14:15Cesteiro que faz um cesto

por Ivan Schmidt

O antigo capitão da seleção lulista, agora réu da Operação Lava Jato, José Dirceu de Oliveira e Silva, prestou depoimento ao juiz Sergio Moro e entre outras preciosidades afirmou não ver necessidade na sua prisão, vez que em todas as oportunidades que se fizeram necessárias sempre esteve disposto a colaborar com a Justiça.

Dirceu, que tantos anos depois de uma intensa vida dedicada à política, a ele pode-se atribuir a definição socrática de animal político, é hoje mirrado reflexo daquela estética “Hud, o indomado”, filme estrelado por Paul Newman em sua primeira fase de ator nos anos 60, mostrou-se inconformado com o fato da segunda prisão (já estava em regime domiciliar em Brasília), numa transição de culpabilidade sempre negada entre as gatunagens do mensalão e do petrolão.

Ao se referir à primeira condenação, o anônimo comerciante de Cruzeiro do Oeste no período em que viveu clandestinamente no Brasil após ter regressado de Cuba, se mostrou perplexo com sua situação penal, reagindo: “Agora, o que não posso é pela segunda vez virar chefe de quadrilha”.

Quanta diferença dos tempos do líder em potencial que havia vindo do interior de Minas Gerais e logo estava com um megafone nas mãos agitando a moçada da rua Maria Antonia (centro de São Paulo), onde se localizava o prédio da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP, um dos principais redutos da esquerda estudantil da época.

Há alguns dias o jornalista Clóvis Rossi escreveu na Folha de S. Paulo bem fundamentado artigo levantando uma questão instigante: em que momento de sua longa e rica trajetória, Zé Dirceu assumiu essa mudança radical de comportamento, passando de herói a bandido? A mesma indagação fazia o jornalista sobre o desempenho do próprio ex-presidente Lula, que de tosco líder sindicalista no ABC paulista (na época era visto com a camiseta do Zé Ferrador, ícone dos metalúrgicos da região), passou em poucos anos a ser o “virtual” proprietário de apartamento tríplex no litoral paulista e do arbóreo sítio de Atibaia.

Para não negar o estilo e o gosto pela pompa e circunstâncias, hábito recentemente adquirido pela nomenclatura petista, Zé Dirceu comprou uma vivenda no município paulista de Vinhedo (perto da capital na direção de Campinas), hoje uma das cidades com uma das maiores rendas per capita do país, e para dizer pouco, onde têm suas mansões e propriedades suntuosas os paulistanos quatrocentões. É mole?

Aliás, sobre esse item da folha pregressa o ex-ministro declarou olimpicamente que a casa precisava de uma reforma, para o que pediu dinheiro emprestado ao lobista Milton Pascowitch e nunca pagou.

Isso para pavonear-se da suposta qualidade dos serviços prestados a terceiros como advogado ou consultor de empresas – cuja atuação sempre foi personalíssima – a remuneração de até 160 mil reais por mês é café pequeno.

O jovem estudante preso pela polícia no sítio de Ibiúna (SP), junto com outras dezenas no congresso clandestino realizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), mais tarde trocado pelo embaixador seqüestrado por uma célula atuante no Rio de Janeiro foi parar em Cuba, onde dizem ter recebido treinamento em guerrilha e quetais.

Após uma operação plástica que mudou o formato do nariz, saiu de Cuba e voltou ao Brasil sem ser molestado, indo então morar em Cruzeiro do Oeste, cidade pacata do interior paranaense. Abriu uma pequena loja de roupas, casou e teve um filho – Zeca Dirceu – atualmente deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores.

Como um autêntico camaleão, ao começar a ouvir os primeiros rumores sobre a anistia para presos políticos, Dirceu tomou uma das decisões mais desafiadoras de seu comportamento de animal político: sempre de forma clandestina voltou a Cuba, providenciou uma garibada no rosto e, triunfante regressou ao Brasil ao lado de muitos outros banidos pelo regime militar.

Ele não mereceu a citação na letra de nenhum samba, mas teve seu momento de glória ao lado “do irmão do Henfil” e muitos outros, ao descerem do avião depois de anos de exílio, que para muitos deles, diga-se de passagem, havia sido um excelente negócio.

A carreira política foi fulgurante e meteórica e logo, militante do PT, Dirceu chegou à Câmara dos Deputados, destacando-se como parlamentar combativo e hábil negociador. Sua ascendência e liderança indiscutíveis o levaram à presidência do partido e, alguém duvida?, a impor-se sobre os demais companheiros como legítimo intelectual orgânico das campanhas de Luiz Inácio à presidência da República até a retumbante eleição de 2003.

Daí em diante a maionese desandou e em pouquíssimo tempo o país ouviu aquela frase cortante e pejada de veracidade, por mais cruel que fosse, proferida pelo então deputado Roberto Jefferson: “Zé, sai já daí”. Dirceu era o ministro-chefe da Casa Civil, o imediato de Lula na condução do governo, o capitão do time. Provavelmente o homem que haveria de suceder Lula na presidência, não fossem descobertas as tretas do mensalão e o obrigatório período de reclusão da caterva nas suítes da Papuda.

Como uma repaginação ainda mais triste e amarfanhada do Quixote, Dirceu se limitou a lamuriar-se na presença do juiz federal Sergio Moro e outras autoridades judiciais: “Agora, o que eu não posso é pela segunda vez virar chefe de quadrilha”.

Mas como se dizia em outros tempos “cesteiro que faz um cesto, faz um cento”.

Uma ideia sobre “Cesteiro que faz um cesto

  1. Parreiras Rodrigues

    Meu sempre lembrado amigo Ivan:

    O que me irrita é a pretensão dessa camareilha chefiada por Lula, secundado por Zé Dirceu, em taxar-nos como trouxas.
    O que me consola é a certeza de que logo logo, ZD terá a companhia de Lula e a visão dos dois comendo marmitex da Rizotolândia e cagando agachados nas latrinas do Complexo Médico Penal de Pinhais.

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