8:37Do palco para a alma

por Ruy Castro

Há semanas, defendi aqui a ideia de que, como alternativa aos atuais musicais biográficos, com seu repertório tipo parada de sucessos, o teatro brasileiro deveria investir em peças com música original, adequada à trama. Um amigo objetou que ninguém sairia de casa para ver um espetáculo com músicas que não conhecia. Perguntei então por que a Broadway insiste nesse tipo de teatro desde 1900 –e o que teria sido da música americana sem ele?

Na verdade, o Brasil já praticou um teatro musical em que sambas, canções e marchinhas saíam diretamente do forno para os palcos da praça Tiradentes –onde se consagravam e só depois se popularizavam nos discos dos grandes cantores. Era o teatro de revista. Dele resultaram centenas de clássicos da música brasileira. Eis alguns:

“Jura” (1928), de Sinhô; “Ai, Ioiô” (1928), de Henrique Vogeler e Luiz Peixoto; “De Papo pro Ar” (1930), de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano; “Canção pra Inglês Ver” (1931) e “Teu Cabelo Não Nega” (1932), de Lamartine Babo, com ou sem parceiros; “Boneca de Piche” (1930), “Faceira” (1931), “No Rancho Fundo” (1931), “No Tabuleiro da Baiana” (1936), “Aquarela do Brasil” (1939) e “Os Quindins de Iaiá (1940), de Ary Barroso, idem;

“Com que Roupa” (1931), “Eu Vou pra Vila” (1931) e “Mulato Bamba” (1932), de Noel Rosa; “Yes, Nós Temos Bananas” (1938), “Touradas em Madri” (1938) e “Chiquita Bacana” (1949), de João de Barro e Alberto Ribeiro; “Mamãe, Eu Quero” (1937), de Jararaca e Vicente Paiva; “Brasil Pandeiro” (1941), de Assis Valente; “Nega Maluca” (1950), de Fernando Lobo e Evaldo Ruy; “Tomara que Chova” (1950), de Romeu Gentil e Paquito; “Saçaricando” (1952), de Luiz Antonio.

Ao entrar no teatro, ninguém conhecia essas músicas. Mas elas se incorporaram à alma brasileira.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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