10:01Do cinza ao laranja

Carolina_Vigna_VB_08_dezembro_14

Ilustração de Carolina Vigna

por Rogério Pereira

Ao Marcelo Moutinho

O laranja é tricolor. Descemos longe do Maracanã. Ele — a mão diminuta grudada a minha — espantava-se com a própria felicidade. Estávamos sós e distante de casa. Dois homens magros a caminho de um estádio numa tarde de domingo. Quando lhe propus trocar a festa de cinco anos — com brigadeiros assimétricos, refrigerantes melosos e crianças esperneando — por um jogo no Maracanã, ele arregalou olhos e boca e, à sua maneira, disse-me um sim fantasiado de êxtase.

O cinza é tricolor. Fui ao estádio pela primeira vez aos dez anos, agarrado à mão de um tio, cuja vida arrastou para longe. Eu e um primo. O primo foi morto pela polícia há algum tempo. Vários tiros banharam seu corpo de um vermelho intenso. Naquela tarde de domingo, aos dez anos de idade, escolhi um time de futebol que me acompanharia vida afora. O Atlético Paranaense. Havia em campo dois jogadores negros e longilíneos — A. e W. Gazelas desengonçadas num gramado verde. Eram geniais. Logo após aquele inesquecível campeonato, foram embora pro Rio de Janeiro defender o Fluminense. Formaram uma dupla conhecida como Casal 20, em alusão a um seriado americano. Eu aos via na televisão preto e branco. O meu tricolor da infância era cinza. Durante um tempo torci com entusiasmo pelo Fluminense. Após títulos, grandes jogos e dezenas de gols, A. e W. tomaram caminhos distintos. O casamento acabara. Aos poucos, deixei de lado minha paixão pelo distante time cujas listras tricolores da camisa sempre me chegavam cinza. Naquele tempo, ainda não sabia que era daltônico. Um daltônico ignorante talvez sofra menos.

Recentemente, W. morreu aos 54 anos. Logo em seguida, A. morreu aos 61 anos.

No metrô, meu filho agarra-se à barra de ferro. Não consegue sentar. Serpenteia sob a terra desconhecida. A energia do corpo franzino o impulsiona para todos os lados. É um rato solto numa fábrica de queijos. Sorri por vários motivos. O primeiro passeio de metrô de sua breve vida desembocará nas redondezas do Maracanã. Conto-lhe a história do Casal 20. Ele parece entender fragmentos do tempo em que seu pai tinha apenas poucos anos a mais que ele agora — um menino louro, cabelo escorrido na testa, magro e espichado.

Às portas do Maracanã, a camisa laranja brilha na mão do camelô. Os olhos do meu filho relampejam em minha direção. Todas com o número 9 às costas. Antes mesmo de entregar o dinheiro ao vendedor, a camisa laranja cobre o peito e as costas de um menino de cinco anos. Ele a veste com pressa. A felicidade não pode esperar. É a nove, papai. É a do Fred. W. também usava a camisa nove. Era outro tempo. Quase trinta anos separam nossas ilusões tricolores.

O Fluminense massacrou o Corinthians. Fred marcou dois gols. Em todos eles, arremessei meu filho para cima. Estávamos felizes. Ele, pelo jogo, pela viagem, pelo picolé de chocolate. Eu, por descobrir que a camisa do Fluminense tem várias cores. Voltamos de metrô ao hotel. Ao nosso lado, senta-se uma senhora. Puxa conversa com o pequeno tricolor alaranjado. O Fred fez dois gols, ele conta com entusiasmo. A conversa dura algumas estações. Em Cantagalo, descemos. A pequena camisa laranja brilha na noite carioca, nas ruas de Copacabana.

Nelson Rodrigues tinha razão: “O Fluminense é o único tricolor do mundo. O resto são times de três cores”. O tricolor do Fluminense é verde, branco, encarnado, laranja e cinza.

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