16:26O ministro, a Kombi e a tecnologia

por Raul Guilherme Urban (*)

 

Os cerca de dez últimos dias, para quem acompanha o noticiário nacional, foram tomados, a partir de uma declaração do ministro da Fazenda, Guido Mantega, pela instalação em toda a frota nacional de automóveis e similares, a partir de 1º de janeiro próximo, de dois dispositivos de segurança há anos já existentes nas frotas de outros países: o airbeg duplo e o sistema de freios ABS. Não é preciso explicar com mais detalhes o que ambos os componentes representam para a segurança de quem dirige, especialmente no caso de eventuais acidentes:o airbag, colocado no centro do volante, onde muitas vezes está o comando da buzina, literalmente se abre como um balão, evitando que o rosto do condutor sofra ferimentos graves. O mesmo acontece com o outro airbag, colocado  também no painel, defronte ao passageiro-carona.

A indústria automobilística disse que estava preparada para já colocar na rua a série de modelos com essas conquistas. Aparentemente,. Tudo normal. Mas, dias, depois, sob a alegação de que a indústria precisava de um tempo para se adaptar à mudança, o próprio ministro voltou atrás, deixando mais para a frente essa obrigatoriedade. E no acender das luzes desta semana em curso, outra vez Mantega voltou atrás, carimbando o primeiro dia do ano novo como o reservado ao obrigatório uso dos dois componentes. O curioso está na paradoxal posição de governo e montadoras. Com o adiamento de instalação dos equipamentos, segundo Mantega, as indústrias se adaptariam, não dispensando nenhum funcionário, apesar da elevação do preço final de um veículo já com esses benefícios, em cerca de R$ 1,5 mil.

A verdade é que o veículo brasileiro – exceto os pesados, como caminhões e ônibus – só há muito pouco tempo se tornou similar ao mesmo modelo produzido lá fora, mas falta muito para que a versão tupiniquim s iguale ao do Primeiro Mundo. A começar pelos itens de segurança. Enquanto só a partir de 2014 os freios ABS serão normalmente instalados também nos modelos chamados “populares”, mundo afora isso não é exceção: é regra. Assim como os cintos de segurança de três pontos, quando aqui, vez ou outra, ainda nos defrontamos com o primitivo modelo abdominal em bancos traseiros. Temos já inúmeros carros – especialmente os mais sofisticados – munidos de airbags. O que o ministro quer, é que esse equipamento chegue aos modelos mais simples, instalados no painel – daí porque duplos. E lá fora? Bem, além de tecnologicamente mais avançados, estão nas laterais e na parte traseira, transformando o interior de um carro, em caso de sinistro, num imenso colchão protetor de seus ocupantes.

 

Kombi – Enquanto o vai-e-vem da obrigatoriedade dos equipamentos de segurança era objeto central de debate nesses últimos dias, em todos os modelos que circulam a partir do início do próximo ano, Mantega, não exatamente por uma questão sentimental, romântica ou lúdica, mas informado pela montadora  não dispunha de condições de instalar esses equipamentos em um de seus modelos já fabricado há 56 anos, isentava a antológica Kombi dessa mesma obrigatoriedade.

Justificativa: não existir modelo similar no mercado com preço tão atraente quanto o da própria Kombi. Segundo: mantendo-a “viva” por mais três anos, evitava a demissão de centenas de empregados na montadora. Detalhe: o Brasil é o único país do mundo a ainda colocar a Kombi na rua. Na Alemanha, país que assina sua certidão de nascimento ainda por volta de 1947, o modelo deixou de ser fabricado há cerca de 30 anos. Aqui nas Américas, mais especificamente a filial da montadora, instalada no México, selou o destino do utilitário há 15 anos.

Esse instrumento, considerado “jurássico” pelos especialistas que se debruçam diariamente sobre o que mais moderno há em tecnologia, por certo rodará ruas e estradas do Brasil afora, por mais algumas décadas. Basta olhar: ao lado dos modelos recentes, bem cuidados, ainda estão os modelos antigos, de design hoje considerado até exótico, mas cumprindo fiel e heroicmente seu papel Bom-Bril: servindo a mil utilidades.

Agora mesmo, nas revistas especializadas em veículos e transporte, o fato inédito de sobrevida do modelo ganhou caprichado anúncio de despedida, elaborado pela montadora, lembrando que uma série especial estava para sair às ruas, encerrando oficialmente a produção no Brasil, mas custando “módicos”….. R$ 78 mil. Coisa para colecionador, obviamente, e venda, em princípio, já esgotada, tanta foi a procura.

 

Facilidades, sem mobilidade – Já as montadoras, que acompanhavam passo a passo as sucessivas declarações contraditórias, no fundo, respiravam aliviadas, beneficiárias que são já há um bom par de anos, graças à redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que permite a oferta de carros novos à população, mediante pagamentos em longuíssimas prestações mensais. Enquanto os meios de comunicação entopem ouvintes, leitores e telespectadores de in formações seguidas, mostrando as eventuais “facilidades” em se comprar um carro em até 48 meses (olha lá, são quatro anos!), prefeitos, planejadores urbanos, técnicos em transporte e afins se perguntam no que vai dar isso. Todos os dias, em todo o país, milhares de novos veículos chegam aos pátios dos departamentos de trânsito para serem emplacados, daí circulando pelos já excessivamente carregados sistemas viários. Não existe milagre: a desapropriação de áreas e glebas para ampliação de ruas e avenidas está fora de contexto. Cada município tem um território delimitado em quilômetros quadrados, e que não pode ser ampliado. Em suma: a tal mobilidade urbana – expressão tão a gosto dos planejadores urbanos e especialistas em transporte – foi, como diz a expressão popular, “para o vinagre”.

No anunciar da obrigatoriedade dos dois componentes, o ministro despertou a curiosidade para quem lida com a evolução dos chamados meios de locomoção: enquanto os veículos leves produzidos no Brasil ainda precisam de maciças doses de melhoramentos tecnológicos, curiosamente essa tecnologia embarcada há um bom tempo já é referência nas linhas de montagem de caminhões e ônibus no país.

A eletrônica embarcada, e mesmo equipamentos de segurança instalados nos “brutos”, são mesmo de chamar a atenção. Nesse ponto, essa categoria empata em qualidade, segurança e conforto com os similares lá de fora. Uma simples rápida visita a uma publicação especializada em transporte de cargas ou de passageiros, na medida em que mostra fotos do interior da cabine ou detalhes de motores e chassis, nada mais faz que apresentar airbags múltiplos em cabines que mais parecem salas-de-estar; ou freios  ABS, que, em caso de frenagens bruscas ou emergenciais, evitam  derrapadas, até capotamentos, de caminhões de todos os tamanhos.

 

A indústria automobilística, nas últimas duas décadas, deu um  enorme passo rumo à modernidade e segurança, mas nossos produtos automotores continuam parcialmente defasados, em relação aos similares dos países de origem. Num breve tempo, com a adoção da medida compulsória anunciada pelo ministro, o quadro veicular pode apresentar mais qualidade e segurança. Fica, porém, a título de curiosidade, registrada a sobrevia, por até três anos, do provavelmente mais popular veículo comercial com que o Brasil conviveu por mais de meio século: a Kombi. Ao ganhar sobrevida, resta a pergunta: e como fica o anúncio de despedida veiculado pela mídia, quando, assim, deixa de ser uma raridade ofertada pelos gordos R$ 78 mil?

 

(*) Raul Guilherme Urban é jornalista

 

4 ideias sobre “O ministro, a Kombi e a tecnologia

  1. engenheiro curitibano

    Sou leitor assíduo do blog há muito tempo e, portanto, me permito a franqueza. O assunto é interessante, mas o texto está muito mal escrito. Lê-lo é como viajar de kombi por uma estrada esburacada.

  2. juca

    Não posso avaliar se o texto está mal escrito. Mas nada pode ficar mal escrito ou mal explicado muito mais do que as declarações do Ministro Guido Mantega com relação essa questão de segurança nos veículos, nos prazos que uma hora seriam uns outra hora seriam outros e assim mudaram de novo. Então, confuso mal escrito ou mal entendido seria o discurso no ministro com a avaliação do Senador Suplicy com os comentários do Lula.

  3. Raul Urban

    Comentários à parte do Sr. Engenheiro, acerca da qualidade do texto (afinal, sou jornalista profissional há 45 anos, com vários já publicados e, penso, com texto de qualidade – inclusive, o que conta a História do Transporte Coletivo de Curitiba, patrocinado pela Prefeitura de Curitiba, Volvo do Brasil e com apoio da Lei Rouanet, vamos aos fatos que complementam o texto enviado ontem.
    Ao contrário do dito, ontem, quase no fim da tarde, o ministro voltou novamente atrás, segundo informações do jornal Valor Econômico, e disse que a Kombi estava, sim, no fim de linha. Tanto é que hoje, sexta-feira, será produzida a última unidade, na linha de montagem da Volks. Acaba, portanto, um longo capítulo da vida de um veículo que fez história, guarda lembranças- mas precisamos olhar para a frente, rumo a novas tecnologias. Senhor engenheiro, trafegue, por favor, por estradas bem-cuidadas e ignore o texto. Obrigado.

  4. juca

    O Rauk Urban, que nem conheço deu um cacete no cara que o mesmo não vai saber dirigir em estrada alguma e se o fizer e encontrar uma “blitz” a Policia vai pensar que o sujeito está bebaço. Por isso eu sempre falo, quem comenta algo relativo ao passado tem que ter vivido esse passado ou estudar a história e não se ” emprenhar” por opiniões ideológicas de quem não conhece nada. Conheci a Senhor Tereza Urban, ambientalista e lutadora contra as ações nefastas ao meio ambiente, mas isso já vai tem e ocorreu na época e em que exerci profissionalmente funções na área pública sem ter tido qualquer tiupo de comprometimento contra ou a favor de alguém. Portanto entendi perfeitamente a estrada que o jornalista percorreu no seu comentário e isso é próprio de quem viveu uma história na cidade. Pena que muitos não transferem o conhecimento e outros não querem aprender é mais prático ouvir o que interessa e acreditar no mais conveniente.

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