6:02Musculatura não é tudo

por Ivan Schmidt

 

A depender da visão otimista que o vice-presidente Michel Temer (licenciado da presidência do PMDB) tem da situação pré-eleitoral da agremiação, nunca o mar foi tão benfazejo à navegação da antiga nau capitaneada pelo saudoso Ulysses Guimarães.

Nas últimas falas de Temer veiculadas pela imprensa, o PMDB que está alijado do poder nos principais colégios eleitorais (São Paulo, Minas, Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Ceará, entre outros menos expressivos), para compensar, tem a vice-presidência da República, as presidências do Senado e da Câmara, mil prefeitos e cinco ministérios.

Contudo, essa musculatura institucional invejável não é nem de perto compensada pelo exercício do poder em estados importantes, restando quase isolado nessa composição o Rio de Janeiro, onde o governador Sérgio Cabral faz das tripas coração para convencer o PT a arquivar a candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo, para apoiar a eleição do vice-governador Luiz Fernando Pezão, que é do PMDB.

Governador com a pior avaliação entre os colegas, Cabral não consegue romper o círculo de ferro da passividade administrativa que contaminou sua administração, além de ser uma vítima constante da mão pesada do crime organizado, que apesar do esforço feito por meio das unidades de pacificação em várias favelas cariocas, mostra-se cada vez mais insolente.

Pilhado pela utilização que havia sido vetada de helicópteros do governo para ir com a família até a casa de veraneio no litoral sul do estado, nos finais de semana, Cabral saiu-se com uma desculpa que pode até sensibilizar: pela firmeza no combate à criminalidade, especialmente o tráfico de drogas, ele sente-se ameaçado pelos principais grupos criminosos da cidade do Rio de Janeiro.

Ocorre que para a maioria da população que segue indefesa e sem a menor proteção, a desculpa é boa, mas não cola. E não cola porque o cidadão pacato trabalha o ano inteiro e recolhe compulsoriamente os impostos que a implacável máquina arrecadadora suga sem piedade, embora dificilmente perceba a presença do ente governamental a seu lado, começando pela questão da segurança.

Para se ter ideia do apetite fiscal no Brasil, basta lembrar que a arrecadação federal bateu o recorde em novembro – R$ 110 bilhões – ou mais de R$ 25 bilhões sobre o resultado de outubro. Entretanto, é uma vantagem que custa a chegar aos estados e municípios e, quando chega é em ritmo de conta-gotas. Prefeitos de todo o Brasil, em demonstrações repetitivas para não dizer humilhantes estiveram novamente na capital federal, reclamando medidas urgentes do Congresso para a liberação de dinheiro.

E justo lembrar que o governador do Rio (e não somente ele) também é vítima desse processo, ou seja, a lerdeza do governo da União em repassar aos estados e municípios o que lhes cabe de direito nos fundos de participação respectivos. Mas, é igualmente verdadeiro que as administrações regionais estão com suas estruturas de pessoal inchadas, além dos milhares de cargos em comissão, dos quais na maioria das vezes pouco é exigido em competência e operosidade dos sortudos que foram nomeados.

Todo esse quadro é exibido em cores vivas mediante as cenas lamentáveis estampadas pelos meios de comunicação. O banditismo grassa a olhos vistos, perpassando inclusive as estruturas da ordem pública e da justiça. Para ficar com as agruras vividas pelos habitantes do Rio de Janeiro, a leniência dos administradores do município e do estado, mais uma vez “brindam” a população com o caos causado por trombas d’água, cuja engenharia de escoamento e saneamento já é capaz de prevenir e resolver em qualquer lugar do planeta.

Dificilmente o PMDB voltará a eleger o governador do Rio, assim como está praticamente descartado da Bahia ao Rio Grande do Sul. O caso do Paraná é típico, porque Temer tenta convencer o partido a apoiar a candidatura da ministra Gleisi Hoffmann.

O problema do vice-presidente é localizar o autorizado interlocutor do PMDB paranaense, porquanto na confusão instalada nesse autêntico coletivo há quem defenda a candidatura própria de Roberto Requião, o apoio à reeleição de Beto Richa, e mesmo quem só veja alternativa de sobrevivência em compor a chapa de Gleisi (que vê com simpatia a solução) indicando o vice-governador, no caso Orlando Pessuti.

Como no velho dito mineiro, a política é como a nuvem: cada vez que você olha ela já está diferente.

 

 

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