8:50Velho?

por JamurJr.

Li não sei onde nem quando que é velho quem parou de crescer e aprender. O tempo não foi capaz de reduzir minha vontade de estar sempre aprendendo mais. Na profissão que escolhi, entrevistei centenas de pessoas, do mais humilde ao mais graduado. Cada entrevista, cada notícia captada nas ruas, era um momento novo com alguma lição para aprender. Assim sendo, fico com a qualificação de idoso. Idoso com boa memória – ainda. Lembro com nitidez imagens da juventude, do tempo em que usavam Glostora no cabelo para ficar brilhante; depois veio  Gumex, uma goma que mantinha o cabelo duro como um capacete militar e à prova de ventos fortes. O bebê tossia e a mãe corria para o vidro de Xarope São João. “Ai, meu Deus, esta criança está sempre com um chiado no peito e constipado”, se dizia. Se a criança demonstrava falta de energia, recomendavam uma colheradas de Biotônico Fontoura ou Óleo de Fígado de Bacalhau. Antisardina era “ o segredo da beleza feminina”. Sabonete Vale Quanto Pesa, Eucalol e Lever, o sabonete das estrelas, eram os preferidos. Capilé com água era refresco encontrado em qualquer lugar. Sabão Amazonas e Cera Canário, produtos dos Irmãos Campos Hidalgo, patrocinavam Nhô Belarmino e Nha Gabriela na “Feira da Alegria” das quintas-feiras, no auditório da Radio Guairacá. Namorar era uma arte, praticada no portão ou no sofá, mas na presença do pai da moça. Pegar na mão, só para os com revelada intenção de ficar noivo. Beijinhos, só na face. Quem avançava o sinal, ficava no acostamento. Sexo, só nos puteiros. E lá era preciso dinheiro. O ambiente era dominado pelos “granfinos” cheios da grana – e eles escolhiam as putas mais destacadas no elenco. Em Paranaguá a rapaziada frequentava a Rua do Pêssego (Rua Pêssego Jr, era o nome verdadeiro) onde ficava a Zona. A Casa da Lucinda era a preferida e a que oferecia a maior variedade de mulheres. Como a Lucinda, Dinorah também disputava a clientela. Em todas havia sempre música ao vivo. Geralmente um conjunto formado por acordeon, clarinete (ou sax), bateria e pandeiro. O reportório era variado, com destaque para o samba – mas havia espaço para xote, baião, rancheira, bolero e até tango. Imagine um tango sendo executado por acordeon, bateria, pandeiro e clarinete! Em Curitiba, a Zona do Parolin era famosa pelas mulheres e as brigas que ali ocorriam. Quem não tinha carro preferia a Zona mais central. No bairro Rebouças, a Ávila era a preferida. Nos anos 50, na Rua Marechal Deodoro, atrás do Colégio Santa Maria, havia uma zona muito frequentada. Artistas , jornalistas e locutores de rádio eram assíduos na confortável zona central. Um operador de som da Rádio Colombo, que tinha a obrigação de iniciar as transmissões às seis horas da manhã e encerrar à meia-noite, verificou que, com a falta de ônibus depois dessa hora, ficava difícil manter o emprego. Foi salvo por uma das meninas do puteiro por quem se apaixonou. Deixou de dormir na casa da família e passava as noites nos braços da puta amada. Às seis da manhã andava alguns quarteiros para chegar no horário de abrir a rádio. Pouco tempo depois dessa fase gloriosa dos puteiros curitibanos, surgiram as “boates” – e elas roubaram a freguesia com material de melhor qualidade. Moças mais bonitas, bem vestidas alegravam as noite curitibanas no Marrocos, no Luigis e outras casas noturnas menos famosas.  As aventuras sexuais pelas Zonas exigia cuidados especiais para evitar doenças venéreas, muito comuns na época. Os mais cuidadosos usavam Camisa de Vênus, nome das atuais Camisinhas. Nesse universo de zoneiros havia aqueles que gostavam do ambiente e costumavam frequentar em horas diferentes e com objetivos diferentes. Contam que em Paranaguá um cidadão conhecido como Cheira Calça visitava regularmente a Casa da Lucinda. Dava uma olhada no salão, escolhia uma moça alegre  e se dirigia com ela para o quarto dos amores, onde se despia, pedia que a mulher fizesse o mesmo. Ambos deitados na cama e o Cheira Calça pegava a calcinha dela colocava sobre o nariz e ficava horas nessa posição. Depois se vestia e voltava pra casa, feliz pelo cheirinho da noite de “amores”. Outro tinha mania de visitar o puteiro à tarde. Faltava ao trabalho, chegava por volta das três da tarde, ia para o quarto, tirava a roupa com ela, pedia uma cervejinha antes do ato.Terminado, pedia outra cervejinha, depois se vestia e voltava a tempo de bater o ponto no trabalho. Era uma cervejinha antes outra depois.  A Cidade Sorriso sempre manteve uma excelente programação para divertir seus moradores e visitantes. Vários cinemas, agrupados no centro da cidade, como Cine Palácio, Odeon, Curitiba, Ritz, Luz etc.  Nos bairros mais distantes os clubes promoviam bailes à noite e matinês aos domingos, para alegria da moçada sempre a procura de um namoro ou algo parecido. Diversão não faltava e os embalos da noite aconteciam sem drogas – quando muito, com alguns goles de Conhaque, Vermute, Cuba LIbre (Coca-Cola com Rum). Os mais  afoitos tomavam Fogo Paulista. Nas boates e estabelecimentos do gênero, as moças contratadas para distrair e atender da melhor forma sexual possível a clientela preferiam Pernod. Os clientes raramente sabiam do que se tratava que bebida era essa e se realmente elas tomavam. Suspeitavam de que as meninas ganhavam comissão pelo consumo anotado pela gerência. Daí , beber demais poderia comprometer o faturamento da noite, diante de um porre que levasse a um indesejável sono “prematuro”.  Para os apaixonados pelo futebol sobravam opções. O campeonato era disputado entre times da capital ; Atlético Paranaense, Ferroviário, Coritiba, Britania, Bloco Morguenau, Palestra Itália, Água Verde – todos com várias equipes; os titulares, os aspirantes, amadores e juvenis. No Coritiba brilhava Fedato, um zagueiro fenomenal, no Atleéico era o atacante Jackson, no Ferroviário Afinho era o ídolo e goleador. Os craques da época jogavam por amor à camisa. Ninguém recebia salários ou qualquer benefício em troca do seu esforço e habilidade em campo. Jogar num time era amá-lo até o fim. Eram raros os episódios de jogador de um time mudar para outro no próximo campeonato. Fedato jogou a vida toda no Coritiba, Jackson teve passagem pelo Corinthians – e só. O  chamado futebol da segunda divisão reunia clubes bem estruturados, com quadro de craques que eram revelados e passavam para os times da divisão principal. Os “campos de futebol”, ou pequenos estádios,  estavam pro quase todos os bairros. Em frente ao Estadio Joaquim Américo, o campo do Cinco de Maio, na hoje Praça 29 de Março, o estádio do Poty, Morguenau no Cristo Rei, Operário no Ahu, Botafogo nas Merces, Huracan no Hugo Langue, Trieste e Iguaçu em Santa Felicidade e muitos outros em vários pontos da cidade. O Rádio era o principal veículosde comunicação  e dava ampla cobertura para os eventos esportivos, destacando-se o povão. Da Rua Barão do Rio Branco saíam os programas transmitidos pelas principais emissoras da época; Radio Clube Paranaense ,a mais antiga, onde se destacavam as rádio-novelas e programas de auditório com Mario Vendramel, Sergio Fraga, Mauro de Alencar, Souza Moreno; na Radio Guairacá, o Clube Mirim animado por Aluizio Finzeto . Na Rádio Cultura, o parnanguara Souza Miranda mexia com corações apaixonados com seu “Rosa de Tango”, um programa em que o famoso locutor apresentava belas poesias acompanhadas pelo romântico tango argentino que na época desfrutava de grande prestigio em nosso país.

 

Uma ideia sobre “Velho?

  1. Jose Maria Correia

    Maravilha Jamur , esperamos o livro de sua espetacular vida , abcs jm José Maria Correia

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