8:04Amadurecer

por Ticiana Vasconcelos Silva

 

Há muito tempo não escrevo. Muito por estar em um momento de paralisia, reflexão, dor, desencorajamento e conclusões que não se definem. A transição da juventude para um patamar ainda muito estranho e aparentemente entediante tem surtido efeitos em mim em todos os sentidos: corpo, alma e, principalmente, coração. Este é aquele momento em que as ilusões começam a cair por terra, seus castelos e sonhos entram em conflito com a realidade, a fé cambaleia – mas não cai – e o sentido de ser humano começa a se enveredar por outros caminhos. As utopias se aproximam mais dos limites que a rotina nos impõe e você já não consegue mais descortinar as razões dos acontecimentos. Ou pelo menos, os fins já não mais justificam os meios. Aí, então, a maturidade, que antes era apenas uma cortesã dos atos mais insanos, impensados e inconsequentes de nossos atos juvenis, passa a ser a nossa fiel escudeira nos dias que não têm gosto nem cheiro. Maturidade no sentido de ter mais clareza sobre a impermanência das coisas, que muita coisa se pode relevar e o que verdadeiramente devemos guardar e levar da vida versus o que não vale mais o seu tempo e sua atenção. E isso, a princípio, parece ser um choque entre o que você antes aprendia quase que sempre pela experiência e o que agora é preciso aprender pelo discernimento, avaliação e reflexão. Pondera-se sobre a angústia e o peso do tempo que vai nos tornando quase que mais um na multidão, pois nos damos conta que o corpo já não responde mais tão naturalmente aos impulsos, às empolgações, aos devaneios hedonistas. Em outras palavras, você se dá conta que é preciso se cuidar para tentar evitar doenças, prolongar essa vida tão curta, tão louca, rara, bela e dolorosa, ao mesmo tempo que lida ainda com os fatos do dia-a-dia e os ideias que ainda perduram vivos na alma, prontos a lhe dilacerar quando você olha para trás e vê que eles ainda estão lá e que por algum motivo você os abandonou. Quando essas “chamas” diminuem, você, então, vê-se à frente da vida, responsável por abrir um caminho diante de uma mata densa, escura e desconhecida. E, então, você realmente começa a amadurecer e sua esperança está no fato de que isso lhe trará a comprovação da realização das utopias, ideiais e sonhos, como, quem sabe, o verdadeiro caminho a se percorrer na Terra. Aquele que é feito de chão batido, que caleja nossos pés até que não haja mais nenhuma possibilidade de caminhar pela dor, mas sim voar pelo amor.

 

*Publicado no blog O Paradoxo do Ser (http://paradoxodoser.blogspot.com.br/)

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