9:10Direita e esquerda

… Hoje tudo é confuso e complicado. “Direita” e “esquerda” perderam o seu vigor e a sua graça. Estão mais para sinal de trânsito do que ferramentas na batalha para construir uma sociedade civilizada, onde o lugar de cada cidadão não dependerá do acidente do seu nascimento e a transmissão geracional da riqueza acumulada, pelo mérito ou pelo acaso, será mitigada. (Antonio Delfim Neto)

A íntegra do artigo:

Há algum tempo tudo era simples e claro. De “direita” era o sujeito antiquado, pouco imaginativo, resistente ao “progresso”, defensor da “ordem”, que acreditava na produtividade do trabalho e desconfiado da democracia. Estava preocupado com a sua “liberdade”, que, a história mostra, costuma ser morta pelo excesso de “igualdade”. Acreditava em Deus e que, no mundo que Ele criou, 2+2=4, o que ele comprovava, empírica e diariamente.

De “esquerda” era o sujeito “progressista”, que defendia a “igualdade” da qual emergiria, naturalmente, a “liberdade”. Supunha-se portador do futuro e, portanto, saber para onde iria o mundo. Os intelectuais do século 20, inclusive no Brasil, lhe haviam ensinado a “verdade”: o mundo caminha para o socialismo e ele está sendo construído por Lenin e Stalin, no paraíso soviético…

O fantástico paradoxo é que os mesmos intelectuais, na mais plena ignorância das limitações sociais e físicas que sofriam a construção daquele paraíso, reforçavam a certeza que Deus já tinha morrido e, consequentemente, a restrição 2+2=4 era apenas mais uma imposição autoritária da injustiça social construída pelos interesses do miserável “capitalismo”.

A mensagem generosa e libertária da “esquerda” (o “eu posso” dos 20 anos sem ter sofrido a vida), aliada ao sentimento natural de solidariedade do ser humano, era um atrativo irresistível. Ainda mais quando apoiada na lógica implacável de Marx sobre as injustiças ínsitas na organização capitalista, principalmente na sua vulgata para consumo nas batalhas juvenis dos diretórios acadêmicos.

Hoje tudo é confuso e complicado. “Direita” e “esquerda” perderam o seu vigor e a sua graça. Estão mais para sinal de trânsito do que ferramentas na batalha para construir uma sociedade civilizada, onde o lugar de cada cidadão não dependerá do acidente do seu nascimento e a transmissão geracional da riqueza acumulada, pelo mérito ou pelo acaso, será mitigada.

Um dos mais respeitados e insuspeitos intelectuais de esquerda, o economista e professor Robert Heilbroner reconheceu que “há menos de 75 anos do começo da competição entre capitalismo e socialismo (o ‘real’, digo eu), ela terminou: o capitalismo venceu… Tivemos a mais clara prova que o capitalismo organiza os problemas materiais da humanidade mais satisfatoriamente do que o socialismo” (“New Perspectives Quarterly”, Fall, 1989).

Perdemos a clareza, mas aprendemos que quem civiliza o capitalismo é o sufrágio universal que os trabalhadores inventaram no século 19 para defenderem-se do poder do capital que se exprime nos mercados.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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