20:36Mesmo dia, ano e lugar

Quando revelo que nasceram no mesmo dia, no mesmo ano e vizinhos de sítio em Palmeira dos Índios, não acreditam. Aí, emendo: morreram na mesma UTI de hospital naquela cidade do interior das Alagoas – com diferença de quatro anos. Primeiro, foi embora Zefinha. Depois, Zé Luis. Tinham menos de oitenta anos. Deixaram dois filhos e quatro netos – depois apareceu a bisneta. Começaram a namorar no Rio de Janeiro que era capital federal e Cidade Maravilhosa. Tinham vindo, cada um seguindo irmãos, tentar a vida no Sul Maravilha. Casaram no Nordeste, para provar que tinham casado mesmo. O signatário foi feito numa rede na casa dos avós paternos no pedaço de sítio que eu e meu irmão, que nasceu sete anos depois, herdamos. Como sei? Simples: ao voltar ao Rio, mamãe estava grávida. Aí o Zé Luis cismou e foi para São Paulo ser operário. Onde nasceram os dois filhos. Depois… Bem, eles nos deram tudo que era possível, ou seja, o básico, além da vida: educação, saúde, um teto e a certeza de que tínhamos apoio. Só fui ver isso depois dos quarenta anos. Mas nunca é tarde. Agradeci e entendi os dois. Ela chamava ele de Filhinho. Ele chamava ela de Filhinha. Bonito. Consegui me aproximar de verdade depois que me perdi na vida. Ricardo Silva, o artista da família, morou com eles. Só posso falar de mim e dou graças a deus ter podido ficar junto. Até na hora da morte dele. Na dela, cheguei apenas a tempo do enterro, pois tinham voltado para cumprir a sina do pau de arara: morrer na terra. Deles, nossa. Pra sempre. Amém

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