0:39O naufrágio da dignidade

por Ivan Schmidt

Há exatos 70 anos os primeiros quatro soldados russos chegavam ao campo de concentração de Auschwitz, no interior da Polônia, para iniciar a libertação dos prisioneiros judeus que haviam conseguido sobreviver. Chefes de Estado e sobreviventes se encontraram nesta terça-feira (27) no fatídico local, a fim de lembrar à humanidade o horror e a crueldade inéditos que marcaram de forma indelével os absurdamente chamados tempos modernos.

O sociólogo italiano Giorgio Agamben adicionou à sua vasta obra O que resta de Auschwitz (Boitempo, SP, 2013), cuja leitura é sobremaneira torturante como bem ilustra a autora do prólogo, Jeanne Marie Gagnebin: “Insisto nas dificuldades do título deste livro porque elas ajudam a entender as dificuldades de sua leitura. À primeira vista, parece que temos em mãos mais um livro sobre Auschwitz, não um livro histórico – desde a primeira página, o autor nos adverte que a questão das ‘circunstâncias históricas’ já foi devidamente esclarecida pelos historiadores da Shoah – mas um livro sobre as dificuldades do testemunho”.

O próprio autor diz que o livro não é uma pesquisa histórica, mas sim uma pesquisa sobre ética e testemunho ou ainda mais “uma tentativa de fincar cá e lá algumas estacas que eventualmente poderão orientar os futuros cartógrafos da nova terra ética”, cujo primeiro e maior agrimensor, diz Agamben, continua sendo Primo Levi.

No jargão usado no Lager, como ficou conhecido o ultrajante sistema de campos de concentração do Reich, o prisioneiro típico era identificado como der Muselmann, o muçulmano. Segundo J. Améry, citado por Agamben, este era o preso “que havia abandonado qualquer esperança e que havia sido abandonado pelos companheiros, já não dispunha de um âmbito de conhecimento capaz de lhe permitir discernimento entre bem e mal, entre nobreza e vileza, entre espiritualidade e não espiritualidade”.

O muçulmano do Lager, prossegue Améry, era simplesmente “um cadáver ambulante, um feixe de funções físicas já em agonia. Devemos, por mais dolorosa que nos pareça a escolha, excluí-lo da nossa consideração”.

Sobre a origem da aplicação do termo às vítimas do Holocausto, diz Agamben que “a explicação mais provável remete ao significado literal do termo árabe muslim, que significa quem se submete incondicionalmente à vontade de Deus, e está na origem das lendas sobre o pretenso fatalismo islâmico, bastante difundidas nas culturas europeias desde a Idade Média”.

O pediatra Bruno Bettelheim, que também experimentou o horror em Dachau e Buckenwald até ser libertado graças à intervenção de Eleanora Roosevelt, “tinha visto os muçulmanos com os próprios olhos, e logo se deu conta das inauditas transformações que a situação extrema produzia na personalidade dos internados”. Assim, “o muçulmano converteu-se para ele em paradigma, sobre o qual, mais tarde, tendo emigrado para os Estados Unidos, fundou os seus estudos a respeito da esquizofrenia infantil e a Orthogenic School por ele inaugurada em Chicago para a cura de crianças autistas, uma espécie de contra-campo, em que se ensinava aos muçulmanos a voltarem a ser humanos”.

O sociólogo italiano lembra que Primo Levi teve a oportunidade de descobrir em Auschwitz uma nova matéria ética que realmente não consentia juízos sumários nem distinções e, agradando-lhe ou não, a falta de dignidade lhe devia interessar tanto quanto a dignidade. A explicação é objetiva: “A ética em Auschwitz, aliás, começava – também isso estava ironicamente contido no título retórico É isto um homem? – precisamente no ponto em que o muçulmano, ‘a testemunha integral’, havia eliminado para sempre qualquer possibilidade de distinguir entre o homem e o não-homem”.

Na interpretação de Agamben o Reich gerou com a instalação do Lager uma situação-limite, tendo em vista que os nazistas tinham intuído muito bem o poder secreto inerente a situações extremas, assim como “nunca revogaram o estado de exceção que haviam decretado em fevereiro de 1933, no dia seguinte à tomada do poder, de forma que o Terceiro Reich pôde ser definido justamente como uma noite de São Bartolomeu que durou 12 anos”.

Citando as palavras de um dos historiadores da Shoah (Langbein), Agamben lembra que o estágio do muçulmano era o terror dos internados, pois aquele era candidato certo para as câmaras de gás: “O limite extremo desse não-lugar chama-se, no jargão do campo, Selektion, ou seja, o ato de selecionar os destinados à câmara de gás. Por isso, a preocupação mais insistente do deportado consistia em esconder as suas enfermidades e as suas prostrações, em ocultar incessantemente o muçulmano que ele sentia aflorar em si mesmo por todos os lados. Aliás, toda a população do campo não é senão um imenso turbilhão que gira obsessivamente em torno de um centro sem rosto”.

Para Bettelheim, o muçulmano é alguém que abriu mão da margem irrenunciável de liberdade e, em última análise, “extraviou qualquer traço de vida afetiva e de humanidade”.

Uma das conclusões mais evidentes do livro de Giorgio Agamben é que “talvez nunca, antes de Auschwitz, tenham sido descritos com tanta eficácia o naufrágio da dignidade perante uma figura extrema do humano e a inutilidade do respeito de si perante a absoluta degradação”.

Sobrevivente do Lager, autor de vários livros sobre a experiência vivida no campo de extermínio, Primo Levi recebeu de Agamben a inegável primazia de ter sido o descobridor da fórmula mais justa e, ao mesmo tempo, mais terrível para definir a situação extrema dos selados para as câmaras: “Hesita-se em chamar de morte a sua morte”.

Setenta anos depois homens livres de todas as nacionalidades são chamados a prestar um culto silencioso e reverente às vítimas do racismo, da ignorância e da brutalidade. Uma barbárie que jamais será esquecida.

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