9:02Um leitor grita que existe

por Alvaro Pereira Junior

Pré-história: e-mails. A última moda, os substitutos das cartas. Não existiam mensagens instantâneas, celulares eram novidade. Redes sociais? Um ponto distante no horizonte, menos que uma abstração.

Eu escrevia uma coluna no suplemento “Folhateen”, dirigido a jovens, hoje extinto. Falava basicamente de música. E causava, comprava briga —algumas justas, outras não. Estilo encrenqueiro, normal que provocasse reações na mesma medida.

Primeiro eram cartas. Muitas delas amáveis, mas outras tantas de reclamações. Guardo pilhas até hoje. Depois vieram os e-mails, e o tom geral mudou. Mais imediatos, irrefletidos. Uma carta, você desiste, acaba não mandando. E-mail é diferente: um simples “enviar” e a lança incendiária dispara rumo ao alvo.

Na caixa de entrada, em meio a tanto ruído, ele se destacava: era o leitor mais agressivo. Rancoroso, puro ressentimento. Pontificava contra tudo o que eu escrevia: as informações, as opiniões, meu uso do português. Tudo, tudo.

Meu texto saía às segundas-feiras. Mas ele mandava e-mails quase diários. Longos, alguns duas ou três vezes maiores do que a coluna que tinha provocado tanto ódio. Apesar das grosserias, escrevia bem. Gramática correta e raciocínio claro. Jornalista frustrado, talvez. Um pioneiro dessa categoria hoje tão presente na internet.

Com o tempo, passou a atacar também meu trabalho na televisão. Violento como de costume. Em sua mente obcecada, eu não era só um incompetente, mas um mal para a humanidade, uma presença pestilenta a ser extirpada da Terra. Por ele, claro, o vingador “self-righteous” da web.

A perseguição já parecia no auge, mas ficou ainda pior. Vasculhou minha vida pessoal. Descobriu meu endereço, e se vangloriava nos e-mails de sua capacidade investigativa.

Toda semana, um envelope dele chegava a minha casa. Sem carta dentro. Alguns traziam recortes de uma antiga revista de terror, a “Kripta”. Outros continham um pouco de um pó vermelho, cristalino, de cheiro acre. Nunca descobri o que era.

 

Fez mais. Abriu uma conta “fake” de e-mail em meu nome. Em mensagens falsas, supostamente enviadas por mim, ameaçou pessoas próximas. Fez intrigas, inventou histórias para amigos meus. Não foi pouco o trabalho que tive para consertar tanto dano.

Pensei em abandonar a coluna. Mas seria me render a esse Mark Chapman do Terceiro Mundo. Parei de ler seus correios eletrônicos. E os envelopes ficavam na portaria, eu mandava jogar no lixo.

Até que, um dia, o silêncio. Os e-mails acabaram. Nunca mais vieram os envelopes sem cartas. Meus amigos pararam de receber mensagens falsas em meu nome.

Não sei o que aconteceu. Pelo tom transtornado do que ele escrevia, o suicídio seria uma hipótese lógica. Mas não acredito. Simplesmente deve ter encontrado uma nova vítima, ou vítimas.

Talvez passe os dias na internet, postando comentários agressivos em textos alheios. Pode ser daqueles analistas de todo e qualquer assunto no Facebook. Talvez seja blogueiro.

Procurei por ele muitas vezes no Google e, mais recentemente, em redes sociais. O sobrenome cheio de consoantes parecia basco, incomum por aqui. Identidade falsa, provavelmente. Nunca descobri quem era de verdade.

Já sonhei que estava diante dele. No sonho, retribuo a obsessão perseguidora, e descubro seu endereço. É um prédio no litoral de São Paulo, daqueles em que cada andar tem um corredor aberto que se vê da rua. Os apartamentos um ao lado do outro, o da frente e o dos fundos um pouco maiores.

Vive sozinho em um andar baixo. O zelador não me para, vou pela escada, bato à porta. Ele abre, mas não me deixa entrar. É um sonho sem áudio, não escuto o que dizemos. O confronto dura pouco.

Volto pelo corredor de piso frio, desço as escadas. Assim que chego ao lado de fora, ele sai do apartamento e se debruça no muro que dá para a rua. Finalmente, o sonho passa a ter som. O leitor obcecado lança um grito em minha direção: “Eu… Eu existo!”.

Esta coluna foi fortemente inspirada por duas histórias perturbadoras: uma, publicada no “Guardian” (“Am I Being Catfished?”, de Kathleen Hale), e outra, na “New Yorker” (“Whipping Boy”, de Allen Kurzweil). Estas, 100% verdadeiras.

*Publicado na Folha de S.Paulo

 

 

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