15:39COMBINADO

de José Maria Correia

Tá, então fica combinado assim.
Que a vida é dura, aperreada mesmo.
E que tem dias que vem e que vão.
Aqueles que a gente só quer falar com a gente mesmo.
Com aquilo que tem dentro e a gente não quer contar.
Às vezes de vergonha, às vezes de medo.
E a gente de parado fica tanço , com o beiço derrubado.
Enrolado igual cobra.
Eu quando o bicho pega ou deito no escuro ou embaixo da cama pra sentir a tábua fresca do assoalho.
E até choro um pouco de molhar o lenço mas não o travesseiro.
Não é prá tanto exagero.
Fico umas horas igual defunto, quieto.
A bisavó índia dizia que a gente era feito na cama, nascia, crescia, paria, envelhecia e morria.
E que a cama não era só de sonhar, fazer amor e guardar os cobres; era também pra se esconder debaixo dela na guerra ou quando dava banzo.
Quem sou eu pra discordar da bisa índia.
Quando fico ruim me abrigo nela com a bicharada.
Mas depois levanto, dou uma olhada no mundo, ajeito a fachada e a crina que não sou bobo nem nada, a cabeça dá umas giradas e volto pra lida.
Não tem outro jeito.
O véio lá de cima fez a gente assim , pra alegria e pra tristeza , que desgraça pouca é bobagem.
São esses dias, assim mesmo pra gente viver .
Do trato assim combinado.

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