ar, pensei: “Que morte mais inútil, se ainda fosse morte matada por amor, por uma causa digna ou pela honra!”
Bem, o fato é que segundos depois do estrondo do capotamento e de retomar a consciência me vi pelos fragmentos dos espelhos e vidros estilhaçados, refletido em um caleidoscópio coberto de sangue e o rosto deformado como um retrato cubista de Picasso.
Quando abri os olhos, fiquei muito surpreso por ter sobrevivido, tinha certeza que não escaparia pelo que já tinha visto de outros acidentes iguais, mas naquele momento fatídico foi decisiva a lição do mestre de Karatê, Taura, sobre a técnica que os antigos samurais utilizavam para proteger-se dos duros golpes que sofriam nos combates e das quedas dos cavalos nas batalhas, o Kime, a contração de todos os músculos do corpo formando uma couraça, o que fiz instintivamente depois de tantos anos de treinamento até conquistar a sonhada graduação da faixa preta.

O ANJO NO ASFALTO
Perdido e isolado na mata atlântica para onde fui projetado , de repente ouvi quebrar o silêncio centenas de passarinhos entoando seus cânticos maviosos de avisos de que uma tragédia acontecera.
Lá estava eu, entre a densa fumaça do motor e a chuva torrencial na mesma solidão com que chegamos a este mundo e ali prestes à deixá-lo para sempre.
Com minha face pálida pressenti num átimo de lucidez, entre as dores insuportáveis dos muitos ossos fraturados, a chegada da morte.
Entre as sombras do entardecer chegara a minha hora definitiva, a minha vez – e eu já me resignara a ser coberto pelo manto misericordioso, o véu e a mortalha que acabariam com o meu suplício.
O destino entretanto era outro – e ouvi em seguida, ao longe, a voz de um anjo que se aproximava na figura de um peão, um caboclo das matas que não hesitou em rasgar e ensanguentar suas mãos e braços rompendo as ferragens da sucata em que o carro se transformara, para me retirar daquele que já seria o meu caixão transitório e o meu leito de morte.
Arrastado para fora daquele amontoado de ferro e sofrendo dores atrozes, tive um momento de alívio com minha cabeça repousada em seu colo, como a mãe fazia comigo nos momentos de aflição e choro. E ali, juntos, aguardamos o resgate, o sangue dele misturado ao meu.
Levado ao moderno Hospital de Paranaguá onde fui estabilizado, aguardei em uma maca por intermináveis e longas horas até que conseguissem uma ambulância para me trazer para Curitiba.

O SUPLÍCIO NO HOSPITAL
No trajeto dividi o pequeno espaço e a maca com mais dois doentes graves e consolávamos e encorajávamos uns aos outros como podíamos.
As horas seguintes foram determinantes, pré-condenado no mínimo a nunca mais andar, fui recuperado depois de sete longas horas de cirurgia emergencial pelo médico humanitário Emiliano Vialle e sua equipe.
Ainda passei um mês no hospital multifraturado, entre sondas e cuidados extremos dos médicos, das enfermeiras e dos bons amigos .
São longas as noites de internamento, a luz diáfana dos corredores, o silêncio na madrugada e as alucinações dos medicamentos.
Vez por outra, naquela poltrona ao lado da cama destinada aos fantasmas, imaginava ver o pai que já havia perdido há tantos anos .
Ele me olhando docemente com seus olhos melancólicos, sem nada dizer. Enquanto viveu nunca dissemos um ao outro que nos amávamos. Amar era um verbo intransitivo e nenhum gesto ou código mais profundo exteriorizou esse sentimento.

Minha geração herdeira do cinema mudo é assim.

A VOLTA
Depois de tanto tempo com o olhar na janela sobre o inverno curitibano tive alta.
Saí de andador e colete ortopédico, com muitos parafusos e travas na coluna encurvada e na alma que me fizeram ver a vida de outro jeito, bem diferente do que era antes. Valorizando o que realmente é importante, e o mais difícil, conseguindo distinguir do que não é.
Foram muitos meses de luta para abandonar a morfina que me permitia suportar as dores e outras lutas tantas com a presença dos amigos verdadeiros e da família.
E neste domingo de sol com esse texto homenageio todos os que com suas preces e demonstrações de amor contribuíram com a minha cura. Reverencio o anjo da mata atlântica de mãos rudes e ensanguentadas que surgido da providência me libertou dos braços da morte que já me detinha para uma vida ainda mais plena e amorosa, maior talvez que o meu merecimento, mas que recebi como um presente e uma dádiva, nascida da dor e da quase tragédia há cinco anos, em 2011.

2 ideias sobre “DUELANDO COM A MORTE

  1. Ivan Schmidt

    Felizmente você (re)viveu para nos legar um testemunho com esse tamanho de sentimentos de gratidão pelas mãos salvadoras que lhe encontraram em meio às ferragens do carro destruído… esse foi o mais belo e tocante relato publicado esse ano pelo Zebeto.
    Estou certo de que ele servirá de alento para muitos de nós, que apesar dos tropeços diários, jamais sentimos um átimo da luta que você encarou com um gigante.
    Eu creio na Providência, caro José Maria, e você é mais uma prova…
    Vida longa!

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