7:24Ortiz e Cirne, até breve

por Célio Heitor Guimarães

 

O mundo dos quadrinhos sofreu duas baixas lamentáveis neste final/início de ano: dois dias antes do Natal, em 23 de dezembro, faleceu em Valência, na Espanha, José Ortiz, um dos maiores ilustradores de gibis de todos os tempos, ultimamente dedicado às aventuras do caubói Tex Willer; no sábado 11/01, foi a vez do professor, artista visual e um dos grandes teóricos dos quadrinhos no Brasil Moacy Cirne nos deixar.

José Ortiz (Moya) tinha um ídolo e uma irritação. O ídolo era Jesus Blasco, o artista-mor dos quadrinhos na Espanha, em quem Ortiz se mirou durante toda a carreira. A irritação surgia quando o diziam espanhol. Nascera em Cartagena e, por isso, não se considerava espanhol. “Sou catalão!” – apregoava com orgulho.

Espanhol ou catalão, Ortiz foi um mestre na pena e no pincel. Traço forte e personalista, com claros e sombras cinematográficos, devia ao pai o amor pela arte. Sempre que lhe escrevia, o pai, marinheiro por profissão, anexava à carta algum desenho pintado com aquarela, desafiando o filho, então com quatro ou cinco anos, a reproduzi-lo. O pequeno Pepe cumpria a missão religiosamente, com gosto e a certeza de que, quando crescesse, se tornaria desenhista. Começou desenhando histórias de guerra e de ficção científica para o mercado inglês. Depois, passou a colaborar com as revistas norte-americanas de terror Creepy e Horror. Ilustrou muito, também, a bela Vampirella. Mas, fã declarado dos filmes de bang-gang, logo chegaria ao faroeste.

Nos anos 80, “por pura saudade”, José Ortiz voltou ao mercado dos quadrinhos da Espanha. Aliado ao amigo e roteirista Antonio Segura, criou o personagem Hombre. O editor não acreditou no novo herói: “O que?! Um sujeito meio careca, idoso e com uma cara desagradável e ainda protagonista de uma história ‘sordida’, não tem a menor chance de ser aceito pelo público!” Pois foi. Hombre está no mercado desde 1981 e é publicado em toda a Europa e nos Estados Unidos.

Em 1993, outro editor, Sergio Bonelli, convidou Ortiz para desenhar uma história de Tex, para a edição gigante do herói. O convite encheu-o de orgulho, “pela chance de colaborar com um clássico que, graças à sua qualidade, superou todas as tendências e modas passageiras”. Confessaria depois:

– Quando comecei a desenhar as primeiras páginas, fiz isso na “ponta dos pés”, com o mesmo respeito de quem entra numa catedral, e ao mesmo tempo feliz como uma criança, porque eu voltava a um gênero, o faroeste, que sempre me foi muito querido.

“O Grande Roubo”, com roteiro de Claudio Nizzi, foi publicado originalmente na Itália em junho de 1993 e no Brasil em julho de 1994, pela Editora Globo, e em abril de 2006, pela Mythos Editora.

Em seguida, Ortiz passou a desenhar histórias texianas da série mensal e algumas edições especiais do personagem. Fez também as primeiras aventuras de Mágico Vento, também para a Bonelli Editores.

José Ortiz estava com 81 anos de idade.

 

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O catalão José Ortiz

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O potiguar Moacy Cirne

 

Moacy Cirne, 70 anos, potiguar de nascimento, era um dos mais destacados estudiosos das histórias em quadrinhos no Brasil. Era também jornalista, poeta, escritor, pesquisador, artista visual e cinéfilo. Foi o autor de um dos primeiros livros teóricos sobre o tema: Bum – A Explosão Criativa dos Quadrinhos (Vozes, 1970).

Como advertiu a editora, na ocasião, “apesar do seu caráter pioneiro, não se trata de obra de simples informação, mas de um denso ensaio, no qual o autor estuda as características estéticas básicas dos ‘comics’ e procura desvendar a significação social do seu êxito no mundo contemporâneo”

Nos anos seguintes, Cirne lançou A Linguagem dos Quadrinhos – O Universo Estrutural de Ziraldo e Maurício de Sousa (Vozes, 1971) e Para Ler os Quadrinhos – Da Narrativa Cinematográfica à Narrativa Quadrinizada (Vozes, 1972).

Professor da Universidade Federal Fluminense, ele contava que a paixão pelo assunto começou quando era criança, em Caicó, na região de São José do Seridó, interior do Rio Grande do Norte, onde nasceu.

– O Tico-Tico (a primeira revista de nível nacional a apresentar histórias em quadrinhos para o público infanto-juvenil) representava todo um mundo para mim – assinalava.

Criador do movimento que ficaria conhecido como Poema/Processo, o último livro de MC foi Seridó Seridós, lançado no início de dezembro passado, que, segundo suas próprias palavras ao jornal Tribuna do Norte, “tem um pouco de tudo: de críticas a memórias e fotos, de homenagens, poemas a lista de livros e filmes”.

Moacy Cirne sofreu uma parada cardíaca depois de haver passado por uma cirurgia, em Natal. Ele havia descoberto um câncer no fígado recentemente.

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