5:58“Libertas quae sera tamem” e um pouco de jornalismo

por Raul Guilherme Urban (*)

 

 

Hoje é sexta-feira, 13 de dezembro de 2013. Data repleta de simbolismos – a começar pelo número 13, considerado de azar por alguns. Não entro no mérito, mas, e sim, enveredo para o caminho de uma reflexão de conteúdo político-histórico e também um tanto saudosista e sentimental.

Há exatos 45 anos, o 13 de dezembro de 1968 também, coincidentemente, caía numa sexta-feira. Basta consultar um desses calendários permanentes que ocupam as páginas iniciais das agendas, e comprovar que é verdade. Data fatídica, já esquecida por muitos, porque remete à edição de um dos mais violentos instrumentos jurídicos já conhecidos no Brasil, que então vivia um regime político de exceção, fruto do golpe militar de 1964: o Ato Institucional número 5, assinado pelo então presidente da República, marechal Arthur da Costa e Silva.

Em 1968, frequentava então o segundo ano do curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade Católica do Paraná. Era o tempo em que a faculdade funcionava nas instalações do velho Colégio Santa Maria, com porta de entrada na esquina das ruas XV de Novembro e Tibagi, que dava numa torneada escada de madeira de lei, à esquerda e, em frente, à sede do diretório acadêmico que levava o nome do pensador católico Jackson de Figueiredo. Naquele tempo, profissionalização era algo bem mais fácil que nos dias de hoje. A maioria dos antigos e bons jornalistas (mesmo não diplomados) lecionava, respectivamente, ou na Católica, ou na Universidade Federal do Paraná. Nesse mesmo ano de 1968, levado pelas mãos do já veterano radialista Jair de Britto (com quem me iniciei, ainda jovem, quando diretor da Rádio Cultura de Joinville, cidade de minha origem), em 1º de maio, estreei como repórter  e redator na antiga Rádio Independência do Paraná, que funcionava no 22º andar do Edifício Asa. Em 1º de maio de 2013, completei meus 45 anos de jornalismo profissional, bem vividos, experiente,  com amor sempre redobrado à profissão escolhida.

A permanência na Independência foi curta. Acompanhei Britto, em agosto, à Rádio Guairacá, que tinha como diretor artístico o também já finado Euclides Cardoso. Foi também breve a pasagem de Britto como diretor de Jornalismo na emissora que, com os jornais “O Estado do Paraná” e “Tribuna do Paraná”, pouco antes, haviam sido adquiridos da família Mehry pelo empresário Paulo Pimentel. O grupo ocupava o imóvel da rua Barão do Rio Branco, 556.

Aliar estudo e trabalho foi, digamos, um pouco complexo, mas o trabalho matutino, como redator na rádio, tendo como colegas Manoel Carlos Karam (já falecido e meu colega de turma), Ary Laurindo e Zair Schuster (onde anda, após a aposentadoria na Sanepar?), era algo gratificante, de meados de julho a 12 de dezembro de 1968, quando veio o convite para descer um andar do prédio e me engajar como diagramador da “Tribuna”, à noite. Convite feito pelo professor e guru, espécie de “pai” para quem dois anos antes mudara de mala e cuia para Curitiba: Mussa José Assis, professor de Jornalismo na Católica, chefe de redação do jornal que tinah como diretor outro ícone recentemente falecido: o também emérito professor (só que da Federal), João Feder.

 

Dez horas da manhã de sexta-feira de dezembro de 1968

Há dias, o clima em todo o Brasil era de expectativa, fruto de um conturbado momento político instituído já há mais de quatro anos. Chego à redação de “O Estado”, ainda vazia, na expectativa de conhecer de perto não só novos colegas, como também toda a mecânica para diagramar a “Tribuna”, que nascera vespertina, sempre à noite, após as aulas na universidade. Já conehcia todas as instalações da Barão, mas trabalhara de perto apenas com os colegas da Guairacá, onde, por sinal, também à noite, após diagramar o jornal, editava as últimas notícias (em companhia do trio já citado), apresentadas exatamente a partir da meia-noite pelo multimídia formado em Direito, amigo único de todos, então dono de um Ford Galaxie 500 – carro de luxo recém-lançado no país – Ivan Curi, também já desaparecido: era o “Redação Zero Hora”.

Na manhã daquele 134 de dezembro de 1968, jamais supus não caminhar pelo centro e, das 13h às 17h, deixar de assistir às aulas na Católica. Na redação, um Mussa nervoso, bem como outros mais experientes, como Milton Volpini, Aramis Millarch, João Dedeus Freitas Neto, Nelson Comel (editor de esporte amador), Rafael Munhoz da Rocha (conehcido como editor de turfe, com seus cavalinhos do Jóquei Clube), Cícero Cattani, Enock Lima Pereira, Gilberto Ricardo dos Santos, os diagramadores Antônio Cordeiro, Vânia Mara Welte, além de Gilberto Mezzomo (faleceu ao seu Karmann-Ghia colidir, na BR-116, na traseira de um caminhão, ao retornar à cidade, vindo do Santa Mônica Clube de Camppo), Milton Ivan Heller, e os então “noviços” Jaques Brand, Malu Maranhão, Terezinha Cardoso, Benedicto Branco (que editava as “Triboladas”, em companhia do Karam)…. todos e tantos outros (desculpem a falha de memória), iam e vinham carregando folhas de papel, laudas, canetas, martelando as teclas das heróicas máquinas de escrever Olivetti Lexikon 80.

Um lance de degraus abaixo do prédio frontal de “O Estado”, onde funcionavam as oficinas que guardavam calandra, linotipos e impressora – tudo pilotado pelo amigo Barriga (eternamente preocupado com o próprio mau-humor provocado por um golezinho a mais, para espairar o estresse, no “Caneco de Sangue”, bar que então ficava na esquina da Barão com a avenida Visconde d Guarapuava), estava outro ícone que também se foi recentemente: Dante Alberti, pai do nosso querido amigo e fotógrafo Átila, que então comandava, com o sócio Evaristo, a agência de notícias Transpress.

Tempos heróicos, aqueles. Funcionava tudo à base de rádio-escuta. Dante, fone de ouvido colado à então potente Rádio Tupi ou à Rádio Eldorado, ambas de  São Paulo, em ritmo de metralhadora, da(c)tilogarafava, em regime de urgência, desde o começo da tarde, as notícias, mais tarde, a íntegra, do fatídico AI-5. A transcrição integral, exigindo o máximo dos dedos, terminou só altas horas da noite, quando os jornais puderam ser “fechados” e impressos.

Num tempo em que internet era não mais que um sonho futurista, o material transcrito era reproduzido e despachado aos demais jornais e rádios impresso num mimeógrafo a álcool. Alguém lembra? Duro era ler tudo aquilo, em folhas manchadas, que muitas vezes impossibilitava a compreensão de palavras transformadas em manchas azuladas.

Mal imaginávamos, todos, que o expediente daquele 13 de dezembro de 1968 não encerraria, como de praxe, por volta das 22 ou 23 horas – quando, habtiualmente, tomados de fome, andávamos uns poucos metros e nos fartávamos (dependendo do dinheiro no bolso) com porções de sopa de legumes, alcatra para duas pessoas ou filé grisê no histórico, antológico e então único endereço madrugeiro gastronômico da cidade – o Bar Palácio. Era então onto obriagtório de encontro também dos coleguinhas da concorrência – Jorge Narozniak, Arnoldo Anater, Aroldo Murá (eventualmente), Danilo Cortes, Roberto Novaes (todos eo extinto Diário do Paraná), ou ainda Antoninho Nogueira e D´Aquino Borges (então ainda acumulando função como advogado da extinta Rede de Viação Paraná-Santa Catarina) – ambos da Gazeta do Povo.

Tínhamos um código, no Palácio: cada redação sentava em mesas distantes uma  da outra, para evitar que esse ou aquele cometesse a heresia em contar ao concorrente os dados que poderiam gerar algum “furo” (jargão jornalístico que significa dispor de uma informação em primeira mão). Mas nenhum de nós, em meio à febril atividade das congestionadas redações, naquele dia fatídico em que se anunciavam centenas de nomes vítimas de cassações políticas, que permaneceríamos, literalmente, retidos nessas reeaç~eos até o dia seguinte, dia 14.

Lembrei-me, em meio àquela barafunda, ao lema constante sob o triângulo (de origem maçônica) da bandeira de Minas Gerais: “Libertas quae sera tamem” – expressão que, traduzida do latim, significa “Liberdade, ainda que tardia”. Pura ironia, se lembrarmos que o berço da chamada Revolução de 1964 (foi mesmo dia 31 de março, ou já no dia 1º de abril?) foi nas Minas, sob a égide do então governador Magalhães Pinto, com os tanques guiados pelo geral Olímpio Mourão Filho.

Curitiba – sexta-feira,13 de dezembro de 1968 – o momento vivido por todos que estavam na Editora O Estado do Paraná (também nos demais veículos, mas testemunhei apenas o em que estreei naquele dia na mídia impressa, vindo do rádio), foi único, histórico. Mesmo limitados pela censura, vítimas da então lenta obtenção informativa vinda de agências carentes de recursos tecnológicos, colocamos na rua o que havia de melhor. Na já madrugada alta do dia 14, sôfregos, famintos, mas incapazes de obter novas notícias àquela hora, com diagramação sofrível, porque feita às pressas, para que  a informação chegasse com urgência aos leitores, “O Estado” e a “Tribuna”, amarrados em feixes, foram rapidamente embarcados no caminhão Ford F-350 da Editora, que diariamente (de madrugada) venciam a distância entre Curitiba e a sucursal do jornal, em Londrina, em cerca de apenas cinco horas. A partir dali, os jornais eram distribuídos aos demais municípios vizinhos. A capital, a entrega e distribuição era feita com ajuda de cinco Rural Willys – utilitários então tradicionalmente usados para transporte de carga.

 

Curitiba – sexta-feira, 13 de dezembro de 2013 – Quarenta e cinco anos depois, a velha sede da Editora, na rua Barão do Rio Branco, abriga agora um empreendimento que nada faz lembrar o enderço que respirava Jornalismo. Tantos dos que souberam, naquela época, contar, pontualmente, um instante trágico, mas único, da História do Brasil – o da ditadura -, repousam na memória nossa, saudosa e sempre grata, e descansam em paz. Quarenta e cinco anos deposi de, naquele 1968, talvez o Bar Palácio ter tido sua maior arrecadação na madrugada – fruto da presença maciça de jornalistas que não dispunham de outro endereço gastronômico -, olho para trás, saudoso, sim, mas perseguindo mentalmente a trilha que eu próprio tracei, na companhia dos muitos, rumo ao aprendizado constante. Devo aos nominados e aos fatalmente não lembrados (por conta de min há memória), a mais profunda gratidão.

Neste 13 de dezembro de 2013, quando o Brasil respira Democracia em sua plenitude, Libertas quae sera tamem. – a liberdade nunca é tardia.

 

*Raul Guilherme Urban é jornalista

3 ideias sobre ““Libertas quae sera tamem” e um pouco de jornalismo

  1. Ivan Schmidt

    Grande Raul Urban, com quem tive o prazer de trabalhar na redação d’O Estado do Paraná nos meados dos anos 70, seu texto é um primor de informação privilegiada sobre o clima fatídico da madrugada de 13 de dezembro de 1968, na comunidade jornalística de Curitiba. A longa relação dos nomes dos profissionais da época — muitos ainda estão na ativa — fez-nos relembrar com saudade dos que partiram…
    Dizem que jornalista sem memória é um caso perdido, o que Raul desmente com propriedade. Parabéns!

  2. Raul Urban

    Ivan, meu caro – desculpa não ter-te citado na extensa relação dos que procurei recordar… a nossa memória é assim mesmo: quando atingimos uma certa idade, tragados pelo tempo, cometemos o ato falho de esquecermos esse ou aquele. A propósito: temos ainda, na galeria dos lembrados – vivos ou mortos – Newton Stadler de Souza, que lecionou Ética e Legislação de Imprensa, na Católica; fotógrafos de “O Estado” como Waldomiro Costa, Dilson Bettes (o “Portão”), Portos Casella, a dupla gloriosa formada por pai e filho, Oswaldo e Édison Jansen… ou será que não é inustiça deeixar de citar o Joel da clicheria. ou mesmo o antológico “seo” Abrão, já velhinho, tocando aquela cantinha pintada de cinza no fim do corredor, na Barão? Ao nominar o Ford F-350 que viajava, na madrugada, a Londrina, esqueci de contar: o motorista era o Frank Correia -exsperiente profissional que fora, no passado, motorista do consulado norte-americano em São Paulo. E tínhamos ainda, claro, no comando das finanças, o também já finado João Batista Morais. Lembremos ainda Geraldo Russi, Nankin na Cara. Enfim, aquele 13 de dezembro de 45 anos atrás nos é um martco em nossa vida jornalística. A todos, um abraço, com o dever de cada um de nós, na medida em que a memória estiver ainda ativa, acrescedntem nesse elenco os nomes que nos são tão caros. A propósito: Mussa, um aficcionado por automóveis, sempre guardou bem seu DKW Fissore, e quando do lançamento do Corcel, pela ford, ainda na segunda metade dos anos 1960, foi um dos pioneiros na compra do então “intrépido” Corcedl GT. Ivan Curi, como já dito, vinha de Galaxie. E Aramis Millarch, em seu Karmann-Ghia.
    Mais um pequeno (e irônico) detalhe: nos anos de chumbo, a Editora, então na rua Barão do Rio Branco, ocupava um endereço da via que num passado mais distante – e democrático – se chamou Rua da Liberdade. E mais: na mesma época, na rua Pedro Ivo, a poucos metros da Barão, colado ao muro do terreno então desocupado que pertencia ao Grupo Hermes Macedo – mas onde, heroicamente, “sobrevivia” o imóvel que guardava a Padaria dos irmãos Becker -, havia um estacionamento cuja razão social, nesses mesmos anos duros, era óbvio: Estacionamento Liberdade Limitada.

  3. Célio Heitor Guimarães

    Belo texto, Raul. Uma autêntica reportagem, ao estilo Aramis Millarch, que sabia tudo de todos. Fico feliz ao ver que continuas em boa forma, capaz de remeter-nos a um passado de imensa saudade. Saúde e paz, como diria o nosso Zé Beto. E apareça sempre.

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