17:54Pinóquio no psiquiatra

Do blog Cabeça de Pedra

A sala de espera era toda escura. Uma mesinha de centro era branca, com um rinoceronte cor de rosa em cima. Ele sentou numa poltrona que imitava um ovo aberto; sentou e esperou, esperou. O psiquiatra demorou para abrir a porta do consultório. Antes o paciente foi até uma das cortinas, abriu-a e olhou para o céu, as luzes – e para baixo. Então encostou a cabeça no metal da janela. Gelou. Quis tirar a testa dali, mas não conseguiu. Ficou grudado com os olhos fixos num poste cuja iluminação ressaltava as pedras em preto e branco da calçada em frente a um prédio. Foi quando o carro parou e uma mulher desceu. Estava vestida de preto e usava chapéu. Elegante. Repentinamente ela se virou e olhou para cima, na direção dele e sua testa grudada na janela. Ela sorriu e dali do 12º andar ele jura ter visto o rosto de Marlene Dietrich no filme “O Expresso de Xangai”. Houve acenos de ambas as partes. O psiquiatra abriu a porta e o chamou. A testa desgrudou e ele entrou. No consultório olhou, como sempre, a figura de um pinóquio que ali havia pendurado. Depois, sentou e começou a falar. Não sabia se estava contando verdade ou mentira. Esse era o motivo da constante presença há mais de uma década.

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