10:39Conversa de loucos

 vida_breve_20141130_120

Ilustração de Theo Szczepanski

por Rogério Pereira

Saio do estádio de futebol no domingo à tarde. Pego um táxi. Carrego um livro.

— Você gosta de ler?

A pergunta me surpreende. O taxista se mostra interessado.

— Sim.

— Eu também gosto muito de ler.

— É mesmo?

— Sim. Estou lendo este.

Arranca da lateral da porta um romance policial. A capa está empenada e os cantos das páginas, tortos. O livro fora muito manuseado.

— Bacana.

— Leio sempre agora.

agora soa um tanto estranho. Como se algo estivesse fora do lugar.

— Não faz muito tempo que leio.

— …

O taxista aparenta beirar os cinquenta anos.

— Sabe como comecei a ler?

— Nem imagino.

E seguiu-se um breve relato, quase um conto.

— O meu vizinho tem um filho que é louco. Louco mesmo. Louco de ficar no hospício. Um dia, os pais trouxeram o filho para casa. Não queriam mais deixá-lo internado. Numa manhã, eu estava tirando o carro da garagem e abri o portão da rua. Aí, o louco veio na minha direção correndo. Quando chegou perto, me abraçou com muita força e não me largava. Depois de algum tempo, ele me soltou. E sabe o que aconteceu?

— Não tenho a menor ideia.

— Ele tinha um livro nas mãos. E me olhou com um olhar de louco e me disse “Você precisa ler isso aqui”. E me deu o livro. E, em seguida, saiu correndo pra casa.

— E?

— Bom, eu fiquei com medo dele. E resolvi ler o livro. Não sabia o que o louco poderia fazer comigo caso eu não lesse.

— …

— Gostei demais. Ele tinha razão.

— …

— E agora leio sempre. Já li vários livros. Gosto mesmo destes de ação, espionagem, mistério. Fico no ponto de táxi lendo.

— Então, o louco tinha razão.

— Acho que ele nem era tão louco assim.

Desço do táxi e entro no edifício no centro de Curitiba. Ali está parte da minha biblioteca: cerca de sete mil livros tomam todas as paredes do pequeno escritório. Sento na poltrona e decido não trabalhar naquele fim de tarde de domingo. Pela janela, o sol começa a se esconder por trás dos prédios. O céu ganha cores indefiníveis aos meus olhos daltônicos. Fico algum tempo admirando todos aqueles livros. Comprei muitos. Ganhei muitos. Roubei apenas um.

Ao sair, sempre giro a chave duas vezes. E antes do elevador chegar, volto à porta e me certifico de que está realmente fechada. Tenho algumas manias muito estranhas.

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