7:58O guardião e protetor do samba

por Célio Heitor Guimarães

Noite dessas, o jornalista Roberto D’Avila entrevistava para o canal Globo News, o compositor e cantor Paulinho da Viola, uma das glórias da música popular brasileira. Lá pelas tantas, Roberto se referiu à composição de Paulinho “Foi um rio que passou em minha vida”, obra-prima do sambista nos anos 70.

Paulinho, então, indagou a Roberto:

-– Sabe quem foi o responsável pelo sucesso dessa música?

E ante a dúvida do apresentador, respondeu:

-– O Adelzon Alves. Ele fazia questão de tocá-la todas as noites no programa que tinha na Rádio Globo.

Senti-me feliz não apenas pela manifestação de reconhecimento e carinho do grande Paulinho da Viola ao nosso Adelzon Alves, mas por haver me lembrado com doce saudade de um antigo companheiro de rádio – o menino que saiu de Cornélio Procópio, no Norte Velho do Paraná, para conquistar o Brasil.

Conheci Adelzon no início da década de 60, quando trabalhamos juntos na Rádio Cruzeiro do Sul, de Samuel Silveira. E ali começou a minha admiração e estima por aquele jovem idealista, que fazia então as vezes de noticiarista, mas tinha os olhos e coração pregados na cultura popular brasileira.

Em Curitiba, Adelzon atuou ainda na velha Guairacá, “A Voz Nativa da Terra dos Pinheirais”. Mas em 1964 arrumou a mala e embarcou para o Rio de Janeiro. Não demorou a encontrar trabalho na Rádio Globo carioca, como locutor noticiarista de “O Seu Redator-Chefe” e de “O Globo no Ar”, dois campeões de audiência. Fazia também a locução comercial do programa do Chacrinha. Era época da bossa-nova. Mas Adelson admirava mesmo o samba de raiz, a música de Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara.

Fora influenciado desde pequeno pelo pai, Antônio Damaceno Alves, grande incentivador das bandas musicais no interior paranaense. Outra influência que o menino Adelzon recebeu foi do tio, irmão de seu pai, um festeiro militante na Folia de Reis, no distrito de Congonhas, município de Cornélio Procópio.

Em 1966, Adelzon passou a ter o seu próprio programa na Rádio Globo, o “Amigo da Madrugada”. Era tudo o que ele sonhara. Fez contato com Cartola, Candeia, Zagaia, Nelson Cavaquinho, Geraldo Babão, Ivone de Lara, Djalma Sabiá, Paulinho da Viola e Martinho da Vila, entre outros grandes nomes da música popular e abriu espaço na emissora para os compositores do morro.

“Amigos da Madrugada” foi um marco no rádio carioca e brasileiro. Por ali passou o melhor que existia na MPB, conduzido pelo talento e pela dedicação do paranaense Adelzon Alves. Lançou nomes como João Nogueira, Roberto Ribeiro, Wilson Moreira e a própria Dona Ivone Lara. Deu oportunidade a compositores sem espaço nas gravadoras e nas demais emissora de rádio. Foi assim com Alcione, com Bezerra da Silva, com Jorge Aragão, com Zeca Pagodinho, com Jovelina Pérola Negra e com tantos outros nomes.

Adelzon reaqueceu também a música regional nordestina, com o renascimento de Jackson do Pandeiro, que permaneceu durante oito anos no programa.

Confessa que gosta de qualquer tipo de música, seja clássica ou popular. Aliás, para ele só há dois tipos de música: a boa e a ruim.

Mas Adelzon não se limitava a transmitir a boa música popular brasileira e os velhos e novos talentos que a valorizavam. Tinha sempre um bom papo com a melhor companhia, contava histórias e animava a madrugada da Cidade Maravilhosa. Havia quem passasse a noite em claro só para ouvi-lo.

O cumprimento inicial de Adelzon aos ouvintes ficou na história: “Benção pra quem é de benção; boa noite pra quem é de boa noite; bom dia pra quem é de bom dia…”. Grande Adelzon!

Esse sucesso todo aproximou Adelzon Alves de Clara Nunes, para quem produziu três elepês. Essa aproximação criou laços que ultrapassaram o terreno profissional. Tornaram-se namorados e juntos viveram um grande amor, que se não foi eterno conferiu aos dois momentos de enorme felicidade.

A intenção de Adelzon – contaria depois – era desenvolver uma carreira para Clara Nunes com base nas tradições afro-brasileiras do samba. Infelizmente, ela faleceria prematuramente em abril de 1983, aos 40 anos de idade.

O programa “Amigos da Madrugada” durou até 1992, da meia-noite às quatro da madrugada. Logo em seguida, Adelzon se transferiria para Rádio MEC, onde apresentou “Fole e Viola”, das cinco às seis horas da manhã, e cuja linha mestra foi a divulgação da música regional autêntica, do norte ao sul do Brasil.
Hoje, o “Amigo da Madrugada” está na Rádio Nacional do Rio de Janeiro AM, 1.130 KHz, defendendo, com o mesmo ardor e o mesmo amor, a música popular brasileira e fazendo o mesmo sucesso dos tempos da Globo.

 

Adelzon mora em Pedra de Guaratiba, onde costuma passear o seu jeitão simples e descomplicado, ao lado dos cachorros que encontra na rua. No dia 05 de setembro, completou 74 anos. Mas continua com alma de um menino.

 

 

 

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