9:09Andorinhas sempre nos observam

Ilustração de Theo Szczepanski

por Rogério Pereira

O pó se acumula com facilidade. Passo o pano com atenção nos cantos. De onde vem tanto pó? Da janela, observo os dois caminhando lentamente pela rua. É manhã de sábado. O sol forte produz ainda mais poeira. Nem sinal de chuva por trás das árvores. O aspirador é barulhento, mas eficaz. O homem leva o menino pela mão. O homem é meu pai. O menino, meu filho. São dois estranhos entre si. O neto nada sabe sobre o avô. Confia no instinto familiar — segura firme a mão direita daquele estranho pela rua numa manhã de sábado. O homem guia o neto com orgulho, mesmo sem saber escrever de maneira correta o seu nome. Foram passear enquanto deixo o quarto em ordem. Recolho roupas, limpo sapatos, arrumo a cama, lavo o banheiro. Não gosto do trabalho doméstico — o mesmo cuja vida a mãe dedicou até a tarde em que o câncer decidiu que chegara a hora da aposentadoria.

Vão até a esquina e retornam. Não têm pressa. Um começa a vida. O outro se aproxima do fim. Meu filho é magro e muito branco. Meu pai não é gordo nem magro. A pele tem cor de índio. O pai solta algumas palavras, aponta a vizinhança. Percorrem os poucos metros como se se tratasse de uma aventura secular. Uma cavalgada por La Mancha. Passa o mesmo cachorro de todos os dias. É peludo e lembra um urso. Meu filho se agarra um pouco mais ao avô. Ao fundo, a serralheria molda um portão. Na bifurcação das ruas, acaba o antipó. O caminho é de terra e pedra. Talvez seja dali que venha tanto pó. Não sei. O bairro está crescendo. Vive povoado de pedreiros e serventes. O barulho das novas casas nascendo começa bem cedo. Na esquina, quatro casas iguais lembram uma caixa de sapatos para abrigar seres humanos. Ainda estão vazias. Logo, teremos novos vizinhos.

Diante do portão de casa, os dois diminuem o passo. Uma revoada de andorinhas se amontoa nos fios da rede elétrica. Meu filho para imediatamente. Os pequenos pontos em preto-e-branco o encantam. A luz do sol transforma o azul metálico das penas em algo próximo do preto. Andorinhas ironizam meu daltonismo. O avô explica algo sobre os pássaros. De onde estou, não consigo ouvir o diálogo. As andorinhas se revezam pelos fios num balé de razoável sincronia. Meu filho quase nunca vê pássaros. Mora num prédio. Não sei se é importante ver pássaros na infância. Passei a infância toda no meio do mato, entre pássaros e pequenos animais — preás, saracuras, lagartos, raposas. Nós no mato, o pai no trabalho. Nós no mato, o pai no bar. Nós na escola, o pai no mato? Era difícil encontrar o pai.

O galho de pessegueiro é excelente para o cabo do bodoque. Depois, a borracha de qualidade, o embornal cheio de pedras. Cedo me embrenhava pelo matagal. Gostava de caçar sozinho. A solidão na infância me protegia. Voltava para casa por volta do meio-dia. Encontrava a mãe ao redor do fogão à lenha preparando o almoço dos filhos. À tarde, íamos à escola. No tanque de lavar roupas, abria o embornal e despejava a caça do dia. Depenava os passarinhos com agilidade. Em seguida, abria a barriga das pequenas aves com a faca de cozinha. A água limpava a pança vazia e magra de pardais e tico-ticos.

Depois, era só encontrar um espaço na panela entre os pedaços de frango. Jogava-os ali, com um pouco de sal. Meus frangos eram excessivamente magros, desprovidos de carne. Eram pele e osso. Quando muito um sabiá gordo quebrava a rotina do cardápio infantil. A mãe não se importava com minhas aventuras de caçador. O pai de nada sabia. Nunca estava em casa.

Aos poucos, as andorinhas começam a migrar do fio de luz para os galhos da araucária. Meu filho acaba de aprender que Curitiba significa muito pinhão. Meu pai nem desconfia da origem do nome da cidade que escolheu para nós no final dos anos 1970. Centenas de pássaros borram a manhã ensolarada. Meu filho olha encantado. Eles continuam na rua. Já não estão mais de mãos dadas. O menino gesticula em direção aos pássaros, que não param de se movimentar. Meu pai parece feliz em dividir a manhã de sábado com o neto. Meu filho gosta da companhia do avô — aquele estranho. É bom vê-los juntos. Após alguns minutos, todas as andorinhas partem para outras bandas. A revoada tinge parte do céu. Os dois abrem o portão de entrada. Eu continuo a limpeza do quarto. Ouço passos apressados subindo a escada de metal. Meu filho tem algo a me contar.

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