8:01Para Sérgio Martins

Nunca é tarde para se reverenciar. No atropelo destes tempos de tsunami de informações, só soube no final de semana da morte do repórter Sergio Martins, autor da célebre reportagem sobre a Máfia da Loteria Esportiva da revista Placar que lhe consumiu um ano de trabalho e, como só poderia acontecer no Brasil, não colocou na cadeia a enorme rede de bandidos que se aproveitavam da inocência dos apostadores, mas desmantelou o esquema. Sim, o Paraná estava integrado na rede de manipuladores de resultados, foi por isso que conheci pessoalmente o discretíssimo jornalista, que um dia desembarcou aqui sem avisar, marcou encontro e conversamos num bar do Largo da Ordem, eu sem saber do que se tratava (e fiquei sem saber durante um tempo, só colaborando no levantamento da ficha e entrevistando alguns dos envolvidos, muitos ainda vivos e desfilando com cara de pau no nosso Estado), ele falando baixo e sempre chegando próximo para ouvir o que eu dizia. Só mais tarde soube que ele tinha problema sério de audição, coisa que me afetou muitos e muitos anos mais tarde, e não usava aparelho auditivo. Sergio Martins ganhou mais pontos no conceito do signatário ao casar com a polaca Sofia, curitibana que era secretária de outro nascido na terra, o então diretor de redação da revista Jairo Regis, nascido em Palmas e o responsável pela contratação deste que está ficando cansado de escrever sobre os bons que estão indo embora antes do tempo. Sergio Martins tinha 63 anos e, na semana passada, foi cremado no cemitério da Vila Alpina, coincidência ou não, o bairro onde nasci e no local onde, quando era um gigantesco terreno descampado, jogávamos bola depois de sair do colégio estadual que fica bem ao lado. Sergio Martins era craque no seu ofício. Mas como o mestre Ademir da Guia, nunca foi de ficar cacarejando e, como escreveu Juca Kfouri na coluna que reproduzo abaixo, sofreu calado por sua grande reportagem não ter o resultado que esperava, ou seja, a prisão de quem se aproveitou da ingenuidade da ninguenzada. O Brasil não mudou um milímetro neste campo, mas o exemplo do grande repórter ficou. Amém.

 

por Juca Kfouri

 

Sérgio Martins, o repórter

 

Morreu, aos 67 anos, de insuficiência renal, o autor da célebre reportagem da revista “Placar”, Sérgio Martins.

Morreu como viveu, discretamente.

E provavelmente arrependido por ter apurado e escrito a matéria que, em 1982, abalou o futebol brasileiro e acabou com a credibilidade da Loteria Esportiva.

Sérgio Martins, avesso aos holofotes, amargurou-se com a impunidade dos mafiosos e com a pusilanimidade de tantos que procuraram desmentir o resultado de seu meticuloso trabalho para desvendar a face sórdida de nosso futebol.

Desde o silêncio cúmplice do comando da Caixa Econômica Federal à época, então ainda na ditadura, mas também depois, já no governo Sarney, sob o comando, na área de Jogos do banco, de Aécio Neves, até a recusa do Prêmio Esso de Jornalismo — com o fantasioso argumento de que a denúncia acontecera porque a revista iria fechar e queria desmoralizar o futebol nacional.

Ironicamente, depois que “Placar” viveu sua maior crise, em 1990, descontinuada como semanal, foi sob seu comando direto que sobreviveu como mensal, até 1995, quando, relançada, mudou de formato e política editorial.

Atormentado, Sérgio Martins atribuía ao seu extraordinário esforço durante um ano — desde o fio da meada que puxou na cidade de Santos, onde identificou a primeira das muitas quadrilhas espalhadas de norte a sul do país que manipulavam os jogos escolhidos para os testes da Loteria — o ostracismo a que foi relegado no mercado de trabalho nos últimos anos.

Verdade ou fantasia de uma personalidade introspectiva, fato é que Sérgio Martins, que tinha problemas de audição, recolheu-se o quanto pôde, apesar do respeito que despertou e manteve intacto em todos que privaram de seu convívio .

É lamentável que tenha sido assim, mas assim foi.

Tão lamentável como seu desaparecimento, embora seu exemplo vá permanecer para quem teve o privilégio de trabalhar ao seu lado.

Morre um grande, colossal jornalista, corpo e alma de repórter, dos maiores de todos os tempos.

Deixa três filhos e uma neta e era vascaíno de coração.

Ainda hoje será cremado na Vila Alpina, onde seu corpo será velado a partir das 14h30 em cerimônia curta para evitar sofrimentos, como queria e pediu à sua Sofia, ex-secretária de “Placar”, agora, que pena, viúva.

 

 

2 ideias sobre “Para Sérgio Martins

  1. Emerson Paranhos

    Bem disse o administrador: cansado de escrever sobre os bons que estão indo embora antes do tempo.
    Deus ilumine a chegada de mais um que deixa muita falta aqui

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