9:52Do shopping ao motel

por Bernardo Mello Franco

Escárnio. Abuso. Estupro. Afronta. Tragédia. Vergonha. Essas foram algumas das palavras ouvidas nesta quinta no plenário do Senado. O tema dos discursos era o chamado shopping dos deputados, projeto de Eduardo Cunha para construir três edifícios com gabinetes, restaurantes e lojas na Câmara.

O ímpeto empreendedor do peemedebista forjou uma aliança incomum no Senado. Adversários políticos se uniram contra a inclusão do artigo que abriu caminho ao “parlashopping” em uma medida provisória sobre a tributação de importados.

“É um estupro que se coloca, um escárnio. É um deboche”, protestou Cristovam Buarque (PDT-DF). “É um desmantelamento completo, um insulto”, emendou Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). “É uma verdadeira tragédia legislativa”, disse Antonio Carlos Valadares (PSB-SE). “É uma bomba, fonte de escândalos futuros garantidos”, avisou José Serra (PSDB-SP).

“Aquela Câmara dos Deputados, que já é de muito tempo um balcão de negócios pela prática do governo do PT, vai se transformar agora num mercado persa”, sintetizou Cássio Cunha Lima (PSDB-PB).

Outros senadores atacaram a profusão dos “jabutis”, artigos incluídos em MPs sobre outros temas. A do “parlashopping” reuniu mais 16, distribuindo incentivos a produtores de leite, igrejas, fábricas de bebidas. A palavra “negociata” foi pronunciada seis vezes antes do meio-dia.

“Daqui a pouco, nós vamos ter que fazer uma CPI sobre tramitação de medida provisória”, disse Jorge Viana (PT-AC). “Há anos, estamos vendo acontecer algo, negociatas, um balcão de negócios, em que parlamentares fecham acordos para pagar dívida de campanha, para financiar novas campanhas, para enriquecer.”

Diante da ousadia de Cunha, até Jader Barbalho (PMDB-PA) se sentiu autorizado a protestar. “Só está faltando mesmo, me desculpem, proporem aqui no Congresso a construção de um motel”, disse. Do jeito que a coisa vai, é melhor não duvidar.

*Publicado na Folha de S.Paulo

Uma ideia sobre “Do shopping ao motel

  1. cético

    O maior crime do Brasil Oficial é “atentar contra a hipocrisia”. Não que eu seja favorável ao “parlashopping”, muito pelo contrário, mas é engraçado saber que negócios clandestinos são tolerados no congresso, desde o tempo do império, enquanto que a possibilidade da instalação de um comércio formal é tida como um escárnio por parlamentares de todas as cores.
    O irônico quanto aos negócios já institucionalizados é que ninguém é punido por praticá-los, mas será escrachado se os admitir. Irá direto para o conselho de ética, se for deputado ou senador, e, se não for, será preso imediatamente (como aconteceu em uma CPI, há alguns anos atrás, quando alguém teve a ousadia de dizer o óbvio ululante “…a gente aprende a mentir rápido aqui”).

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