8:05A grande chance de Adriano

A chegada de Adriano ao CT do Clube Atlético Paranaense virou notícia nacional e deflagrou uma imensidão de piadas que comprovam mais uma vez o grau de preconceito e desconhecimento que existe sobre o problema do jogador, principalmente por parte dele mesmo – mas aí a conversa é outra, porque ele pratica a negação do problema, que é uma doença. Na imprensa brasileira o único a enxergar o problema e escrever com propriedade sobre ele foi o escritor e jornalista Ruy Castro, mesmo porque faz parte do time, assim como o signatário, ou seja, é um dependente em recuperação (ler abaixo). Castro há 25 anos e este que voz escreve há 19. Adriano tem a grande oportunidade de se dar uma chance. Não se sabe se para voltar a jogar futebol, pois ultrapassou a barreira dos 30 anos e não joga há muito tempo, mas para sobreviver de uma forma normal, coisa que parece muito difícil para as pessoas, principalmente os dependentes, pois “querem mais”. No Atlético Paranaense ele pode conversar muito com o goleiro Rodolfo, um menino que cheirava cocaína desde os 15 e aos 21 viu seu mundo aparentemente desmoronar ao ser pego no exame antidoping exatamente quando decolava na carreira, ele que tem é um talento nato. O Atlético não fez o que qualquer clube faria, assim como muitas famílias, por falta de conhecimento do problema. O clube deu apoio, tem profissional especializado na área, o jogador foi internado numa clínica de recuperação e iniciou o difícil, mas possível caminho de recuperar o controle sobre a própria vida, coisa que Adriano também perdeu. Qualquer leigo no assunto vai falar que o dinheiro, a fama, estragou Adriano. Se fosse assim não haveria grandes craques no milionário futebol mundial. Rodolfo continua em tratamento. Assim como Ruy Castro e o signatário. O tratamento é para sempre porque a doença é incurável, mas controlável. Rodolfo faz terapia na clínica onde ficou internado. Para que? O ato de beber, cheirar, fumar, etc é sintoma da essência da doença, que é emocional. Numa clínica e fora dela o tratamento se faz com terapia, ou seja, a busca do autoconhecimento através de… conversa. Pode-se trilhar isso conversando com o padre, o pastor, um amigo. Mas, como diz o Alcoólicos Anônimos, temos que reconhecer que somos doentes e nossa impotência sobre o vício. É o primeiro e um grande passo. Se apenas força de vontade desse jeito e houvesse algum remédio milagroso, seria bom e fácil. Não é por aí – e muitos morrem, como o grande jogador Sócrates e o gênio Garrincha. Se Adriano voltar a jogar, ótimo. Se sua ficha cair, como se diz nas clínicas para identificar  o início do processo de recuperação que, só por hoje, tem que ser prioritário em nossas vidas até o último suspiro, melhor ainda. Nada é mais sagrado do que a vida.

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por Ruy Castro

 

em 22/08/2012

 

Talvez o Adriano não tenha completo domínio sobre a história dele, sobre os atos dele. Talvez essa capacidade de decidir sobre o comportamente já esteja fora dele. Pode ser algo orgânico, e não mental. E nesse caso, precisaria de ajuda externa. Ele não precisa de psicólogos, ele precisa de uma ajuda técnica, ajuda profissional. Os únicos que entendem sobre esse assunto, alcoolismo, (…) (são) terapeutas especializados em alcoolismo – disse o escritor, no “Redação SporTV”.

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em 07/11/2012

Prometi-me não escrever mais sobre Adriano, o ex-Imperador, ex-atleta, ex-jogador. Aos 30 anos, sua carreira no futebol está encerrada. Todas as tentativas para recuperar seus tendões, fazê-lo perder 20 kg e botá-lo em forma, por mais bem planejadas, fracassarão. A tendência é a de que as notícias a seu respeito logo deixem as páginas de esporte e se mudem para outros cadernos dos jornais.

Mas, se o jogador não é mais personagem, resta o homem –e é este que, mais do que nunca, está em perigo. O Flamengo, clube que o revelou e do qual ele se afastou de vez nesta segunda-feira, mantinha-o “treinando” por medo de que, sem o futebol, Adriano emburacasse de vez. A intenção era louvável, mas inútil. Ele já emburacou. Não tem mais controle sobre seu comportamento. Quem o comanda é o álcool.

Adriano sobe aos palcos ou à mesa dos botequins e se diz “orgulhoso de ser da favela”, que “tem dinheiro, mas não precisa dele” e é vítima “da inveja”. É a prepotência em pessoa. Não admite seu único problema: o de que sua vontade tornou-se uma combinação de água, malte de cevada e lúpulo.

Ainda não chegou ao estágio em que o sentimento de culpa faz com que o alcoólatra cogite sinceramente interromper o consumo (mas não consegue, porque o organismo já fala mais alto do que o cérebro). E, pelo tom eufórico de suas aparições, sempre registradas pelas câmeras, ainda não foi tomado pela depressão e pela inércia. Mas tudo isto –culpa, depressão, inércia– sobrevirá, e não terá a ver com o fato de ele estar “treinando” ou não. Será apenas uma fase inevitável do processo.

A única chance para o homem Adriano seria uma internação de pelo menos seis meses em clínica especializada e de regime fechado. Mas os alcoólatras têm uma lógica própria. Não se envergonham da doença –só do tratamento.

 

4 ideias sobre “A grande chance de Adriano

  1. sb

    O que fez com Rodolfo e o que faz com Adriano é digno, mas como futebol é negócio, e Patráglia não dá ponto sem nó, o problema será se Adriano não conseguir voltar a jogar futebol. Será mais uma vez convidado a se retirar e procurar tratamento por conta própria. Ou o Atlético banca o tratamento independente da bola?

  2. CHC

    Belíssimo texto, parabéns ! Estava contando piadinhas sobre Adriano mas não percebemos a gravidade da doença. Força Adriano, milhares de jovens estão na sua mesma situação e merecem um exemplo em suas vidas. Os jogadores de futebol no país da bola são exemplo em quase tudo, que seja o exemplo mais positivo para a juventude perdida pelas drogas.

  3. admin Autor do post

    caro sb, o pagamento é aparecer o nome do atlético, como escrevi ontem. não se coloca dinheiro e ganha-se muito com o tal do marketing. abraço. saúde.

  4. kowalski

    Quando uma coisa dá errada (perda do título), cria-se uma cortina de fumaça. O CAP, via Petraglia, está na mídia…

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