6:56Às vezes, os sonhos se realizam

por Célio Heitor Guimarães

Quando eu era moleque em Araucária, tinha um sonho: ser locutor de rádio. Tinha uns treze anos e era ouvinte apaixonado de rádio. Gostava das novelas e dos programas de auditório da pioneira Clube Paranaense, a PRB-2, mas era fascinado pela “Voz Nativa da Terra dos Pinheirais”, a saudosa Guairacá. Ali admirava especialmente os locutores Elon Garcia e Júlio Xavier Viana.

Então, passava um bom tempo lendo em voz alta os anúncios da revista “Seleções do Readers Digest”, tendo como microfone uma latinha vazia de fermento Royal, que reverberava o som da minha voz.

Certo dia, possivelmente comovido com aquela minha vocação juvenil, meu pai arranjou-me, com a ajuda de Dino Brassac, um teste na Rádio Emissora Paranaense, de Curitiba. O examinador foi o monumental Alcides Vasconcellos. Fui reprovado, é claro. Mas não me dei por vencido. Meses depois, tomado de inusitada coragem, repeti, por conta própria, a façanha na Rádio Marumby, então na Rua XV de Novembro. O avaliador, Vicente Mickozs, não era tão monumental quanto Alcides, mas também me reprovou, afirmando que eu “cantava” no final das frases.

Recolhi-me à minha insignificância às margens do Rio Iguaçu, então ainda líquido. Mas não me arredei do sonho. E para encurtar a história e não me perder em detalhes, quatro anos depois, subia, com incontida emoção, as escadarias do velho casarão da Rua Barão do Rio Branco, que abrigava no andar superior a ZYM-5, Rádio Guairacá. Eu tivera um início na Cambijú, de Araucária, e estivera alguns meses na Santa Felicidade, de Bilú Macedo. Agora, a convite do notável locutor Hugo Luciano (Waschek), iria ser avaliado por Ivan Curi e Sérgio Luiz Pichetto. Resultado: passei a dividir o microfone com os meus ídolos de outrora. Elon e Júlio não estavam mais lá, mas Aluízio Finzetto, Ivan Curi, Sérgio Luiz, Humberto Lavalle, Irene Morais, Acari Juruá, Ayrton Marino, Remy Luiz, Ália Haddad, Euclydes Cardoso, Colmar Rocha Braga, João Feder, Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, Zé Pequeno, Lourival Portela Natel, José Wanderley Dias, Alcino Palhares, Cláudio Todisco, Janguito do Rosário, Medeiros Filho, Evanira dos Santos, Yara Dinah e Paulo César, entre outros, eram agora meus “colegas”!

Da Guairacá fui para a Colombo, Ouro Verde, Cruzeiro do Sul e, por fim, Independência. Foram mais de 15 anos de “locutagem”, apresentação de programas, narração de noticiários e alguma produção. O trabalho virou história e ficou a saudade.

Outro sonho desde a infância: o jornalismo – afinal, radialista e jornalista não são primos-irmãos? Aprendi a ler nos jornais, para entender os anúncios dos cinemas. Depois, montava pequenas publicações caseiras, escritas a mão e desenhadas a lápis de cor. Desde muito cedo passei a gostar do cheiro do papel e da tinta de impressão. Frequentava uma pequena tipografia do “seu” Luiz Anad, em Araucária, apenas para “viver” o ambiente. As letrinhas também me encantaram desde sempre. Aos domingos, comprava religiosamente o jornal “O Dia” e, durante a semana, aguardava ansioso a chegada à cidade da revista “O Cruzeiro”. Meu pai assinava “A Noite Ilustrada”, editada no Rio. Meu avô tinha a coleção de “O Malho”. Havia ainda “O Tico-Tico” e, às vezes, aparecia lá em casa “A Cigarra” e “A Revista do Globo”, de Erico Veríssimo. Lia tudo de cabo a rabo.

Uma tarde, dominando com dificuldade a timidez e o nervosismo, fui falar com Protásio de Carvalho, diretor de “A Tarde”, em Curitiba. Ofereci-me como colaborador e ganhei uma coluna sobre cinema. Depois, o cinema passou para rádio (e, mais tarde, também TV). Escrevia mal, mas fui aprendendo. E eu passei de “A Tarde” para “O Dia”, de Colbert Malheiros, Emanoel Coelho e Alceu Chichorro, o Eloy de Montalvão de Chico Fumaça. Até chegar à “Última Hora”, de Samuel Wainer. Por fim, “O Estado do Paraná”, com Mussa José Assis. Isso sem falar nos quinze anos em que ajudei Luiz Renato Ribas e Rubens Hoffmann a fazer “TV Programas”, publicação semanal que chegou a ser considerada a melhor revista do gênero no Brasil. Hoje, aqui estou abrigado pela generosidade do nosso Zé Beto. Há algum tempo, deixei de escrever por dinheiro. Passei a escrever só por amor às letrinhas. E por vocação.

No correr da vida, realizei outros sonhos. Sonhava ingressar na UFPR e ingressei. Queria ser advogado e fui. Primeiro, no serviço público; depois, como filiado à OAB e acolhido pelo escritório gabaritado de Romeu Felipe Bacellar Filho e Renato Andrade. Ao todo, foram mais de 45 anos nos meandros do direito e da justiça. Mas essa já é outra história.

Com Rubem Alves aprendi que nossa carne precisa de sonhos para viver. É do saudoso mestre a lição: “São os sonhos que moram em nosso corpo que desenharão os seus gestos – se ele voará, leve, na direção das suas esperanças, construindo caminhos e pontes e plantando jardins, ou se se deixará afundar no charco da tristeza, fazendo apenas aquilo que a dura luta pela sobrevivência exige”.

6 ideias sobre “Às vezes, os sonhos se realizam

  1. walter

    Grande Célio: bravo!!! Os seus textos são maravilhosos. Conheci algumas das pessoas citadas, como o João Féder, o Ivan Curi, o fabuloso Alcides Vasconcelos, Euclides Cardoso, Elon Garcia, o Vicente Vicente Mickozs, o Colbert Malheiros, o Mussa, o Paulo Cesar e muitos outros. E, é claro, conheço bem o Luiz Renato Ribas que me falou do livro sobre a TV Programas que você escreveu.
    Fui seu leitor na breve Última Hora paranaense (agosto de 1961-abril de 1964), na qual você assinava coluna sobre rádio e televisão com um pseudônimo. Brilhante. Aliás, estou fazendo utilizando as últimas edições da UH-PR numa pesquisa sobre o golpe de 1964.

  2. Bittencourt

    Grande Célio: além de vazar talento por baixo das unhas – enquanto datilografa/digita o texto, você fala de tanta gente amiga e de mestres na comunicação que enche minha manhã de alegria.
    Receba um forte e fraterno abraço do

    Bitte

  3. Jose Maria Correia

    Grande mestre Celio,
    Que viagem no tempo maravilhosa.
    Época de ouro do rádio , pena que hoje a Gazeta traz uma materia sobre o desmonte da programação esportiva local.
    Felizes as gerações que tiveram o privilégio de crescer ouvindo as mensagens dos locutores pelas ondas hertzianas pelo mundo todo.
    Novelas, crônicas, músicas, noticiários , tudo feito com emoção, liberdade e humanismo.
    Bem diferente das pautas televisivas globalizadas e distantes de nossas vidas cotidianas, de nossos quintais , de nossos sonhos , dramas e fantasias.
    Nunca esqueceremos o antigo rádio e seus personagens imortais.
    Grande abraço José Maria

  4. luiz renato ribas silva

    Célio, jovem velho companheiro de tantas lutas e jornadas memoráveis. Seu texto poético e certeiro emoldurado em seus sonhos de moleque e vencedor é a revelação de quanto seus sentimentos são sinceros e valiosamente nostálgicos. Portanto já vale como uma pré-biografia, que ainda será confessamente enriquecida aqui mesmo, motivo pelo qual, como eu, você, entre outros, devemos nos permitir a um depoimento de nossa vida e obra em respeito exclusivamente aos familiares e amigos, para que esse arquivo arqueológico seja aberto hoje e nos próximos séculos. Bide, Walter, Mazza, e tantos outros já o fizeram ao Memórias Paraná, como também desejo que este gigante Zé Beto também o faça pelo mesmo motivo. Somos uma gota no oceano, mas várias delas correspondem ao sentido principal da vida: o registro de nossa existência por nós mesmos.

  5. Célio Heitor Guimarães

    Como eu já disse outro dia: é tudo gente que mora no lado esquerdo do meu peito. Então, as manifestações não valem? Claro que valem. E muito. E as agradeço emocionado, ainda que exageradas, porque o meu querido Rubem Alves pregava que “diante de um amigo, sabemos que não estamos sós”. E arrematava, estufado de razão: “E alegria maior não pode existir”.
    Agora, vêm cá Walter, Bitte, Zé Maria e Luiz Renato, para um forte abraço.

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