6:55A temporada no inferno

por Ivan Schmidt

A colomba pascal enviada ao Palácio do Planalto em fina embalagem para presente, ao ser aberta revelou uma surpresa intragável. A última pesquisa feita pelo Ibope para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada na quarta-feira (1º), mostrou que 64% da população brasileira consideram ruim ou péssima a gestão de Dilma Rousseff, e 78% reprovam seu estilo de governar.

O dia escolhido para soltar o rojão foi justamente o da mentira, mas os índices aferidos ao final da tabulação dos dados levantados pelos pesquisadores, além de serem autênticos e fieis ao pensamento coletivo nesse momento, mais uma vez fizeram estremecer os calcanhares do monstrengo brasiliense, que o povo já tem enorme dificuldade para continuar chamando pelo nome de governo.

A taxa de reprovação do governo é a mais elevada dos últimos 26 anos, igualando-se ao pior momento vivido pelo ex-presidente José Sarney (julho de 1989), o que não é brincadeira.  A situação se agrava ao se levar em conta que a manifestação espontânea da população (a pesquisa foi feita nos dias 21 a 25 de março), foi registrada apenas três meses depois do início do segundo mandato presidencial.

Outro recorde batido por Dilma Rousseff é a constatação de que nenhum presidente, ao final do primeiro trimestre no exercício do cargo, fugazes 90 dias, viu sua aceitação popular descambar a níveis tão desmoralizantes. Com a palavra os historiadores da política nacional, mas esse parece um fato inédito no período republicano desde que as pesquisas de opinião pública começaram a ser feitas no Brasil.

Na verdade, a pequena diferença de votos que consolidou a vitória de Dilma sobre Aécio Neves, no segundo turno, já permitia estimar um desgaste que a princípio não se julgava tão alarmante, na maquinaria política montada pelo PT para assegurar o quarto mandato presidencial consecutivo.

A corrosão da popularidade da presidente Dilma, que resulta de sua idiossincrasia e dificuldade congênita para a construção da empatia necessária com os políticos da base e, pior, com a população, chegou nesse começo de abril a um ponto extremamente perigoso (alguns acham que o caminho não tem volta), ensejando por via direta o fortalecimento das manifestações de protesto contra o governo, e o inquietante clamor pelo impeachment.

A próxima manifestação está sendo convocada para o dia 12 de abril, segundo domingo do mês, e as entidades organizadoras supõem que o número de pessoas nas ruas e praças será muitas vezes superior ao de 15 de março.

Mas a temporada no inferno que subitamente a extravagante natureza da política (com p minúsculo) reservou à presidente da República, apesar das múltiplas razões de ordem pessoal, pode e deve ser debitada aos políticos do PT e dos demais partidos da base envolvidos nas patranhas do mensalão e do petrolão, esquemas criminosos de alto coturno para a apropriação de recursos públicos.

No caso do petrolão, o desvio de dinheiro somente foi possível graças aos bons serviços, à desenvoltura e habilidade de funcionários bem reputados na estrutura de pessoal da Petrobras, que passaram a interagir com empresários, lobistas e operadores financeiros. E, grande parte desse dinheiro foi parar nos cofres do PT e do PP, embora seus dirigentes jurem que chegaram lá por meio de doações feitas de acordo com a legislação eleitoral.

Isso todos sabem. O nó que a Justiça e a Polícia Federal trataram de desatar de forma competente e republicana é que a grana surrupiada se alojou primeiramente em bancos estrangeiros, para depois voltar ao Brasil sob o rótulo de doação legal. Um dos ex-diretores da Petrobras, Paulo Roberto Costa, num dos muitos depoimentos à Justiça Federal, simplesmente afirmou que “esse negócio de doação legal é balela”. Tudo tem um custo pesado a ser cobrado no futuro por meio das tais licitações para a construção de obras faraônicas.

Mesmo que tarde, como diz o lema da inconfidência gravado na bandeira de Minas Gerais, a revista semanal CartaCapital (1º de abril) – e não é mentira – em ampla reportagem recheada de depoimentos de pensadores independentes, cumpriu a dolorosa missão de reconhecer o estado clamoroso a que chegou o PT e, por tabela, a presidente Dilma Rousseff.

Curiosamente um dos entrevistados, o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor da USP e hoje ministro da Educação (a entrevista decerto foi feita antes do convite de Dilma), afirmou que “o PT não apenas foge de qualquer discussão sobre o mensalão e a corrupção na Petrobras, como desistiu de apresentar seu currículo ético. A fome e a miséria também são chagas éticas em nosso País, e a oposição costuma ser muito insensível a elas. Mas como o PT pode apontar os erros dos adversários sem reconhecer os seus próprios?”.

O editor-chefe da revista, Mino Carta, no chamado artigo de fundo (assim era denominada a peça mais importante da edição), ao fazer o relato ufanista do surgimento do PT, que saiu da cabeça de Luiz Inácio, lamenta as atitudes tomadas pelos “imponentes José Dirceu e Antonio Palocci, ou pelo nem tão imponente Luiz Eduardo Greenhalgh. E a prosseguir pelos Delúbios ou pelos Vaccari, pelos Duque e pelos aloprados”.

E vai adiante para descrever o “lamentável enredo de um partido que por 22 anos viveu dignamente, como exemplo único na história política brasileira e, alcançado o poder, porta-se como todos os demais, clubes voltados aos interesses pessoais de seus líderes. Quem sonhou com um partido revolucionário e anticapitalista apostou errado, está claro”.

Lulista fiel, Mino Carta avaliza os governos realizados por seu “amigo de 38 anos”, não poupando o exagero de qualificá-los “como os melhores de todos os tempos”.  Sua argumentação é um primor do contorcionismo mental digno do velho farisaísmo do Templo, especialistas em dar uma no cravo e outra na ferradura: “Mesmo aos primeiros tempos da crise, falar em marola não foi descabido. A rebordosa veio depois e pegou Dilma, que não sabe surfar”.

O jurista Fábio Konder Comparato escreveu que Lula foi “brilhante”, ao passo que Dilma “por patente inabilidade, revelou-se incapaz de compreender e realizar, numa fase de prolongado desfalecimento da economia, no Brasil e no mundo”. A conclusão é óbvia: “Ela entrou em choque com o Congresso Nacional, desconsiderou o Supremo Tribunal Federal (até hoje não nomeou o sucessor do ministro Joaquim Barbosa) e acabou por se indispor com os empresários, a baixa classe média e até a classe pobre, ao implementar a política fiscal”.

Comparato reservou a cereja para o bolo dedicado ao PT, ao afiançar que o partido “revelou-se uma triste nulidade política, decepcionando todos os que, como eu, se entusiasmaram com a sua fundação, em 1980. A nulidade é bem demonstrada pela leitura de seu atual estatuto, aprovado em 2013. Nele, por incrível que pareça, não há uma só palavra, ainda que de simples retórica, sobre os objetivos do partido. Todo o seu conteúdo diz respeito à organização interna, à qual, aliás, pode ser adotada por qualquer outra legenda”.

A meu ver é leitura fatigante para um final de semana dedicado à Páscoa, que nos traz à mente a jubilosa notícia da ressurreição do Cristo. Peço desculpas, mas não abro mão de pensar que ao PT resta apenas fechar a tampa do caixão…

Uma ideia sobre “A temporada no inferno

  1. CURITIBANO ROXO

    “Ao PT resta apenas fechar a tampa do caixão”… e que vá de retro pro inferno………………..amém !

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