8:55O freio e Poliana

A edição deste domingo do jornal Gazeta do Povo é um exemplo de como o exercício da democracia pode ser praticado para que o leitor tire suas conclusões pelo exposto por lados contrários. Na página 2 um artigo do governador do Paraná, Beto Richa, já se explica pelo título que grita: “O Brasil não vai frear o Paraná”. Resumo: a crise daqui é resultado da crise federal que foi maquiada antes da reeleição. Mais adiante, na página 20 do caderno Vida Pública, Celso Nascimento, o principal colunista político do jornal, é demolidor e irônico ao afirmar que Richa sofre de “síndrome de Poliana” e, baseado no discurso feito pelo governador na reunião dos secretários, que é o embrião do artigo publicado, informa que, ao que parece, ele finalmente ele acordou para a realidade. Confiram os dois textos:

O Brasil não vai frear o Paraná

  • Beto Richa

O Brasil vive hoje a pior crise dos últimos tempos, talvez a maior desde a redemocratização do país, há 30 anos. É uma crise que alimenta o pessimismo, espraia a desesperança e potencializa a decepção.

Como nação, regredimos e perdemos o que duramente conquistamos. Em todo o país, a sensação é de traição. Fomos traídos em nossa confiança, acreditando que os dados oficiais servissem para revelar a verdade de um país promissor e não para ocultar contas públicas maquiadas.

No Paraná, acreditamos que a contabilidade nacional não era uma peça de marketing, mas expressão da realidade. Com base nisso, fixamos metas, definimos prioridades, fizemos projeções. Infelizmente, não ficamos imunes ao colapso da economia brasileira e, assim como o Brasil, fomos atingidos pela crise.

O orçamento de 2015 foi elaborado com base nos dados que a economia brasileira sinalizava em junho de 2014, quando economistas do governo federal apontavam para uma taxa de crescimento do PIB acima de 4% para o ano corrente. Iludiram o país.

Mas não ficamos de braços cruzados. Tivemos de tomar decisões difíceis. Adequamos, com muito sacrifício, a realidade do Paraná à perspectiva de um Brasil que enfrenta agora a combinação perversa de juros altos, inflação fora de controle e desemprego em marcha.

O Brasil não vai frear o Paraná. Ao contrário, é o Paraná que vai ajudar a empurrar o Brasil para a frente. Já podemos anunciar que o momento mais duro do ajuste do Paraná está terminado, com as medidas aprovadas pela Assembleia Legislativa.

Porém, continuamos adotando ações administrativas para cortar gastos e economizar, em um processo de revisão diária, de racionalização das despesas. Enquanto o Brasil dá mau exemplo com o inchaço da máquina, nós cortamos mil cargos comissionados. Os pagamentos dos nossos fornecedores estão sendo colocados em dia. As obras de infraestrutura estão sendo retomadas gradativamente, em todo o estado.

Sem abrir mão da responsabilidade e do equilíbrio orçamentário, retomamos com força o ritmo das ações, obras e programas de governo que são vitais para o desenvolvimento. Enquanto o Brasil recua, vamos avançar.

Nosso objetivo é continuar fomentando a economia do estado, criando empregos em todas as regiões, fortalecendo a atração de investimentos e a qualidade de nossa infraestrutura. O Paraná não vai ficar paralisado pela crise.

Temos muitos motivos para não nos deixar abater. Consolidamos nossa liderança na agricultura e fortalecemos o crescimento industrial. Geramos o maior ciclo industrial da história paranaense, ao contrário de governos anteriores, quando as empresas iam embora daqui. Estamos investindo, incluindo parcerias com a iniciativa privada, bilhões em infraestrutura.

Fizemos investimentos recordes na educação, na saúde e na segurança pública, com contratações de pessoal, compra de viaturas e equipamentos. Valorizamos o funcionalismo público: desde 2011, garantimos um reajuste médio de 63% para os servidores.

Enquanto o Brasil vê o seu índice de desemprego crescer, o Paraná foi o segundo estado brasileiro que mais gerou postos de trabalho no primeiro quadrimestre. Segundo o Ipea, somos hoje o segundo com o menor índice de desigualdade social e o terceiro estado mais transparente do país, segundo a Controladoria- Geral da União (CGU).

Nosso governo, com disposição permanente para o trabalho, não será lembrado pelas calúnias de seus adversários. Será lembrado como uma referência de trabalho e de eficiência, com resultados concretos que mudam para melhor a vida dos paranaenses. O Paraná é maior do que o pessimismo dos derrotados, do que todas as suas intrigas. O Paraná é maior do que todas as crises.

Beto Richa é governador do Paraná.
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Celso Nascimento

Síndrome de Poliana

Se você é ainda menina-moça – ou mesmo que, ao contrário, seja um distinto e provecto cavalheiro – já leu ou deve ter ouvido as estórias de Poliana. Poliana é personagem de um obra da literatura universal, que a norte-americana Eleanor Porter escreveu em 1913. Conta a história de uma garota que vê tudo “cor de rosa”, sem maldades, sempre acreditando no melhor das pessoas e da vida, sendo incapaz de fazer algum mal a alguém. Ela é toda amor e bondade.

Não se sabe exatamente quem escreveu o discurso que Beto Richa leu ao final da reunião do secretariado na última quinta-feira, mas a intenção do autor parece ter sido acordá-lo da “Síndrome de Poliana” dando-lhe um choque de realidade. Bem escrito (dizem que de autoria de um marqueteiro de nome Adriano Gehler, com passagens em campanhas goianas, baianas e alagoanas), o texto contém preciosidades típicas da boa-fé que até então Richa praticava.

Por exemplo: como Poliana, tudo o que o governador fez no Paraná no primeiro mandato e que resultou no desmanche das finanças públicas estaduais se deveu à inabalável crença que depositava em Dilma Roussef e nos bons números que ela propagava. Vejam só estes trechos do discurso:

• “Fomos traídos em nossa confiança, acreditando que os dados oficiais servissem para revelar a verdade de um país promissor e não para ocultar contas públicas maquiadas.”

• “Nós aqui no Paraná, acreditamos. Acreditamos que a contabilidade nacional não era uma peça de marketing, mas expressão da realidade.”

• “Com base nisso, fixamos metas, definimos prioridades, fizemos projeções.”

É lindo de ver tanta candura, com a qual ninguém deve se surpreender, apesar de ter perdurado por tanto tempo. Felizmente, o Paraná acordou, como demonstram outros trechos:

• “Nos iludiram. E tivemos que agir rápido. Não ficamos de braços cruza|dos. Fizemos o dever de casa. Tivemos que tomar decisões difíceis.”

• “Adequamos, com muito sacrifício, a realidade do Paraná à perspectiva de um Brasil que enfrenta agora a combinação perversa de juros altos, inflação fora de controle e desemprego em marcha. É hora de reagir.”

Ainda bem. Ultrapassados aqueles tempos movidos a fé e esperança, o governador pôde anunciar ao secretariado e ao povo em geral ter tomado medidas duras de ajuste para o Paraná acelerar “enquanto o Brasil recua”.

Informou ele que as medidas enviadas para a Assembleia foram aprovadas e que ações para cortar gastos e economizar foram adotadas. Os pagamentos atrasados dos fornecedores estão sendo colocados em dia. As obras de infraestrutura estão sendo retomadas.

Terminada a reunião, quatro secretários – que nunca leram Poliana – filosofavam no elevador do Palácio sobre outro tema: dissonância cognitiva, síndrome que a psicologia define como a contradição entre crença e realidade.

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O preço da guerra 1

Nunca antes se imaginou que o Paraná estivesse tão bem preparado para uma guerra de verdade. Mas agora vem a confirmação de que nossas forças policiais – para as quais de vez em quando falta gasolina ou oficina para mover viaturas – são mais poderosas do que se pensava. Por meio de um ofício assinado pelo comandante-geral da Polícia Militar, coronel Tortato, como resposta ao Ministério Público de Contas, os paranaenses tomam conhecimento do nosso poderio de fogo.

O preço da guerra 2

O ofício contabiliza os gastos em dinheiro, o contingente de militares e o arsenal utilizado na operação do dia 29 de abril – a Batalha do Centro Cívico (não confundir com a Batalha de Itararé, que não houve). Ficou-se sabendo que o custo foi de quase R$ 1 milhão; que foram empregados 2.516 policiais (855 trazidos do interior); e que a PM tinha 3.761 munições à disposição (balas de borracha, bombas e sprays de pimenta). A carga levada ao teatro da guerra dava para disparar 20 balas e 11 bombas por minuto.

O preço da guerra 3

A partir do ofício da PM, é possível saber que cada manifestante custou aos cofres públicos R$ 47,00. Se o cálculo levar em conta apenas o número de feridos (213), o custo por vítima sobe para
R$ 4.430,00 – valor equivalente a um auxílio-moradia pago a juízes, promotores e conselheiros. Parte do prejuízo pode ser recuperado: policiais que não comeram tudo o que podiam terão de devolver parte de suas diárias. O governo também pediu à Justiça o confisco de R$ 1,2 milhão das contas da APP-Sindicato, condenado a pagar multa de R$ 40 mil por dia de greve contada até sexta-feira.

Adeus Metrô

Adeus ao metrô curitibano. A tradicional boate da Alameda Cabral que leva esse nome acaba de fechar as portas.

 

6 ideias sobre “O freio e Poliana

  1. Macarrão

    Gosto quando os dois lados são apresentados. Este é o caminho! Mesmo quando lembramos que Celso Nascimento é aquele que foi exonerado do serviço público, e tem ódio da família Richa, os embates são necessários! Porém, e fica minha crítica ao jornalzão da família, tem sido extremamente raro a apresentação ao público, ao assinante, dos dois lados. 99% do jornalao é matéria de um lado só, sem nenhuma controvérsia. Que esta divergência tenha aparecido apenas porque foi um artigo do governador, esperamos que a família Cunha Pereira, passe a exercer este tipo de jornalismo, buscando apresentar sempre dois pontos de vista em suas notícias, quem sabe assim, voltam a recuperar a credibilidade que já não existe faz tempo. Poderiam começar colocando pessoas que defendem o financiamento privado de campanha, pois o jornal de sábado foi um festival de defesa ao financiamento público, com comentários para lá de falsos. E sem um ponto de vista contrário, pode tem gente que acredito naquilo que foi dito por juízes e por Rosseto. Cade os dois lados?

  2. Indignado

    O Playboy/governadorzinho não tem moral nenhuma faz muito tempo. Sempre se contradiz com as próprias mentiras; ditas de sua boca e/ou escritas por escribas (bem) pagos para ele e sua claque de marketing repetirem ¨ad nauseaum¨na mídia, paga por nós, claro. Demonstra, exaustivamente, o quanto é covarde, mentiroso e incompetente. Desvirtudes essas comprovadas pela mesma mídia.
    Basta alguém com culhões e moral ilibada, para repetir isso em alto e bom tom.
    E ele não está sozinho. ¨Homens em cargos públicos como ele estão fazendo o mesmo na dita Casa do Povo, no tribunalzinho da justiça, no de Faz de Contas, e muitos outros setores públicos, regiamente pagos, com inúmeras regalias e benesses, mas com serviços de uma mediocridade nunca vista no estadinho do paraná. País de Otários e Canalhas, sempre!

  3. jk

    O Celso disse tudo.
    Mas acho que o Playboy vai continuar a culpar alguém, como não vai ter a quem culpar, vai culpar o Papai Noel por não entregar os presentes.

  4. Celso

    Houve um comentarista aí em cima, que se esconde sob o codinome de Macarrão, que lembra acertadamente que o jornalista Celso Nascimento foi exonerado do serviço público. Por duas vezes. A primeira, em 1984, por José Richa; a segunda, em 2011, pelo filho Beto Richa. Macarrão precisa ir aos autos e verificar as razões das duas exonerações para que não passe aos que o leram a equivocada impressão de que Celso Nascimento foi demitido “a bem do serviço público” ou porque tivesse avançado nos cofres do governo, roubado etc. Da primeira vez, foi demitido exatamente porque ajudou a denunciar corrupção (comprovada) na secretaria da Fazenda de José Richa; na segunda, porque, depois de anistiado da primeira demissão, foi-lhe negado por Beto o pedido (previsto no Estatuto dos Servidores) de se licenciar do serviço público SEM VENCIMENTOS para evitar o choque ético entre ser crítico do governo no jornal em que trabalha e ao mesmo tempo funcionário do governo que critica. Em vez de dar-lhe a licença, Beto preferiu demitir o jornalista pela segunda vez. A postura frente ao governo Beto Richa só poderia ser atribuída à “raiva da família Richa” se não fosse coerentemente aplicada a todos os demais governantes que ocuparam o Palácio Iguaçu entre José e Beto, dentre os quais Lerner, Requião, Pessuti… Raiva de todos eles? Incluindo Requião e Pessuti que reconheceram a injustiça da primeira demissão e anistiariam Celso Nascimento?
    Este comentário não se enconde por detrás de codinomes. É assinado pelo próprio jornalista, Celso Nascimento.

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