6:59Um país e suas portas escondidas

Por Ivan Schmidt 

Há espaço e disposição para mais algumas digressões sobre o livro recém-lançado pela Amarilys – Dicionário dos apaixonados pelo Brasil – do jornalista francês Gilles Lapouge, correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Paris, de onde remete seus artigos com alguma alternância, a meu ver e com toda a compreensão dos leitores contumazes (como esse escriba), em face de seus venerandos 92 anos.

Escrevi na semana passada que o livro é de leitura obrigatória para quem deseja efetivamente compreender melhor o Brasil, e seu significante como retrato sem retoques de uma época (a segunda metade do século passado), embora com enfoques distintos, no meu parco entendimento, tem a mesma relevância literária e documental de Casa Grande e Senzala (Gilberto Freire), Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda) e O povo brasileiro (Darci Ribeiro).

Lapouge começou a trabalhar no Estadão no início dos anos 50 do século passado, tendo sido recebido no Rio de Janeiro pelo próprio diretor do jornal, Júlio de Mesquita Filho, que o instalou por uns dias no Copacabana Palace. Como se percebe aqueles tempos eram bem diferentes.

O jornal precisava de alguém para escrever sobre economia e foi buscar um francês que conhecia poucas palavras do idioma de Camões, mas aceitou de bom grado a incumbência. Isso quer dizer que na época não havia nenhum jornalista brasileiro em condições de assinar uma coluna de economia, atualmente uma especialidade na qual o Brasil tem pencas de respeitados analistas.

Sorte do jornalista, do jornal e dos leitores e, eu acrescentaria do próprio país, que ganhou um admirador diligente e perspicaz, sentimentos imortalizados nas muitíssimas páginas que viria a redigir depois de extensas viagens pelo interior do Brasil tanto em missões profissionais, quanto pelo prazer de conhecer novas paragens.

Lapouge tornou-se, assim, um sistemático observador do cenário brasileiro, não se contentando apenas com a pesquisa realizada na literatura tradicional de viajantes célebres, mas ao preferir ver com os próprios olhos as regiões mais afastadas do território, os costumes e a cultura, as pessoas, os cheiros, as comidas, a religião, as crendices, as vestes típicas e até mesmo as relações amorosas.

Essa extensa caderneta de campo já havia rendido o livro Equinociais, viagens pelo Brasil dos confins (Editora Pontes, Campinas, SP, 1994), traduzido pela excelente Rosa Freire d’Aguiar, no qual Lapouge relatou com o faro de repórter experimentado as histórias que recolheu sobre homens, lugares e coisas das regiões Norte e Nordeste.

Homem de diálogo fácil, imensa curiosidade e apurado senso da narração, Gilles teve a oportunidade de acompanhar a carreira, conviver, entrevistar e, em alguns casos, privar da amizade pessoal de personalidades de altíssimo padrão de inteligência na Europa e no Brasil. Possuir um caderninho de fontes com nomes do prestígio de Fernand Braudel, Claude Lévi-Strauss, Pierre Verger, Roger Bastide, Blaise Cendras, Albert Camus e tantos outros é uma façanha de que podem se orgulhar uns poucos cronistas de seu tempo.

Assim ele relatou que “por causa do Brasil, tive o privilégio de encontrar Lévi-Strauss algumas vezes. A última foi em 2004”, escreveu. “Fui vê-lo em sua residência na Rue des Marroniers, perto do Trocadero, a dois passos do Museu do Homem do qual ele foi vice-presidente quando voltou do Brasil, em 1948”. Ninguém tratava Lévi-Strauss por “você”, lembrou ao descrever a polidez refinada do interlocutor como “uma parede de vidro através da qual eu podia ver esse homem como se vê uma constelação em uma luneta ou uma bactéria sob uma lâmina de microscópio. Eu buscava vagamente, como em um museu, uma etiqueta identificando o objeto: ‘Maior antropólogo francês do século XX’”.

Outro exemplo é o de Pierre Verger que morava em Salvador e morreu em 1996, com 94 anos: “Eu o conheci na década de 1970. Costumávamos passear juntos. A cidade era bonita, com seus dois níveis, um no porto e o outro no céu, com poeiras, verdes acinzentados, azuis e bronzes, salitres e trilhas de ferrugem, dourados negros, como se ela tivesse acabado de sair do mar. Não conseguíamos andar rápido. Não dávamos três passos sem ser abordados por um garoto, uma garota, uma vendedora de peixe, um pescador, uma puta ou um desocupado”.

Depois da guerra o parisiense Verger veio para o Brasil percorrendo a rota que os escravos fizeram “dois ou três séculos antes, entre o Benin, Angola e Salvador, o grande porto brasileiro no qual carregamentos de homens e mulheres eram vendidos pelos negreiros aos senhores de engenho”. Gilles conta que “iniciado nas religiões africanas” o amigo se torna babalaô e muda o nome para Pierre Fatumbi: “Em Salvador, é protetor de um terreiro chamado Opó Afonjá, um lugar de culto onde os orixás, os espíritos da África, vêm cavalgar as filhas de santo cujos longos vestidos brancos recebem o sangue dos pombos”.

Foi Fatumbi quem “me abriu as portas de Salvador” confessou Gilles, “sobretudo as portas escondidas” que revelaram “a efervescência dos deuses vindos da África com os batalhões de escravos. Conduziu-me a um reino de ilusão”.

“Na última vez que o vi, alguns anos antes de sua morte, ele me falou longamente sobre ervas sagradas. Sua ciência era infinita. Depois me mostrou uma vasta coleção de gravuras gregas. Ele pensava que certas posturas ou certos gestos dos dançarinos negros faziam eco às cerimônias órficas dos gregos”.

O dicionário de Lapouge consagra um de seus verbetes mais saborosos a Jorge Amado, a quem o francês descobriu no decorrer duma viagem ao interior do Brasil. “Estava almoçando num vilarejo da Bahia a vinte quilômetros de Salvador. Eu lia o cardápio e não sabia o que escolher. Na parede havia um pequeno cartaz: ‘Jorge Amado almoçou nesta pousada em 1937. Pediu camarões. E os achou muito bons’. Pedi camarões. E eles estavam muito bons. Concluí assim que esse Jorge Amado era um bom escritor. No dia seguinte, comprei um de seus primeiros romances, Jubiabá. Tão bom quanto um camarão”.

O romance, segundo Gilles, marca o nascimento de um grande escritor: “Na França, André Malraux, na época um colaborador da editora Gallimard, ficou interessado. A tradução francesa surge às vésperas da guerra. O livro tem tudo para passar despercebido. Seu autor é desconhecido e, além do mais, para os franceses, o Brasil sabe apenas fazer carnaval e borboletas”.

Em Argel, um jovem jornalista, Albert Camus, descobre Jorge Amado em 1939 e logo escreve no Algier républicain: “Um livro magnífico e atordoante. Se for verdade que o romance é principalmente ação, este é um modelo do gênero”.

A partir de 1948, com a mulher Zélia, Jorge faz longas estadias na França: “Amado é a coqueluche dos escritores e dos artistas comunistas, Pablo Picasso, Paul Eluard, Louis Aragon, Georges Sadoul. Os Joliot-Curie são seus amigos. Mas Jorge e a esplêndida Zélia também circulam pelos porões da Rive Gauche, admiram Miles Davies, Duke Ellington, Louis Armstrong”, acrescentou Gilles.

A partir de 1975, Gilles e Amado tornaram-se amigos e tiveram muitos encontros, o primeiro deles na famosa casa do escritor em Salvador: “Jorge me recebeu trajando um short muito comprido decorado com flores extremamente vistosas. A sua barriga era enorme”. A produção de romances não cessou e “as obras-primas se sucedem: Gabriela, cravo e canela, A morte e a morte de Quincas Berro D’Água, Os velhos marinheiros, Os pastores da noite, Dona Flor e seus dois maridos, Tereza Batista cansada de guerra, Farda, fardão e camisola de dormir”.

Esses livros foram publicados em cinco continentes, lembra Gilles, e Jorge se orgulhava disso, especialmente “quando traduziam uma de suas narrativas em uma língua incompreensível. Ele me mostrava exemplares em coreano, albanês, turcomano, persa, mongol. E brincava: ‘Olhe isso, é um dos meus antigos romances, Capitães de areia, é a história de um moleque da Bahia. Não sei se vale a pena em português, mas em chinês ele tem uma bela cara… As aventuras de Dona Flor em alfabeto cirílico parecem muito boas, também’”. Grande Jorge…

Para finalizar, procurei em meio a tantas outras uma definição que tivesse o gosto do “crème de la crème” das impressões plasmadas no espírito desse pensador iluminista sobre o Brasil e sua gente, 60 anos depois de ter pisado pela primeira vez o nosso chão: “Para disfarçar e deixar claro que sua gentileza não é efeito de um código, de uma lei, de um catecismo ou de uma filosofia, o brasileiro às vezes finge ser mal-educado. Ele grita, empurra, não segura a porta, cospe, urina na rua, fala palavrões, ignora e discute com as pessoas. Não devemos nos chocar com esses excessos. É uma farsa e serve para mostrar que é um homem espontâneo. O brasileiro é verdadeiro”.

 

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