9:30A cultura da bebida alcoólica no Brasil

por Claudio Henrique de Castro 

Na propaganda de bebidas alcoólicas associa-se juventude, beleza, sexualidade, balada, riqueza e alegria com marcas de cervejas, vodcas, uísques, vinhos, conhaques, caipirinhas entre outros.

A bebida alcoólica, nunca é demais esquecer, pode ser o primeiro passo para o consumo das drogas ilícitas. Também é bom lembrar que o alcoolismo provoca dependência em cerca de 10% dos consumidores, com o agravante de que bêbados matam mais inocentes do que consumidores de outras drogas – além de muitos se tornarem agressivos e o abuso estar umbilicalmente ligado à violência doméstica.

O tempo de duração das baladas, que normalmente se estendem até as cinco ou seis da manhã do dia seguinte,  gera cansaço e o perigo de adormecer ao volante na volta para a casa ou outro trajeto, mesmo para os que não ingerem bebidas alcoólicas,

Pelos “usos e costumes” da juventude, a balada tem que ter álcool, seja nos churrascos, nas festas da faculdade, nos almoços e jantares de confraternizações e por aí vai.

No Direito Brasileiro os proprietários de estabelecimentos comerciais, casas de diversões ou em eventos, não são responsabilizados pela bebida servida aos seus clientes, coisa que há muito tempo os países desenvolvidos instituíram.

Mais: as campanhas educativas de trânsito não possuem foco nesta questão problemática e as blitzes, quando acontecem, não atentam para isso.

Na verdade, o que temos é uma crescente cultura da embriaguez no Brasil.

Quem bebe não se apercebe de seu estado e, como regra comercial, garçons e atendentes têm a obrigação de oferecer mais um copo, mas uma dose, mais uma rodada.

O problema é quando termina o evento. Como ninguém ou quase ninguém fica sem beber, o retorno para casa ou para mais uma balada aumenta o risco. E também é tradição que antes da partida haja a “saideira”, aquela última rodada que aumenta o pileque.

Nunca se imagina que vai acontecer o acidente – mas ele ocorre e por vezes é fatal ou deixa sérias sequelas.

As blitzes policiais não são comuns e, quando ocorrem, aplicativos de aparelhos celulares tem a informação em tempo real da sua localização para que os bêbados não sejam “importunados”.

O retrato dessa epidemia são placas de sinalização retorcidas, postes abalroados e a contribuição para a cifra de 18,9 mortes por grupos de 100 mil habitantes, quando nos países líderes em prevenção a estatística é de 5 para cada 100 mil habitantes.

Nos hospitais as vítimas de trânsito representam 45% dos atendimentos.

A palavra “acidente” dá a impressão que é uma fatalidade e que não poderia ser evitado. Isso não é verdade, muito pelo contrário.

Todo acidente tem uma ou algumas causas determinantes que, se não tivessem ocorrido, certamente evitariam o evitariam.

Assim, a “cultura da embriaguez” é uma das principais causas para grande número de acidentes nas cidades e nas estradas brasileiras.

Do outro lado da ponta, há interesses econômicos poderosos para evitar colocar este problema na pauta legislativa e nas discussões do trânsito brasileiro. As cifras milionárias das grandes empresas de bebidas alcoólicas, estabelecimentos comerciais e o segmento da publicidade e marketing interferem negativamente na discussão desse tema.

O que se pode fazer? Batalhar para por fim nesta cultura, criando hábitos saudáveis para as novas gerações, divulgar que baladas sem bebidas são algo natural. Também é preciso forçar a redução drástica da política de propaganda desse produtos, pensar em campanhas educativas convincentes, em blitzes mais constantes e se propagar uma coisa simples: a diversão não é alimentada pela embriguez ou pelo uso de outras drogas, muito pelo contrário.

2 ideias sobre “A cultura da bebida alcoólica no Brasil

  1. Santa Fatima Vieira

    Muito pertinentes as reflexões apresentadas pelo dr. Cláudio Henrique de Castro, sobre a cultura da bebida.

    Os movimentos feministas denunciam que os altos índices de violência contra as mulheres e criança tem a sua origem nessa cultura descrita no artigo.

    E, portanto a conivência dos Meios de Comunicação Social com essa cultura é absurdamente escandalosa!

    Convivemos por exemplo, por um longo tempo com a propaganda de uma determinada marca de cerveja na TC, que mostrava um grupo de homens bebendo na praia e que em determinado momento imaginam-se invisíveis. E o qual é a fantasia que querem liberar? Passar a mão na bunda de mulheres no mar, entrar nos banheiros femininos… E o mais perverso é o “clima de humor” do comercial.

    Portanto, a reflexão apresentada , inicia uma conversa boa sobre um tema, que precisa ser encarado para ser de fato transformado para garantir efetiva qualidade de vida para mulheres e crianças no espaço doméstico e também fora. Parabéns pela refexão.

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