6:20Uma biblioteca na cabeça

por Ivan Schmidt 

Umberto Eco (1932-2016) completou 84 anos no último dia 5 de janeiro e morreu em Milão no final da semana passada. O jornal romano La Repubblica ao publicar a nota de falecimento deu a ela o título incontestável: “Morreu Umberto Eco, o homem que sabia de tudo”.

Na cerimônia fúnebre um dos oradores lembrou que Umberto Eco “tinha uma biblioteca na cabeça”, para expressar a largueza do conhecimento múltiplo desse intelectual nascido na pequena cidade de Alexandria (Itália), cuja vida foi dedicada à literatura com brilhantes incursões na semiótica, filosofia, história e comunicação de massa.

Sem dúvida, foi sua uma das mentes mais férteis das últimas décadas do século passado e dos primeiros 15 anos do atual, explorador infatigável do estoque de elementos ótimos, bons, ruins ou execráveis da cultura de massa, que fez da estória em quadrinhos o manancial em que colheu razões suficientes para dar lastro a seu pensamento iluminista, ao deparar-se com a internet não titubeou em afirmar que ela enchera o mundo de imbecis.

Eco lecionou na Universidade de Bolonha, a mais antiga do mundo, e foi também professor convidado nas universidades de Yale, Colúmbia, Harvard, Collége de France e Toronto, no Canadá.

O autor de O nome da rosa, romance histórico de fundo detetivesco, que até então se dedicara ao estudo das ciências humanas, logo alcançou notabilidade planetária com a tradução do livro na maioria dos idiomas modernos e os milhões de exemplares vendidos. O sucesso absoluto veio com o lançamento do filme como o mesmo nome do romance, estrelado por Sean Connery, que interpretou o protagonista Guilherme de Baskervilles, claramente inspirado em Sherlock Holmes.

A carreira do pensador italiano ganhou força e catapultou com base nos primeiros estudos sobre a teoria da comunicação, nos anos 70, quando da publicação do livro Apocalípticos e integrados, traduzido para o português por Pérola de Carvalho e lançado pela Perspectiva (SP), editora dirigida por J. Ginsburg, hoje na décima primeira edição.

O livro é uma descrição com ares de ciência da teoria da comunicação de massa, muito embora o autor tivesse o cuidado de transmitir seus argumentos numa linguagem que fosse compreendida também pelos leitores sem formação acadêmica.

Na longa introdução ao livro que é uma coletânea de ensaios dados a conhecer anteriormente em publicações especializadas, Eco refere-se às atitudes intelectuais enunciadas no título dizendo que “por outro lado, são estes mesmos, que definimos como apocalípticos ou integrados, os que censuramos pelo fato de haverem difundido conceitos igualmente genéricos – conceitos-fetiche – e de os haverem usado como cabeças de turco em polêmicas improdutivas ou em operações mercantis de que nós mesmos cotidianamente nos nutrimos”.

O escritor diz que “a cultura de massa é a anticultura”, ressalvando que ela nasce no momento em que a presença das massas, na vida associada, se torna o fenômeno mais evidente de um contexto histórico, assim que “a cultura de massa não indica uma aberração transitória e limitada”.

Ao contrário, ela é “a resposta otimista do integrado: já que a televisão, o jornal, o rádio, o cinema e a estória em quadrinhos, o romance popular e o Reader’s Digest, agora colocam os bens culturais à disposição de todos, tornando leve e agradável a absorção das noções e a recepção de informações, estamos vivendo numa época de alargamento da área cultural, onde finalmente se realiza, a nível amplo, com o concurso dos melhores, a circulação de uma arte e de uma cultura popular”.

Para o integrado, explica Umberto Eco, “não existe o problema de essa cultura sair de baixo ou vir confeccionada de cima para consumidores indefesos. Mesmo porque, se os apocalípticos sobrevivem confeccionando teorias sobre a decadência, os integrados raramente teorizam e assim mais facilmente operam, produzem, emitem as suas mensagens cotidianamente a todos os níveis”.

Um dos inúmeros itens da chamada cultura de massa, ou da indústria cultural (como passou a ser definida) tratados num dos ensaios escritos por Umberto Eco foi o romance policial, com especial destaque e admiração que transparece da parte do autor por “uma personagem ora famosa, como Nero Wolfe, imortalizada por Rex Stout”. Montenegrino naturalizado norte-americano desde tempos imemoriais “é desmesuradamente gordo, tanto que precisa de uma poltrona de couro expressamente desenhada para ele, dado seus ataques de pavorosas manifestações de preguiça”.

Wolfe é um detetive particular que nunca sai de casa (as razões são óbvias), valendo-se para suas investigações do ousado Archie Goodwin, “com quem entretém relações contínuas de extensa e arguta polêmica, temperada com o sense of humour de ambos”. Talvez a gordura viesse da gulodice de Nero Wolfe, e “o cozinheiro Fritz é a vestal adida ao cuidado contínuo de um paladar tão requintado quão voraz é o estômago adjacente, mas ao lado dos prazeres da mesa, Wolfe cultiva uma absorvente e exclusiva paixão pelas orquídeas de que tem uma coleção de valor inestimável, em sua estufa no último andar da casa ajardinada onde mora”.

No romance policial, grosso modo, as variações sobre o tema são infinitas: “Cada delito tem novas motivações psicológicas e econômicas, toda vez o autor excogita uma situação aparentemente nova”, escreveu. O aparentemente para ele é fácil de explicar “porque de fato o leitor nunca é levado a verificar em que medida lhe é narrado algo de inédito”.

Os pontos essenciais das tramas, que Umberto chama de pontos-força, “são aqueles em que Wolfe repete seus gestos costumeiros, em que sai pela enésima vez para cuidar de suas orquídeas, enquanto o acontecimento atinge o auge da dramaticidade, em que o inspetor Cramer entra ameaçador, pondo um pé entre a porta e o batente, e passa um sabão em Goodwin, e adverte Wolfe – agitando o dedo – de que, desta vez, as coisas não ficam assim”.

O que mais atrai num romance do gênero (Stout é um dos papas do pedaço) é o senso de repouso, de distensão psicológica que é capaz de conferir, advindos “do fato de que, afundado em sua poltrona, ou no divã da cabine do trem, o leitor encontra continuamente e ponto por ponto, o que já sabe, o que quer saber ainda uma vez, e pelo que pagou o preço do fascículo – o prazer da não-estória, se é que uma estória é um desenvolvimento de eventos, que nos deve levar de um ponto de partida a um ponto de chegada, ao qual jamais teríamos sonhado chegar”.

O professor de semiologia acrescia com invejável inerrância que esse tipo de leitura constitui “um prazer em que a distração consiste na recusa do desenvolvimento dos eventos, num subtrair-nos à tensão passado-presente-futuro que nos retira para um instante, amado porque recorrente”.

Tenho razões para crer que grande parte da numinosa inspiração que permitiu a Umberto Eco a escrita da obra-prima O nome da rosa, veio da admiração repleta de domínio e perspicácia ao mergulhar no escrutínio do romance policial e seus personagens imortais.

Penso que se não tivéssemos Holmes, Maigret e Hercule Poirot, criaturas de Doyle, Simenon e Agatha Christie “até as perversidades cotidianas dos mais desabusados heróis do romance policial do pós-guerra”, como assinala o próprio Umberto Eco, muitos deles saídos da imaginação genial de Dashiel Hammet, P. D. James, Ngaio Marsh, Raymond Chandler e Rex Stout (a lista é longa), dificilmente teríamos tido a fruição encantadora de Guilherme de Baskervilles.

2 ideias sobre “Uma biblioteca na cabeça

  1. Parreiras Rodrigues

    Belíssima homenagem, Ivan. E muito obrigado por nos descrever Umberto Eco de maneira tão clara, profunda e legível.

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