7:12Quando os quadrinhos fazem a diferença

por Célio Heitor Guimarães

Fui um leitor compulsivo de gibis. Como aprendi a ler aos 5 anos, aos 6 já andava metido entre os quadrinhos. Foram mais de sessenta anos de convívio com os heróis de papel. Afastei-me de vez deles há coisa de dois anos, quando me despedi do Super-Homem, o maior ícone da minha geração, que vem sendo metodicamente assassinado por editores mais perigosos que a kryptonita vermelha. Depois disso, passei – como já lhes disse aqui neste espaço do Zé Beto – a acompanhar apenas as aventuras do ranger italiano Tex Willer e do gaulês Asterix, passando, de vez em quando, pela releitura de Mafalda, de Quino; Peanuts, de Schulz; e Spirit, de Eisner. Mas continuo, por vício de origem, acompanhando o mercado quadrinizado. Às vezes, ele nos surpreende com mimos encantadores. Foi o que aconteceu recentemente.

Eu andava atrás da edição quadrinizada de “O Quinze”, romance de Rachel de Queiroz, que soubera ter sido lançada pela Editora Ática. A versão era datada de 2014, mas não havia jeito de encontrá-la por estas bandas. Estava prestes a encomendá-la à editora, quando – surpresa! – a localizei meio escondida entre as ofertas da Livraria Cultura. Foi uma alegria tamanha quanto a leitura da preciosa edição. Bonita, contundente, triste, mas, sobretudo, verdadeira e bem brasileira. É história de nossa gente, gente que se apega à fé e à terra em que nasceu, onde amarga sofrimento atroz, mas não perde a coragem nem a vontade de viver; gente que divide o nada com o seu semelhante e com os esquálidos animais, que considera da família.

“Encostado ao mourão da porteira de paus corridos, o vaqueiro das Aroeiras aboiava dolorosamente, vendo o gado sair, um a um, do curral. A junta de bois mansos passou devagarinho. O velho touro da fazenda saiu, arrogante. Garrotes magros, de grandes barrigas, empurravam as vacas de cria, atropelando-se. Até que a derradeira rês, a Flor do Pasto, fechando a marcha, também transpôs a porteira e passou junto de Chico Bento, que lhe afagou com a mão a velha anca rosilha, num gesto de carinho e despedida… Saída a última rês, Chico Bento bateu os paus na porteira e foi caminhando devagar, atrás do lento caminhar do gado que marchava à toa, parando às vezes, e pondo no pasto seco os olhos tristes, como numa agudeza de desesperança.”

quadrinhosoquinze

Quando escreveu “O Quinze”, nos idos de 1930, a cearense Rachel de Queiroz tinha apenas 19 anos, mas soube registrar as cicatrizes deixadas pela estiagem de 1915 no Nordeste brasileiro. E surpreendeu. Não apenas pela pouca idade, mas por ser mulher e por haver demonstrado uma sensibilidade inusitada na época. Mais que isso: pela sobriedade e ausência de pieguice com que conseguiu desenvolver a trama, tendo como pano de fundo uma das mais dolorosas tragédias humanas – que até hoje se presta para fomentar a demagogia e o enriquecimento criminoso de políticos indecentes e mal-intencionados, sem maior resultado concreto para a população.

Não é fácil transpor para os quadrinhos uma obra literária. Ainda mais em se tratando de um clássico como “O Quinze”. Pois outro nordestino, o paraibano Shiko (na verdade, Francisco José de Souto Leite), conseguiu. E o fez com competência, mantendo a essência do texto original e valorizando-o com seu traço firme, suas aquarelas caprichadas e suas cores fortes. A sequência narrativa prende a atenção do leitor, comove, causa tristeza e revolta. E isso se deve ao talento de Shiko. O fato de ele haver morado até os 20 anos no interior da Paraíba e assistido com o avô a muitos pores do sol no dia de São José, o ajudou, com certeza. Nem por isso, o artista deixou de priorizar a simplicidade, como fez questão de registrar:

“Tentei fazer uma construção objetiva, sem grandes floreios, sem perspectivas fantásticas, enquadramentos de malabarista, ou cenas de página inteira”.

No entanto, toda a aridez da região, o desencanto das pessoas e o flagelo da seca se fazem presentes. Assim como os sonhos e as desilusões da normalista Conceição, que protagoniza o romance e diz-se ter muito da autora quando jovem.

“O Quinze”, de Rachel de Queiroz, completou cem anos no ano passado. Mas, desgraçadamente, continua mais atual do que nunca. Por isso, a versão em quadrinhos é uma boa oportunidade para os jovens do Sul-Maravilha entenderem um pouco mais do Brasil. E uma prova que nem tudo está perdido na arte quadrinizada.

3 ideias sobre “Quando os quadrinhos fazem a diferença

  1. Sergio Silvestre

    Minha infância diferente dos dias de hoje,vivia num mundo onde meus heróis eram o Mickey e o Pateta lutando contra os irmãos fuinhas e o João bafo de onça e o Pato Donald e seus três sobrinhos sempre protegendo a moedinha numero um do Tio Patinhas que era a ambição da maga Patológica e dos terríveis irmãos metralhas.
    Lembranças boas,mundo fantástico onde eu conservava como relíquia a edição numero 51 do Mickey,mas aqui no presente temos os nossos irmãos e filhos metralhas ,todos ai na assembleia e no tribunal de contas rsrsrsrsrs

  2. Bittencourt

    Estimado Célio, mestre de obras dessa nossa constante construção jornalística, onde vamos empilhando nossos tijolos de fatos, apoiados na argamassa das idéias.
    Embora não ouse discutir qualquer questão sobre quadrinhos, fui, na base, apreciador de muitas histórias e estórias infantis e, depois – com olhos mais atentos, me deliciava com as aventuras do Mandrake e seus “gestos hipnóticos”, mais a elegância de Nick Holmes e as diabruras dos Sobrinhos do Capitão.
    Em tudo isso você me dá banho, mas tenho uma passagem que quem se lambuza sou eu. Pois na década final do século passado, tive a honra e o prazer de acompanhar por dois dias, Rachel de Queiroz em uma visita a Curitiba. Ela veio para lançar uma coletânea de suas obras pela José Olympio Editora, e por minha conta e risco – com o beneplácito do Aroldo Murá, andei uma tarde e uma manhã com a grande escritora. Eu e a Adélia Maria Lopes.
    Me esbaldei nas conversas e andei de braços dados com ela. Disse coisas muito gostosas, como “escrever é chato e dói”. Contou que entregava seu artigo para O Cruzeiro, a “Última Página”, sempre na undécia hora. E que escrevia numa penada só. Outra ótima, e que está, também, na sua biografia: era incapaz de guardar o nome de qualquer remédio. Poderia dizer a história da humanidade de trás prá frente, mas sabia que antes do almoço e da janta tinha que “tomar aquele amarelinho”. Ao acordar ” o cor-de-rosa, que é prá pressão”.
    Antes de ir embora, corri e comprei um livro para que ela autografasse. Escolhi “O Quinze” por ser o primeiro e tal. (Depois vim saber que ela detestava o livro, porque ele a perseguia por sessenta anos (rsrsrs). Mas aquiesceu e dedicou, com sua letra de professora, “ao amigo Bittencourt, com o apreço da colega Raquel de Queiroz”. Colega e amigo, eu, este mísero escriba, pardal das letras. E ao se despedir falou: “quando for ao Rio me ligue, estou na lista.” Assim, na lista como qualquer mortal.
    E estava, mesmo. Como nessa época eu trabalhava também na revista Manchete – na sucursal, quando fui ao Rio telefonei, só para dizer olá. Ela estava viajando, mas sua irmã Maria Luísa, que atendeu, disse que anotaria e diria que liguei.
    Tenho mais estórias com a Raquel, mas só conto numa mesa de café.
    Receba, pois, o abraço desse seu colega,

    Bitte

  3. Célio Heitor Guimarães

    Agradeço e retribuo as palavras e o abraço, grande Bitte. Foi um belo depoimento, que engrandeceu o meu pálido texto. Acho apenas que as suas estórias caberiam não apenas numa mesa de café, mas também aqui neste espaço. E que o nosso Zé Beto e os seguidores dele as receberiam com muita alegria.

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