7:09A senhora da motocicleta

Por Ivan Schmidt

 

A campanha eleitoral para a presidência em 2014 está em franco desenvolvimento desde que a candidatura de Dilma Rousseff foi autorizada pelo próprio Luiz Inácio Lula da Silva para domar a repercussão do “volta Lula”, movimento surgido no âmago do chamado lulopetismo, ou do substrato partidário convencido de que a nobre senhora da motocicleta não conseguiu demonstrar, na prática, a alardeada competência gerencial.

Consideremos o fato importante que os demais nomes incluídos nas pesquisas de intenção de votos (Aécio, José Serra, Eduardo Campos ou Marina Silva), ainda se colocam como pré-candidatos, ou seja, nenhum deles tem a aprovação oficial dos respectivos partidos ou coligações, tirada em convenção nacional.

Há quem lembre que Dilma está na mesma situação, porquanto o PT também não fez a convenção nacional para aclamá-la, mesmo porque é necessário que todos cumpram os prazos estabelecidos em lei. Mas, uma verdade ninguém nega: Dilma está abertamente em campanha pela sucessão, cumprindo uma agenda pré-eleitoral meticulosamente elaborada pela miliardária assessoria de marketing.

As últimas pesquisas indicam o favoritismo da presidente sobre os demais pré-candidatos (uns mais outros menos), mas nenhum deles em condições (nesse momento) de derrotá-la. Todavia, o traço comum levantado pelas pesquisas é que a maioria dos eleitores reclama mudanças concretas na maneira de governar. Em outras palavras a maioria está com Dilma, mas espera muito mais do que o governo foi capaz de entregar.

Muita gente está começando a por as barbas de molho, porque nada impede que o favoritismo ainda mantido por Dilma acabe migrando nos próximos meses para algum outro pretendente. E outra coisa: no momento em que as candidaturas estiverem sacramentadas é óbvio que a intenção de votos nos oponentes também cresça, e a soma de seus sufrágios conduza o pleito para o segundo turno. De resto, uma perspectiva engrossada pela possibilidade do governo não apresentar um saldo positivo de realizações, sobretudo, na avaliação que pode ser feita hoje.

Ao contrário, o governo terá a desgastante tarefa de explicar o resultado inexpressivo do crescimento da economia no terceiro trimestre, com o recuo de 0,5% em relação ao trimestre anterior, levando os economistas a reduzir a estimativa de crescimento do PIB em 2013 de 2,5% para 2%. Até quando teremos de ouvir o ministro Guido Mantega entoar sua incrédula ladainha diante dos moinhos de vento? E o quadro ficará ainda pior em face do impacto negativo sobre o desempenho do próximo ano, já havendo quem se arrisque a dizer que o PIB ficará abaixo de 2%. A Petrobras, nossa maior estatal, garroteada pelas decisões da cúpula governamental, vê esvair-se perigosamente seu valor no mercado internacional a cada galão de gasolina e derivados que importa para atender o consumo interno.

Mesmo assim, não foi autorizada a repassar a parte realista do custo financeiro das importações (no qual os acionistas estão de olho), para os preços cobrados do consumidor, segundo o governo para não alimentar a inflação, embora em cada esquina se saiba que aumento de combustíveis numa hora dessas será uma marretada na popularidade de Dilma.

O próximo ano que só começa após o carnaval, marcado para a primeira semana de março, estará comprometido pela Copa do Mundo, com feriados nacionais em dias de jogos da seleção brasileira e, em algumas sedes, com a paralisação da atividade econômica também nos dias de jogos nas arenas locais, cujo final será imediatamente sucedido pela campanha eleitoral.

Caso os índices de crescimento econômico repitam a debilidade verificada esse ano, especula-se sobre os recursos verbais que a presidente Dilma Rousseff terá de arguir (ela que é oradora sofrível) para tirar leite de pedra, ou explicar o inexplicável nas arengas de campanha.

Nessa toada, sem concluir uma obra de vulto (a transposição das águas do São Francisco deu em nada e as novas usinas hidrelétricas do Xingu ainda se debatem com a questão ambiental), ganham corpo a inapetência governamental e o cipoal burocrático. Problema sumamente agravado pelo nível absurdo a que chegou a corrupção com dinheiro público, o que obrigou o Tribunal de Contas de União (TCU) a suspender a execução de inúmeras obras, tais as evidências de malversação dos recursos orçamentários.

O governo, contudo, levou a bom termo o leilão de Libra, uma das portentosas reservas de petróleo do pré-sal, do qual se excluíram por opção própria as mais importantes empresas de petróleo do mundo. Até agora ninguém explicou os motivos, mas os analistas do setor mostraram-se surpresos ao constatar que a Petrobras entrou na composição do único consórcio interessado no citado campo, pagando bilhões por algo que já lhe pertencia.

A mesma eficiência não foi observada nas concessões para a iniciativa privada de rodovias essenciais para o escoamento das safras de regiões geoeconômicas vitais para o desenvolvimento do país. Evitando pronunciar o termo “privatização” e fugindo dele como o capeta da pia de água benta, agentes do governo festejaram a entrega dos aeroportos do Galeão e do Distrito Federal à gestão de um mega conglomerado econômico a poucos meses do início da Copa, quando legiões de viajantes domésticos e estrangeiros estarão indo e vindo dos locais dos jogos.

No campo da política, a gestão dilmista também se ressente de uma costura apropriada, embora abuse do direito de abarrotar o Congresso com medidas provisórias. Senado e Câmara são dominados por cobras criadas da política, sendo os presidentes Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves, manjados por sua capacidade de manipulação do apetite fisiológico da maioria das bancadas, de modo que as respostas dadas ao Executivo, em grande medida, acabam refletindo as decisões das mesas diretoras.

Antigo parlamentar paulista já dizia que no Congresso o que tem mais valor é a oração de São Francisco, mas só no trecho “é dando que se recebe”, ao passo que Lula, então deputado constituinte pelo mesmo estado brindou seus colegas com o desbocado epíteto de “picaretas”.

A própria aliança partidária sobre a qual o governo se sustenta no Congresso, na Esplanada dos Ministérios e na alta direção das empresas estatais, parece incomodada em prosseguir dando apoio irrestrito ao governo petista, mesmo porque Lula e Dilma não conseguiram dar respostas efetivas aos anseios da classe empresarial, especialmente quanto às reformas tributária e trabalhista.

O exemplo mais gritante da insatisfação está no próprio PMDB, o maior partido da aliança, que para efeito de convencimento do público externo mostra-se unido em torno do apoio a Dilma e, preferencialmente, da manutenção de Michel Temer na chapa presidencial. Entrementes, o partido está inevitavelmente rachado em vários estados, obviamente influenciado pelas nuanças locais e, assim, acenando com um arco tão esdrúxulo de palanques que a candidata majoritária terá sérias dificuldades em aceitar.

Fiquemos com o que se diz por aqui no que restou do partido. Há frações se batendo por candidatura própria ao governo estadual, outras pretendendo apoiar Gleisi Hoffmann e, ainda, os que devem marchar com Beto Richa. Haja palanque para acomodar tanta discórdia.

Outra sofrível amostra da instabilidade programática do PMDB é conhecida no Rio de Janeiro, onde o encabulado governador Sérgio Cabral curte os piores índices de avaliação do país, mas dando a impressão de que isso não lhe diz respeito, anunciou a intenção de renunciar e se candidatar ao Senado, atendendo candentes apelos de sua inquebrantável base eleitoral. No contraponto, Dilma terá o palanque do candidato do PT ao governo, senador Lindbergh Farias, embora o primeiro colocado nas pesquisas seja o ex-governador Anthony Garotinho.

Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin domina a cena e se reelege no primeiro turno, enquanto na capital o prefeito Fernando Haddad derrapa e só consegue atingir os índices de popularidade de Celso Pitta, uma das páginas mais nefastas da política paulistana tirando seu inventor, Paulo Maluf. Minas seguirá com Aécio até o fim e Pernambuco com Eduardo Campos, restando a Dilma entre os grandes estados a Bahia e o Rio Grande do Sul. Os operadores de sua campanha rezam para que os votos do Norte e Nordeste não se dividam. Agarrar um gato preto em quarto escuro é mais fácil.

 

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