12:46O caminho do desastre

por Janio de Freitas

O Brasil experimentou uma democracia frustradamente reformista, passou por golpe de estado, sofreu a tragédia da ditadura militar, voltou à democracia caótica, e chegou. Chegou outra vez aos primeiros anos da década de 1950. O golpismo, o “entreguismo” ameaçador e a “república do Galeão” foram os estigmas daqueles anos. O golpismo volta no estilo PSDB; acompanha-o o “entreguismo” apontado na retirada de pré-sal da Petrobras, aprovada pelo Senado; e a versão civil da “república do Galeão”, sob o nome insignificante de Lava Jato, evidenciam juntos o estágio em que o Brasil de fato está.

Mas, se é desculpável a imodéstia de quem se aproximava da vida de adulto naquela década, o pequeno Brasil que não era então menos discriminatório e menos elitista, no entanto era mais inteligente, culto e criativo, menos incivilizado em suas cidades e muito, muito menos criminal.

O mundo se mediocriza, é verdade. A França o prova e simboliza. Mas o Brasil exagera, iludido por uns poucos e duvidosos avanços econômicos. Como a indústria automobilística, por exemplo, que sufocou os transportes públicos e deformou as cidades, dois efeitos antissociais no sentido menos classista da palavra. A degenerescência entra, porém, em fase nova. E acelerada.

São já os esteios do esboço de democracia a sofrerem investidas corrosivas. Ainda que sob outras formas, são prenúncios de repetição, se não contidos em tempo, dos desdobramentos lógicos que períodos como os anos 50 produzem, historicamente.

É melhor, e é urgente, que se comece a forçar o Congresso a ser menos infiel às suas finalidades institucionais e mais responsável com suas funções, seja em apoio ou oposição ao governo. Muitos poucos estão ali, em especial entre os deputados, para serem parlamentares. Dividem o seu tempo entre ser massa de manobra de interesses alheios e agir por interesses subalternos próprios. Uns e outros cada vez mais contrários à instituição e à democracia pretendida pela maioria do país.

A ministra Cármen Lúcia foi muito aplaudida pela invocação, em seu literário voto por liberdade biográfica, ao bordão “cala a boca já morreu”. Ninguém observou que o complemento foi omitido: “quem manda aqui sou eu”. O bordão é, na verdade, de extremo autoritarismo. Amputá-lo valeu como definição pessoal.

Mas não é o meio bordão, é o autêntico, realista, que os fatos já justificam: partes do Judiciário e do Ministério Público agem como se respondessem aos direitos civis (e por tabela a quem os defenda): cala a boca já morreu, quem manda aqui sou eu. E mandam mesmo, pela reiteração e pela indiferença, porque as instâncias com autoridade e meios de corrigir as deformações não o fazem, acomodadas no seu próprio poder ou intimidadas pela parcela da sociedade adepta do bordão. E os direitos e a Justiça se esvaem.

Crises políticas não se agravam sem imprensa. Crises econômicas expandem-se menos e menos depressa sem imprensa. Hoje em dia a imprensa brasileira pratica uma solidariedade de modos com as deformações no Congresso, no Ministério Público e no Judiciário. Assola-a nova onda de relaxamento dos princípios éticos, para não falar em qualidade jornalística. E cresce a cada dia uma grande dívida de autocrítica, para relembrar as responsabilidades dos jornalistas profissionais. Com medo da internet, a imprensa brasileira foge de si mesma.

O Brasil não é bem-vindo aos anos 1950.

*Publicado na Folha de S.Paulo

4 ideias sobre “O caminho do desastre

  1. Sergio Silvestre

    Essa nova republica tem um bando que pensa mandar no Brasil.A Globo pensa mandar no Brasil e quase está conseguindo,o Gilmar mendes pensa ser a ultima jabuticaba do PÉ e ele pensa ser o poço de probidade do Brasil,o Moro dizem ser um pré-pago tem uma carga de créditos pela elite idiotizada com vencimento curto,logo sem recarga vai se tornar obsoleta.
    Depois vem o Congresso que até hoje ainda não sei qual e a real finalidade destes delinquentes,não sei pra que serve a não ser atrapalhar o Pais com barganhas e mal feitos.
    Mas por detráz de tudo tem outros que pensam o Pais serem só deles,são as irmandades de uns grandes imbecis que se acham no direito até por que suas ideias são de velharias cuidar dos destinos da nossa democracia,quando eles não são nada democráticos.
    Depois vem os que se acham donos do Brasil e donos de nossas consciências e se acham no direito de nós acreditar neles,quando somos mal informados,as vezes enganados e com isso lá se vai 2 gerações de idiotas.

  2. Sergio Silvestre

    Airo,é que voce le somente aquilo que acha que deve ler e foi bitolado para isso,deve ser alguem das gerações perdidas que leu por muito tempo a Veja e assistiu a Globo,isso deixou a circunferencia do cerebro só com 32 cm.

  3. TOLEDO

    Muito bom, foi saber que o MORO ( O COLOSSO ) comprou 5 revistas Quanto É, quando ele estava na capa. Haja narciso !!! Mas na ultima semana, ele não comprou nenhuma porque ele estava na Capa da Carta Capital e ele é o Dantas FHC. Porque será Silvestre ??? Eu acho que esse é o começo do fim do Moro.

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