7:33O nome dela é Roseana, mas pode chamar de Sarney

por Palmério Dória

(publicado na revista Caros Amigos em 2002)

 

A HISTÓRIA SE REPETE

31 de janeiro de 2002. Numa São Luís secular e suja, onde mendigos perambulam, bairros carecem de saneamento básico, esgotos a céu aberto, ratos e urubus dividem a paisagem, uma não tão jovem governadora aparece em rede nacional de televisão, querendo ser presidente da República. Tal qual um Glauber da direita, as formas roliças de um antipático, mas competente, Nizan Guanaes conseguiram transformar em princesa cobiçada uma administradora falida. Ela exerce o seu segundo mandato no Palácio Henrique de La Rocque. Ela é a herdeira de uma oligarquia não menos torpe do que a do velho senador Vitorino Freire, mas, seguramente, muito mais corrupta e bem-sucedida. Ela é filha dileta do homem que jurou sepultar o atraso e a oligarquia há exatos 36 anos. Ela é a continuadora de um sistema político-eleitoral que humilha o seu povo com índices sociais tenebrosos. As maiores taxas de analfabetismo e de mortalidade infantil do país. As menores taxas de desenvol-vimento em todos os setores. O menor PIB do Brasil per capita, num sistema em que os amigos e correligionários não pagam o fisco estadual. Ela entregou a administração do Estado ao marido, que já foi preso por improbidade. Ela é Roseana. Roseana Sarney. Fruto do marketing, do desconhecimento e da irresponsabilidade política. Ela é um projeto muito semelhante ao de Fernando Collor de Mello. Ela é, mesmo, o Collor de saias.

O SENHOR MEU MARIDO
Tudo parecia um sonho na vida da bela Roseana. Os humoristas de O Planeta Diário, que hoje formam a Casseta & Planeta, a celebrizaram como “a estonteante Roseana Sarney”. Sua filha adotiva, Rafaela, tinha como babá não menos que um tenente do glorioso Exército brasileiro. E os deslocamentos da família eram feitos em jatinhos da FAB, ou de 1966, ou Aníbal Crosara, da goiana EMSA.

Já o maridão, o discreto, sisudo e antipatizado Jorge Murad, freqüentava com certa insistência a crônica política, que dava conta de atividades empresariais no submundo do governo Sarney. Hoje, Jorge é o homem forte do governo Roseana. Gerente de Planejamento, o equivalente a secretário, é quem manda e desmanda. Pagamentos? É com ele. Obras? Só com ele. Nomeações? Com Jorge Murad, o.k.? Ele trabalha ao lado da governadora, mas passa boa parte do tempo na avenida Colares Moreira, quadra 121, número 1, Edifício Adriano, no bairro Renascença. É lá que atende amigos empresários e administra seus negócios. No mesmo endereço está o advogado de Roseana, Vinicius de Berredo Martins. Ele também é o defensor de duas empreiteiras cujos nomes se confundem com a própria gestão da governadora: a EIT e a Planor. A EIT é a responsável por um dos maiores escândalos do governo, a “construção” de uma estrada ligando Arame a Paulo Ramos, de 127 quilômetros de extensão, ao custo de 33 milhões de dólares, entre 1995 e 1996. A Planor, que seria de propriedade de Fernando Sarney, embora registrada em nome de humildes “laranjas”, é a sócia da EIT na empreitada e com ela dividiu os lucros. O único problema é que a estrada não existe. Vou repetir: a estrada não existe. Ela jamais foi construída. Existe, sim, uma picada de terra batida, por onde desfilam, solenes, jegues e galinhas-d’angola. Os poucos automóveis que se arriscam na aventura terminam em alguma oficina mecânica, trocando a suspensão, os amortecedores ou até, quem sabe, retificando o motor que fundiu. E, como tudo no Maranhão, a oficina ou conces-sionário deverá ser de propriedade de algum membro da família Sarney.

(Em tempo: todas as ações sobre a estrada-fantasma foram arquivadas. Em todas as instâncias. Até o doutor Geraldo Brindeiro, aquele da gaveta, arquivou também a representação do deputado Aderson Lago, o denunciante da milionária maracutaia.)

Jorge Murad, o marido da candidata a presidente da República, não desperta amores. Dona Marly, a sogra, segundo se comenta, já gostou mais dele. Os cunhados não gostam muito. Mas José Sarney sempre o defendeu com uma frase lapidar: “O Jorginho não é casado com a Roseana. Ele é casado comigo”. Em fins do ano passado, quando sua mulher despontava nas paradas de sucesso, Murad contou com a declarada proteção do sogro. Sarney telefonou ao dono de um importante jornal de São Paulo pedindo que evitasse a publicação de uma matéria no mínimo embaraçosa para o genro. Conseguiu. Da história, além da influência do velho cacique, restou a explicação dada à redação: “Isso é pura sacanagem. Só porque ele é casado com a Roseana, isso agora aparece. Além do mais, essa matéria é puro machismo contra ela”, sapecou a editora.

Mas a história é triste, reveladora e lamentável.

Em meados dos anos 70, a fábrica de óleo de babaçu do empresário Duailibe Murad foi à bancarrota. Um sobrinho, escolhido pela Justiça, foi nomeado fiel depositário de toda a instalação industrial. O rapaz, entusiasmado e revelando o seu caráter, não se fez de rogado: encostou dois imensos caminhões FNM, embarcou toda a maquinaria e a levou até a cidade de Teresina, no vizinho Piauí, vendendo-a a conhecido empresário local. Foi preso dias depois como depositário infiel. Teve direito a algemas, nota em jornal e cela comum. Um escândalo. O jovem em questão chama-se Jorge Murad.

MINHA FILHA, MEU TESOURO
O pai, fascinado pela herdeira, nunca deixou de escutar seus conselhos políticos. E ela, vaidosa, sempre se acreditou uma expert no assunto. Ministros foram feitos por sua vontade. Dante de Oliveira, um deputado mato-grossense famoso por sua emenda das Diretas Já (contra a qual José Sarney tanto lutou), teve a sorte de trocar a prefeitura de Cuiabá, onde enfrentava índices assombrosos de desaprovação, por um inócuo Ministério da Reforma Agrária. Arthur Virgílio Neto, deputado amazonense, disputou o governo de sua terra contra a poderosa máquina de Gilberto Mestrinho e Amazonino Mendes. Quase ganhou. Talvez tenha vencido, sendo vítima de uma proverbial técnica de apuração de votos onde o derrotado ganha. Mas o fato é que a boa retaguarda financeira de sua campanha foi oferecida por uma amiga íntima: Roseana.

Flávio Jussiani Ramos, um rapaz com então pouco mais de 30 anos, sósia de Bill Clinton, chegou pelas mãos de Roseana a diretor da Caixa Econômica Federal. Antes, no Planalto, era conhecido pelo curioso apelido de “assessor da assessora”, já que carregava a pasta da amiga Roseana. Um belo dia, ao se sentir excluído de um “esquema” organizado pelo presidente da CEF, Paulo Mandarino, Jussiani recusou-se a assinar a ata de uma reunião de diretoria. Com isso, centenas de processos seriam paralisados, empresas tiveram prejuízos, mutuários seriam penalizados. Mandarino, muito amigo do presidente da República, exigiu a demissão do moço. Dias depois, foi ele, Mandarino, quem caiu. Flávio ficou e hoje é um homem rico.

Mas a união com Murad, iniciada em 1976, estava indo muito mal. Os comentários tanto sobre as incursões do marido no mundo dos negócios como a respeito das desavenças conjugais eram a cada dia mais freqüentes. “Jorginho” era figura fácil na noite brasiliense, sempre acompanhado nas mesas alegres do extinto restaurante Florentino. Fotos registram essa fase boêmia. Ele já tinha sido submetido à humilhação de ser drasticamente interrogado pelos senadores José Ignácio e Itamar Franco, na emblemática CPI da Corrupção. Foi, como sempre, frio, monossilábico e evasivo. Mas deixou uma péssima impressão e não conseguiu provar sua inocência em nenhuma das várias acusações que lhe eram imputadas. Roseana, chocada, se distanciou ainda mais.

Logo após, quando o governo do pai já fazia água e os sucessivos pacotes econômicos afundavam um a um, ela resolveu partir. Na verdade, a saúde não estava boa, o casamento tinha acabado e ela havia reencontrado um grande amor da adolescência. Embora hoje, de todas as maneiras, seus assessores e companheiros de partido tentem omitir, Roseana viveu com Carlos Henrique Abreu Mendes. Generosa, conseguiu com o então governador carioca Wellington Moreira Franco a nomeação de Mendes para secretário de Meio Ambiente do Estado. O casamento durou até fins dos anos 80.

Em 1990, com o pai buscando um mandato de senador no distante Amapá, Roseana conquista uma cadeira na Câmara dos Deputados, na mais cara campanha já vista no Maranhão. Foi a campeã de votos. Deixou para trás o seu irmão, Sarney Filho, o “Zequinha”, um bom sujeito, que morre de medo do mau gênio da irmã.

Em São Luís, sentado numa mesa do Hotel Vila Rica, um dos empresários mais respeitados do Estado e eleitor de Roseana conta a história que todo o Estado comenta: num dia de fúria, a governadora buscou pelo irmão ministro do Meio Ambiente. Cobrava mais atenção, apesar de o mano ter enviado para os cofres do Maranhão mais da metade das verbas disponíveis em sua pasta. Mas ela, como sempre, queria mais. Queria porque queria e pronto. Assim é Roseana. Zequinha, sabendo da cobrança iminente, escafedeu-se. Foi encontrado por uma irmã transtornada, que se ajoelhou no jardim da casa dele e arremessou uma pedra que espatifou a porta de Blindex em milhares de pedacinhos.

“Essa moça é muito raivosa. E só tem duas amigas: a rainha de copas e a viúva Clicquot”, disse um dia o ex-governador Epitácio Cafeteira, o mais popular dos adversários políticos e inimigos pessoais dos Sarney. Foi ele, em 1994, que, por apenas 1 por cento dos votos, não tomou de Roseana o governo do Estado. Ganhou folgado o primeiro turno e por um triz perdeu o segundo, embora existam denúncias impressionantes e documentadas de uma fraude grosseira nas apurações. O colunista Márcio Moreira Alves, por exemplo, no jornal O Globo, chegou a denunciar que o próprio Cafeteira teria recebido uma fortuna para ficar quieto, aceitar a derrota e fazer corpo mole em seu recurso junto ao TSE. Jamais qualquer uma das partes respondeu a gravíssima afirmação de Marcito. Já na reeleição, em 1998, até o PC do B engrossou a coligação que deu, de lavada, um segundo mandato para a governadora.

UM CARTÃO TIROU O CRÉDITO
Ao contrário do que diz o desafeto, porém, Roseana tem muitos amigos. Ela, na verdade, é uma sedutora. Elegante, simpática, bem-humorada, cativa as pessoas e mantém um diálogo inteligente, descontraído e agradável. Em geral, deixa uma impressão muito melhor que os indicadores sociais de seu Estado e o resultado alcançado depois de sete longos anos de reinado absoluto, sem contar os outros 29 sob a batuta de papai.

Os humildes são cativados pelo sorriso bonito. Embora se pareça muito com o pai, no rosto ovalado e até na voz, é um mulher muito sensual. Os eleitores gostavam de pegar nos seus cabelos na campanha de 1994, quando ela soltava, de propósito, as então longas melenas. Toca (mal) um violão, canta com alguma afinação e desfila na escola Flor do Samba, que neste Carnaval teve José Sarney como tema do samba-enredo.

Roseana tem amigos, sim. Alguns que impressionam pela fidelidade que lhe devotam e outros pela generosidade com que ela os trata. Michael Gartenkrault, por exemplo, um técnico com tumultuada passagem pelo governo de Sarney, hoje é o reitor do ITA, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, uma das melhores instituições de ensino do país. Soldado de Jorge Murad, tem se dado ao trabalho de ir todos os fins de semana até a casa do amigo, em São Luís, onde ministra impensáveis aulas de Brasil e de conhecimentos gerais à candidata presidencial do PFL! É uma espécie de “intensivão”, um pré-vestibular surreal sobre o país, seu povinho e seus problemões. Magnânima, madame contratou seu mentor intelectual para elaborar um pitoresco Plano de Diretrizes para Oportunizar Negócios para o Maranhão (sic). Custo da farra: 3,5 milhões de reais! Afinal, uma mão lava a outra!

Candidata, Roseana se hospeda toda vez que vai a São Paulo na mansão do banqueiro e mecenas Edemar Cid Ferreira. Uma amizade que vem de muito longe. Márcia, a senhora Edemar, é filha do falecido senador biônico Alexandre Costa, um violento coronel da cidade de Caxias, e amiga de infância. Quando Roseana deixou o Planalto e reencontrou Carlos Henrique, estava deprimida e desgastada. Resolveu viajar, correr o mundo, divertir-se.

E lá se foi para alguns dos lugares que ela mais ama: Monte Carlo, Atlantic City e Las Vegas. É que ela é jogadora compulsiva, apaixonada, incontrolável. Diante do pano verde, seus belos olhos verdes se integram numa simbiose perfeita. O girar da roleta, o tilintar das fichas, a voz do crupiê, a emoção da aposta suprem qualquer deficiência emocional da candidata do PFL à presidência do Brasil. E esse fato, sobejamente conhecido no Maranhão, é um trauma para a família, especialmente para o velho pai, que num discurso, em 1993, chegou às lágrimas na tribuna do Senado respondendo uma nota da colunista Danuza Leão, que tratava das peripécias da moça por centros internacionais de carteado.

Esse dolce far niente foi bancado por um expediente que impressiona. Um cartão de crédito internacional, ilimitado, emitido por um banco de Miami, o Schroder, segundo denúncia do Jornal do Brasil e da revista Exame. Dono da conta responsável pelo débito mensal do cartão da felicidade: Edemar Cid Ferreira. O mesmo Edemar, segundo o JB, seria sócio de Murad num banco no Caribe, o Claymoore Bank, que seria o destino de centenas de milhões de dólares que teriam sido alcançados em excelentes negócios realizados à sombra do governo do sogro e amigo José Sarney.

Em 1994, Roseana e Jorge voltaram a dividir o mesmo teto. Ela era candidata ao governo do Maranhão. Ele, o tesoureiro da campanha. Nos anos de separação, havia se envolvido com a belíssima empresária Carmem Ruete, herdeira de uma usina de açúcar em São Paulo. Tiveram uma filha, hoje com 9 anos. Carmem teve de ir à Justiça para conseguir que Murad reconhecesse a paternidade da menina, a quem não visita e paga uma pequena pensão alimentícia.

“Essa criança e a minha candidatura ao Senado foram a causa do novo casamento do meu irmão com a Roseana. Eles poderiam ter, simplesmente, anulado a separação, mas preferiram casar-se novamente, e com separação de bens. Evitaram que a filha dele herde a espetacular fortuna dos Sarney e impediram a eleição do maior inimigo que eles têm, que sou eu, que fiquei inelegível por ser cunhado da governadora”, diz o ex-deputado Ricardo Murad, do PSB do Maranhão, atual secretário de Educação do município de Coroatá. Ele é um dos mais temidos adversários da oligarquia. E sua presença no cenário político maranhense é quase um flagelo para os Sarney: seu irmão Jorge é o marido de Roseana, sua irmã Teresa é a mulher de Fernando, o filho-empresário de dona Marli e do senador José Sarney. Ricardo, PhD na família Sarney, é curto e grosso sobre a cunhada: “Faz um governo corrupto, é uma despreparada e vai quebrar o Brasil”.

GLOBO E ROSEANA: TUDO A VER
Se Roseana chegar ao Planalto, cai a profecia de Millôr Fernandes, que se dedicou a desconstruir com rara aplicação a obra literária e o governo de José Sarney. Assim que o ex-presidente deixou o cargo, o humorista disse que só dali a cem anos um outro maranhense seria novamente presidente do Brasil.

Mesmo com números francamente favoráveis, não falta quem não vislumbre futuro na pré-candidatura de Roseana. O presidente do IBOPE, Carlos Augusto Montenegro, em entrevista à revista Época, apostou todas as fichas num segundo turno entre Lula e José Serra, explicando por a + b como a bola de Roseana iria murchar. No mesmo dia em que a revista chegou à bancas, Roseana teve outro dissabor, o jornal O Estado de S. Paulo circulou com um artigo demolidor de Mauro Chaves, “Roseana, o charme da miséria”. Nele, o jornalista faz um contraponto do levantamento do IBGE que aponta o Maranhão como líder na pobreza e nas diferenças sociais do país com os casos de corrupção que pipocam naquele Estado. O charme fica por conta das medidas cosméticas e dos efeitos especiais que a governadora usa para edulcorar a dura realidade de sua terra. “Cachaça et circensis”, na impagável definição do articulista.

Esse levantamento do IBGE também foi o mote do documento da CNBB maranhense amplamente divulgado na véspera. Dom Affonso Felippe Gregory, presidente da entidade no Maranhão, vaticinou que tais números poderiam afundar a candidata. Vendo a ofensiva, o alarme vermelho acendeu no crânio do velho acadêmico, que saiu em defesa da filha no mesmo dia. Abandonou o distanciamento que vinha adotando até então. “Em relação a mim, eu posso compreender as injustiças, mas em relação à minha filha não vou ter a mesma atitude”, ameaçou na porta de sua mansão brasiliense, ao lado de FHC, que fora ali para dar plena garantia de que não haveria mais agressões a Roseana.

Esta reportagem começou nesse clima. Uma avaliação mais realista só pôde ser feita quando desembarquei em São Luís.

De um radinho de pilha dependurado numa das tendas-padrão do Projeto Reviver, ecoa a voz potente do radialista Roberto Nunes, da Rádio Educadora, comentando a reação intempestiva do pai: “Parece que se tocar na Roseana ela quebra! Parece que é de vento”. Parece, mesmo.

O Projeto Reviver, um dos redutos da boêmia e do turismo na ilha, é uma das jóias da bela coroa. Seus preservados casarões coloniais serviram como uma luva para os quatro dias consecutivos de merchandising do turismo nativo na novela O Clone, na semana seguinte ao esperneio de Sarney. O próprio clone, Léo, pintou na telinha da Rede Globo pela primeira vez nos paradisíacos Lençóis Maranhenses. Uma operação desse tipo não saiu por menos de 1 milhão de reais para o erário maranhense, sem contar toda a infra-estrutura proporcionada pelo governo, segundo especialista do mercado publicitário.

Nos intervalos, inserções de trinta segundos da propaganda política do PFL, Roseana, embalada num de seus corretos terninhos, pontificava: “Um presidente não pode ser presidente de São Paulo, da República da CUT, da República do MST”. E, de quebra, imagens da baderna e do quebra-quebra recente na Argentina. José Serra não acusou o golpe, nem na insossa cerimônia de lançamento de sua pré-candidatura presidencial, seguindo conselho de FHC. Mas o PT, enfim, abandonou a postura olímpica (“A Roseana é problema do PSDB”, costumava dizer Lula) e escalou José Dirceu, o presidente do partido: “Tudo o que ela está falando da Argentina aconteceu aqui, no fim do governo Sarney, do qual ela participou… Só não houve renúncia porque se construiu uma saída, quando eles se omitiram e deixaram o Collor de herança”.

Sobre o festival maranhense na novela das 8, de inestimável apelo popular, nada. O PT, sem perceber, se omitiu na denúncia de que a Globo, como na edição fraudulenta do debate entre Collor x Lula, em 1989, misturou dramaturgia e propaganda política subliminar, numa operação casada, clara e evidente, que atenta contra a lei e deixa à mostra uma relação comercial e promíscua entre o clã Sarney e o império dos Marinho.

A educação no Maranhão, que apresenta índices vergonhosos, é um capítulo que a Globo, com certeza, jamais passará. Nem a imaginação fértil de dona Glória Perez, no seu folhetim eletrônico e medíocre, poderia contar, por exemplo, que em sete anos de governo dona Roseana não construiu uma única sala de aula. Muito menos, que a educação de 2¼ grau, à qual 400.000 jovens maranhenses não têm acesso por absoluta impossibilidade, foi substituída por um incrível contrato com a Fundação Roberto Marinho, no valor de 102 milhões de reais!

Quando o deputado estadual Aderson Lago (PSDB) denunciou a trama, a governadora resolveu baixar a cifra para 92 milhões de reais. E o Ministério Público se deu por satisfeito com esse “desconto” de 10 milhões na sangria. Escândalo que se amplia quando se lê a contundente ação da Federação dos Trabalhadores na Educação junto ao Ministério Público, denunciando que os professores serão substituídos por aparelhos de televisão e fitas cassetes da Globo, e que os candidatos selecionados no concurso público aberto (o primeiro em sete anos de governo Roseana!), na verdade, irão funcionar como bedéis, sem ministrar aula alguma, atendendo pelo pomposo apelido de “orientadores de aprendizado”.

Como se tudo isso fosse pouco, os 92 milhões de reais são apenas para as fitas. As apostilas dos alunos são por fora. Mais a bagatela de 16 milhões de reais, somente na primeira compra. Editadas por quem? Ganha uma passagem só de ida para a ilha de Curupu, com escala na sofisticada mansão da praia do Calhau, quem respondeu Editora Globo…

Neste mês de fevereiro teremos a primeira turma de formandos do “tele-ensino”, batizado pelo povo do Maranhão de “tele-engano”. São 124.000 adolescentes. Educadores e pedagogos locais prenunciam um baixíssimo nível de aproveitamento e uma péssima base educacional: “Será um exército de semi-analfabetos. A vantagem é que já sabem, pelo menos, desenhar o próprio nome”. Irônico, o professor Paulo Rios, líder dos professores, constata, impiedoso: “Eu conhecia o método Paulo Freire. A Roseana aplicou o método Roberto Marinho”.

UM JEITO ROSEANA DE GOVERNAR
Alguns exemplos, dos muitos que poderíamos oferecer aos leitores, de feitos da gestão de Roseana Sarney à frente dos destinos do Maranhão. Nenhum deles, com certeza, será exibido em O Clone…

Projeto Salangô  - Num ambicioso projeto de culturas de arroz e de limão irrigadas, sumiram 53 milhões de reais de verbas federais. Nenhum hectare de arroz, nenhum pé de limão foram plantados. O Tribunal de Contas da União, após pareceres de auditores técnicos que visitaram o local, recomendou ao governo federal que não dê mais um real ao projeto.

Pólo de confecções de Rosário  - O chinês de Taiwan Chao Kwo Cheng, amigo íntimo de Jorge Murad, arrancou recursos do Banco do Nordeste e do governo estadual e montou um pólo de confecções na região metropolitana de São Luís com a promessa de milhares de empregos. O projeto, inaugurado por FHC, não passou de um barracão rústico com algumas máquinas de costura e milhares de costureiras frustradas. Fugitivo, com os financiamentos no bolso, Chao acabou preso pela Polícia Federal por estelionato e formação de quadrilha. Solto por obra de um habeas corpus, jamais devolveu um único real dos milhões que conseguiu alavancar com o apoio da governadora.

Lagoa do Jansen - Inaugurado em 30 de dezembro passado, com festa, discurso e foguetório, o Parque Ambiental da Lagoa do Jansen, em São Luís, não resistiu à primeira chuva, duas semanas depois. Tendo custado 70 milhões de reais, enviados pelo mano Zequinha, ministro do Meio Ambiente, o lago artificial de pouco mais de 1 metro de profundidade transbordou, invadindo condomínios de classe média alta e casebres paupérrimos que o rodeiam. Dejetos, matéria vegetal não retirada e sujeira desmoralizaram o que Roseana havia chamado dias antes de “a nossa lagoa Rodrigo de Freitas”. A despoluição, item mais caro do dinheiro gasto, simplesmente não foi feita.

Favorecimento à OAS - O jornalista Walter Rodrigues calcula em quase meio bilhão de reais as obras entregues por Roseana à notória empreiteira baiana OAS, sem falar nas denúncias de ligação com Antônio Carlos Magalhães. O projeto Italuís, de duplicação da adutora do rio Itapicuru, no montante de 300 milhões de reais, além do projeto da lagoa do Jansen, entre outros, são executados pela OAS. Em todos, irregularidades constatadas pelo Tribunal de Contas da União.

Caminhando pelas ruas do centro histórico de São Luís, o jornalista Walter Rodrigues é alvo da curiosidade, da admiração e de muitos cumprimentos. Mal chegado aos 50 anos, paraense de nascimento, ele é o homem que mais conhece, enfrenta e combate a oligarquia local. Sério, comedido, bem-humorado e com uma coragem pessoal absoluta (“Esse tem colhões”, observou um deputado governista), Walter é colunista de um diário cinqüentenário, o destemido Jornal Pequeno (www.jornalpequeno.net), único órgão de oposição na imprensa maranhense. Ele sabe muito. Sabe tudo de Sarney e de sua turma. Mas ele é só perguntas para mim: “Será que o Brasil não aprendeu com Collor?” “Como é que um homem de origem modesta pode ser um empresário riquíssimo, dono de rádios, televisões, jornal, imóveis, como é o Sarney hoje?” “A memória nacional se esqueceu do que foi o fracasso de seu governo, com 80 por cento de inflação ao mês e casos de corrupção piores que os da era Collor?” “O governo de Roseana é um desastre. Com os indicadores sociais que temos, segundo a revista Veja, se o Maranhão fosse um país, seria o segundo mais miserável das Américas, perdendo só para o Haiti.”

O jornaleiro da rua do Egito escuta. Calça uma sandália havaiana. Sua camiseta rota traz a propaganda do jornal Estado do Maranhão, propriedade da família Sarney. “Ela quer fazer no Brasil o que não consegue fazer no Maranhão”, diz, tomando coragem. Sua boca mostra um sorriso triste. Só tem um dente. A distância que nos separa da posse de José Sarney, em 31 de janeiro de 1966, é de exatos 36 anos. Mas parece ser de poucos dias. Quem sabe, até, se esse jornaleiro não é o filho daquele tuberculoso. O do filme de Glauber Rocha. Mas isso pouco importa. Nizan Guanaes não irá mostrá-lo nos intervalos de O Clone.

(Publicada na revista “Caros Amigos”, em fevereiro de 2002)

2 ideias sobre “O nome dela é Roseana, mas pode chamar de Sarney

  1. antonio carlos

    Data vênia maranhenses, mas vocês só tem o que merecem. O texto tem mais de 10 anos e ainda está atualizado. Nada mudou. Das duas, uma, ou o tempo não passa no Maranhão, ou os maranhenses adoram sofrer, qual das duas hipóteses é a verdadeira? Ou ambas são verdadeiras.

  2. Fausto Thomaz

    Enquanto ainda existirem os coroné da vida, nada disso vai mudar…ainda bem que aqui na terrinha a grande maioria já bateu as botas…ainda faltam alguns “bois de botas” espalhados no Centro Cívico, mas logo logo vão estar sentadinhos no colo do capeta, não vai demorar muito.

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