7:06O fascismo liberal e seus atores

por Ivan Schmidt

Publicado no Brasil pela Record (RJ) em 2009, com a tradução de Maria Lucia de Oliveira, o importante livro Fascismo de esquerda escrito pelo jornalista Jonah Goldberg permaneceu praticamente desconhecido a não ser, penso, pelo provável interesse despertado em figuras que se movem no interior de compartimentos estanques da academia e centros de altos estudos abrigados nas universidades e institutos de pesquisa política ou sociológica. Meu exemplar foi adquirido numa livraria especializada em saldos de balanço.

Contudo, a leitura de poucas páginas ou mesmo do copioso índice remissivo já coloca o leitor mesmo leigo de frente a um portentoso trabalho de investigação sobre o desenrolar, no ambiente norte-americano, do fenômeno político que atende pela incômoda alcunha de fascismo. O subtítulo do livro, aliás, é bastante explícito ao revelar tratar-se da “história secreta do esquerdismo americano”.

O autor cumpriu a inusitada tarefa de assegurar aos leitores que “os fascistas originais estavam, de fato, à esquerda, e que liberais desde Woodrow Wilson até Hilary Clinton têm defendido políticas e princípios notavelmente semelhantes àqueles do nacional-socialismo de Hitler e do fascismo de Mussolini”.

A leitura do livro, portanto, passa a ser obrigatória alguns anos depois de seu aparecimento nos Estados Unidos, por todos os curiosos em busca de informação sobre algumas nuanças que, na maioria das vezes, permanecem cobertas pela sombra. A recomendação de leitura é ainda mais necessária diante das candidaturas da própria Hilary Clinton (Democrata) e Donald Trump (Republicano) à presidência dos Estados Unidos.

Um aspecto interessante, mas compreensivo, é que o índice remissivo não conta com nenhuma alusão a Donald Trump, à época da escrita do livro (2007) uma figura desconhecida nos meios políticos norte-americanos. Em contrapartida, Hilary é uma citação constante no longo texto e, particularmente, a partir de algumas constatações que observadas quase 20 anos depois, sob o impacto de sua candidatura à Casa Branca, oferecem farto material para a reflexão.

Na apreciação do jornalista “Hilary Clinton é uma pessoa fascinante não por causa de sua personalidade insípida e desinteressante, mas porque é um espelho no qual podemos ver a continuidade liberal com o passado e ter ao menos um vislumbre de uma direção possível de seu futuro”.

Ele acrescenta que “por ser ela esperta e ambiciosa, tem equilibrado idealismo com cinismo, ideologia e calculismo. Isso, é claro, vale para grande número de políticos. Mas Hilary Clinton merece fama e atenção porque os observadores acreditam que ela tenha o discernimento, os assessores e o poder institucional adequados para escolher as combinações vencedoras”.

Goldberg lembra, ainda, que “se Waldo Frank e J. T. Flynn estavam certos ao dizer que o fascismo americano seria diferente de seus correspondentes europeus em virtude de sua nobreza e respeitabilidade, então Hilary Clinton é a realização daquela profecia. Porém, mais que isso, ela é uma figura representativa, o membro mais importante de uma coorte generacional de liberais de elite que (inconscientemente, é claro) trouxeram temas fascistas para o liberalismo predominante”.

Tendo incorporado o lado maternal do fascismo, segundo Jonah, com a eleição de Bill Clinton à presidência, sua mulher chegou a Washington como “a mais poderosa reformadora social não eleita – e não nomeada – desde Eleanor Roosevelt”. Desponta, assim, um significado mais abrangente nas ponderações do autor sobre a persona política da atual candidata do Partido Democrata à presidência, ao afirmar que a antiga secretária de Estado de Barack Obama “cunhou a expressão que mais essencialmente define o fascismo liberal dos tempos modernos: ‘a política de significado’”, embora tenha tido o cuidado de ressalvar que “quando digo que as políticas de significado e as ideias de Hilary Clinton em geral são fascistas, devo novamente deixar claro que elas não são más”.

Advertindo que há anos Hilary não mais emprega a expressão “política de significado”, Jonah Goldberg assinala que a mesma foi “varrida para debaixo do tapete por conveniência política, assim como foram as lembranças de seu desastroso plano de saúde”.

A política de significado é, em muitos aspectos, a concepção de política mais plenamente totalitária oferecida por uma figura política de proa na América no último meio século, escreveu Jonah, para quem “as ideias de Hilary têm mais em comum com as ideologias cristãs totalizadoras de Pat Robertson e Jerry Falwell que com o ‘ateismo secular’ que tais conservadores cristãos atribuem a ela”.

Investigando um dos livros mais populares de Hilary – É preciso uma aldeia – o autor descobriu que “não se pode encontrar mais completa explicação da agenda fascista liberal” do que no livro em foco: “Todas as características do empreendimento fascista estão presentes em suas páginas. Novamente, a linguagem não é hostil, nacionalista, racista nem agressiva. Ao contrário, transborda expressões de amor e sentimentos democráticos cordiais. Mas isso somente representaria um afastamento de sua natureza fascista se fascismo significasse nada mais que hostil ou agressivo (ou racista e nacionalista). A natureza fascista de É preciso uma aldeia começa com o próprio título. Ele evoca um passado comunal mítico e lendário”.

A conclusão do jornalista é que Hilary, repetidas vezes, “usa um martelo de veludo para enfiar na cabeça do leitor que intimidade, parceria e unidade são os únicos meios para a salvação da América”. O ponto no qual teoria e prática mais obviamente se juntam é na área da política econômica. As corporações estavam entre as varas mais importantes do feixe fascista. Assim é também na aldeia de Hilary: “Empresas orientadas para a comunidade já estão fazendo várias coisas que os cidadãos devem aplaudir e o governo deve encorajar, quando possível, com mudanças na legislação a fim de torná-las mais atraentes”.

É lógico que poucas pessoas têm recursos intelectuais para subsidiar suas decisões no pantanoso terreno da política. Quase ninguém se interessa pela leitura de um livro como o escrito por Goldberg. Mas é pertinente perguntar ao desconfiado leitor brasileiro: se você fosse norte-americano votaria em Hilary Clinton ou Donald Trump? O pano cai lentamente…

2 ideias sobre “O fascismo liberal e seus atores

  1. Zé Povinho

    Realmente o eleitor norte americano está em uma encruzilhada, vota em mega bilionário com ideias bizarras ou fica com a já conhecida Hilary e as suas ideias não menos bizarras. Escolha difícil, nos jogamos já de cabeça no fogo ou permanecemos cozinhando dentro da panela?

  2. marcio ferreira

    O povo brasileiro já vive, desde Getúlio Vargas, imerso em diversos aspectos do fascismo, portanto, se tornou algo natural neste país os ditos esquerdistas defenderem, com veemência, alguns direitos conquistados, sem saberem que foram criados no fascismo italiano.
    O fascismo italiano tinha um programa de 11 pontos, vários aplicados aqui.

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