7:55Lembranças e esquecimentos

por Leonardo Padura

O dia 7 de novembro será o 98º aniversário de um acontecimento que pretendeu não apenas mudar a história, mas transformar o mundo do presente e do futuro. Com a tomada do Palácio de Inverno de São Petersburgo pelos bolcheviques, como todos sabemos (ou deveríamos saber) e o anúncio de que o poder na Rússia passava para as mãos dos sovietes, pretendia-se iniciar uma nova etapa de desenvolvimento do homem, da sociedade e da história.

A criação do novo tipo de Estado fomentado pelos revolucionários bolcheviques a partir das aplicações práticas da filosofia marxista se distinguiria por seu caráter de modelo socioeconômico que, respondendo à vontade da maioria trabalhadora, imporia uma nova forma de exercer o poder, praticar a economia e reger a política.

Seria uma estrutura social em que as grandes massas criadoras de riqueza e eternamente exploradas passariam a ser as novas beneficiadas e possibilitariam a concretização de uma das utopias mais antigas do homem civilizado: viver em uma sociedade na qual, com um máximo de liberdade e uma democracia popular compacta, o ser humano alcançaria a plenitude de seus direitos, capacidades e possibilidades. A idílica sociedade dos iguais.

Leon Trótski foi um dos líderes do levante popular que passaria para a história como a Revolução Bolchevique de outubro de 1917 (pois, segundo o antigo calendário russo, aconteceu no dia 26 de outubro, que corresponde a 7 de novembro) e foi exatamente Trótski o encarregado de anunciar “urbi et orbi”, que o poder na Rússia passava para os sovietes, ou comitês de trabalhadores.

Como todos sabemos (ou deveríamos saber), Liev Davidovich Bronstein, já então conhecido por seu nome de guerra e pseudônimo literário, foi um dos pensadores e revolucionários mais radicais e influentes de sua época.

Foi também um dos primeiros invasores que tomariam aquele palácio russo, símbolo do poder e da pompa do regime czarista que chegava ao fim naquele dia, dando lugar a uma nova etapa histórica.

Mas precisamente nesse dia, 7 de novembro de 1917, o revolucionário Trótski completava 38 anos de idade, razão por que agora poderemos comemorar, juntamente com os 98 anos da Revolução, os 136 anos do nascimento de um de seus líderes, ocorrido em 1879 num pequeno povoado ucraniano da província de Kherson, hoje chamada Kirovograd.

Os mistérios insondáveis das datas fizeram coincidir em um mesmo dia um momento da história que gerou mudanças profundas e aceleradas e um aniversário significativo da vida de um personagem justamente histórico, protagonista daquele acontecimento.

Porém, como também sabemos (ou deveríamos saber), para além de alguma coincidência notável ou conjuntura especial, as datas não costumam ter peso muito grande nos caminhos da história: Trótski poderia ter nascido em 6 de novembro e a tomada do Palácio de Inverno poderia ter acontecido no dia 8, e embora a essência do que aconteceu poderia ter sido a mesma, o dia 7 de novembro de 1917 teria perdido seu peso histórico muito especial para o mundo e sua relação intrínseca com a vida de um homem imerso na história.

O que importa de fato é o que aconteceu nesse dia e, dramaticamente, o que a história e o destino reservaram para o fato histórico e o homem unidos pela ação e data.

Porque aquele sonho utópico de fundar a mais democrática, livre e igualitária das sociedades se frustrou em muito pouco tempo. As condições da história e o caráter dos homens se conjugaram para que o poder dos sovietes e a ditadura do proletariado nascidos naquele 7 de novembro se convertessem na ditadura criminosa de Josef Stálin e sua polícia política e, é claro, na mais dolorosa perversão do velho e necessário anseio social da humanidade e no calvário que acabaria com a vida do homem que tinha anunciado em São Petersburgo o nascimento de uma nova era.

E a perversão do sonho foi tão radical, tão devastadora e criminal que hoje a alvorada de outubro de 1917 não passa de uma comemoração nostálgica de algo que poderia ter sido e não foi, enquanto a lembrança da glória de Trótski é apenas a convicção, para seus seguidores, de que ainda é preciso sonhar com a utopia de um mundo melhor.

Mas lembrando as lições do dramático fracasso de uma história cujos sinos tocariam pela última vez no dia de 1991 em que se anunciou o fim oficial do país e da sociedade nascidos entre as brumas de São Petersburgo, um 7 de novembro –ou um 26 de outubro.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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